É lindo ver como a cena independente brasileira continua revelando artistas que carregam uma identidade tão forte quanto autêntica. Em um momento em que tantas produções parecem seguir a mesma fórmula, encontrar trabalhos que realmente possuem uma personalidade própria é quase um respiro. E foi exatamente isso que aconteceu quando escutamos “Minha cidade deixa de existir”, novo álbum de Artur Miranda. Um disco diferente, sensível e profundamente honesto, onde é possível sentir a força do shoegaze, do indie e do rock alternativo que só o Brasil consegue transformar em algo tão íntimo. Existe uma melancolia muito particular em cada faixa, mas ela nunca pesa. Pelo contrário, ela acolhe.
Natural de Santa Catarina, Artur Miranda vem construindo sua trajetória de maneira totalmente independente desde o lançamento de “Fuja de si mesmo e não volte nunca mais”, em 2022. Cantor, compositor e produtor musical, ele grava, produz, mixa e masteriza praticamente todo o seu trabalho em estúdio caseiro, desenvolvendo uma estética lo-fi que não tenta esconder suas imperfeições, mas transformá-las em parte essencial da experiência. Essa escolha faz com que sua música soe extremamente humana, próxima e verdadeira.
Produzido entre novembro de 2025 e maio de 2026, “Minha cidade deixa de existir” nasce justamente desse lugar de transformação. O disco fala sobre mudanças, deslocamentos, memória, amadurecimento e sobre aquela sensação agridoce de perceber que pessoas, lugares e até versões de nós mesmos ficam para trás conforme a vida continua acontecendo. É um tema universal, mas tratado aqui de uma forma extremamente pessoal, como se Artur abrisse um diário e nos convidasse a caminhar por dentro das suas lembranças.
Musicalmente, o álbum amplia tudo aquilo que o artista já vinha construindo. As guitarras aparecem cobertas por camadas densas de reverberação, o noise rock conversa naturalmente com o shoegaze, enquanto o indie e o rock alternativo dão forma às melodias que permanecem ecoando muito depois da última faixa terminar. Existe um cuidado muito bonito na maneira como esses elementos convivem. Nada parece excessivo. Tudo encontra seu espaço.
Outro ponto que chama atenção é o fato de este ser o primeiro trabalho em que Artur divide parte do processo criativo com outros músicos. O álbum conta com participações de Cristian Malinoski, da banda Tempo Tuas Pirâmides, João Zablonski, da Terra Inabitável, além de Giovani Marcon e Henrique Moreira, enquanto os visualizers ficaram por conta de Fernanda Lupatini Pedroso. Essas colaborações ampliam ainda mais o universo sonoro do disco sem retirar aquilo que sempre fez parte da identidade do artista.
Nós, da Divergent Beats, gostamos muito quando um álbum consegue transmitir uma sensação antes mesmo de contar uma história. “Minha cidade deixa de existir” faz exatamente isso. Existe uma nostalgia permanente atravessando todas as músicas, mas ela nunca se transforma em saudosismo vazio. É uma nostalgia que conversa com crescimento, aceitação e mudança. O disco entende que deixar algo para trás também faz parte de continuar vivendo.
Entre tantas faixas marcantes, duas conquistaram um lugar muito especial durante nossas audições. “Velho Amor”, com a participação de João Zablonski, é uma daquelas músicas que parecem abraçar quem escuta. Existe delicadeza, existe vulnerabilidade e existe uma construção melódica que cresce aos poucos, permitindo que cada emoção encontre seu espaço. É uma canção que permanece dentro da gente muito tempo depois de acabar.
A outra foi “Medo de Festa”, talvez uma das músicas que melhor traduzem o espírito do álbum. Existe algo profundamente identificável nela. Aquela sensação de deslocamento, de não pertencer completamente aos lugares, de observar o mundo ao redor enquanto tentamos encontrar um espaço para existir. É uma música que conversa diretamente com uma geração inteira que aprendeu a lidar com ansiedade, mudanças e incertezas sem nunca perder completamente a esperança.

Também admiramos muito a decisão de Artur de manter a estética lo-fi como parte da narrativa do disco. Em vez de esconder as limitações técnicas de uma produção caseira, ele transforma essas texturas em linguagem artística. Os pequenos ruídos, as gravações mais cruas e a proximidade dos instrumentos fazem tudo soar ainda mais sincero. Não existe preocupação em parecer perfeito. Existe preocupação em parecer verdadeiro. E isso faz toda a diferença.
Ao final da audição, fica a impressão de que “Minha cidade deixa de existir” não fala apenas sobre uma cidade. Fala sobre todas as versões de nós que deixamos pelo caminho enquanto crescemos. Sobre os lugares que continuam existindo apenas na memória. Sobre amizades, amores e ruas que nunca voltam a ser exatamente como eram. É um álbum profundamente brasileiro, não apenas pelas referências musicais, mas pela maneira como transforma experiências cotidianas em arte.
Artur Miranda continua mostrando que a cena alternativa brasileira vive um momento extremamente criativo. E, com este novo trabalho, entrega um disco que emociona justamente porque nunca tenta forçar emoção. Ela simplesmente acontece.




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