Que artista incrível. A Brisa Sessions consegue sempre colocar diante da gente artistas do Maranhão que fazem a curiosidade pela cena crescer ainda mais, e Klicia, protagonista da oitava e última edição dessa primeira temporada, consegue mostrar em poucos minutos exatamente por quê. Existe música, existe presença, existe personalidade, existe uma banda maravilhosa acompanhando tudo e existe também aquela sensação gostosa de descobrir alguém pela primeira vez e terminar a sessão querendo saber muito mais. Para nós da Divergent Beats, esse foi o primeiro encontro com Klicia. E certamente não será o último.
Gravada no Doc Studio, em São Luís, a sessão encerra um ciclo de oito episódios produzidos pela Brisa Rec com uma proposta que merece ser celebrada: registrar, documentar e ajudar a fazer circular a música autoral produzida no Maranhão. Parece simples quando colocado em uma frase, mas existe uma importância enorme nisso. Uma cena musical permanece viva também quando existem pessoas dispostas a criar espaços onde seus artistas possam tocar, falar, contar suas histórias e deixar registros daquilo que está acontecendo naquele lugar e naquele momento.
E é justamente por isso que a participação de Klicia funciona tão bem.
A sessão não apresenta somente cinco músicas. Existe uma entrevista atravessando a experiência, permitindo conhecer melhor quem é Klicia, de onde vem sua música, aquilo que ela já construiu e para onde está caminhando. Tudo parece muito bem curado, sem retirar a naturalidade que uma live session precisa ter. A gente escuta a artista e, ao mesmo tempo, começa a entender a pessoa e o universo criativo que existem por trás daquelas canções.
Musicalmente, também é uma delícia acompanhar essa viagem. Klicia transita entre reggae, R&B, latinidades e diferentes elementos da música brasileira contemporânea, e a formação escolhida para a sessão permite que essas influências respirem. Ao lado dela estão João Simas na guitarra, Rodrigo Tarta no baixo, Leo na bateria, Gabriel Oliveira no trompete e Jadi Seguins no trombone. Existe balanço, existe textura, existe vida acontecendo entre os instrumentos, e isso faz toda a diferença em uma apresentação que não quer simplesmente reproduzir gravações de estúdio.
O repertório reúne “Garupa”, “Complicado”, “Tudo Que Eu Preciso”, “Novas Danças” e “Vou Voar”, atravessando diferentes momentos da trajetória autoral da cantora e compositora maranhense. Entre elas está “Garupa”, primeiro single do EP Entre Marés, lançado em 2026 e responsável por abrir uma nova etapa de sua carreira. A música trabalha ideias de movimento, liberdade e transformação enquanto aproxima referências contemporâneas de elementos do reggae maranhense, levando para dentro dessa nova fase algo profundamente conectado ao lugar de onde Klicia vem.
Mas, como essa foi nossa primeira vez entrando no universo da artista, existe sempre aquela música que inesperadamente abre uma porta maior.
Para nós, foi “Novas Danças”.
Tem uma passagem em que Klicia brinca com a ideia da vida passando enquanto ela própria continua passando, vivendo e aproveitando aquilo que está acontecendo. É uma construção aparentemente simples, mas existe uma rítmica maravilhosa na maneira como as palavras se repetem e se transformam. A vida passa, ela passa, a gente passa — e, no meio disso tudo, tenta viver. É daquelas frases que parecem encontrar o próprio significado também na maneira como são cantadas.
E é muito gostoso.
Talvez “gostoso” seja mesmo uma das melhores palavras para descrever nossa experiência assistindo a essa edição da Brisa Sessions. Não porque tudo seja necessariamente leve, mas porque existe prazer em acompanhar uma artista tão confortável dentro da própria música. Klicia tem presença sem precisar transformar presença em exagero. A banda constrói ao redor dela sem sufocá-la. Os metais aparecem, a guitarra conversa, baixo e bateria sustentam o movimento, e aos poucos você percebe que simplesmente está dentro daquela apresentação.
É uma live que mostra quem Klicia é através da própria música.
E isso deveria ser justamente a essência de projetos como a Brisa Sessions.
Depois de oito episódios, a primeira temporada chega ao fim tendo feito algo muito maior do que produzir uma sequência de vídeos bonitos. Ela começa a formar um pequeno acervo de uma cena. Artistas diferentes, repertórios diferentes, caminhos diferentes, todos atravessados por um elemento comum: a música autoral produzida no Maranhão merece ser vista, ouvida, registrada e levada para muito além de suas próprias fronteiras.
Para uma publicação como a Divergent Beats, que vive justamente da descoberta e da vontade de olhar para aquilo que está acontecendo na música independente brasileira, existe um valor enorme nisso. O Brasil musical não existe apenas nos centros que aparecem repetidamente diante dos nossos olhos. Existem cenas acontecendo em todos os lugares, artistas experimentando, compondo, formando bandas, misturando referências locais e contemporâneas e criando linguagens que talvez muita gente ainda não tenha tido a oportunidade de conhecer.
A Brisa Rec cria essa oportunidade.
E a Brisa Sessions transforma essa oportunidade em encontro.
Encerrar a primeira temporada com Klicia parece especialmente bonito porque saímos dela exatamente com aquilo que um projeto de descoberta deveria provocar: curiosidade. Queremos ouvir mais. Queremos acompanhar Entre Marés. Queremos entender ainda melhor essa mistura entre reggae, R&B, latinidades e música brasileira. Queremos encontrar novamente essa voz.
Foi nossa primeira vez escutando Klicia.
Definitivamente não será a última.
E enquanto esperamos a próxima temporada da Brisa Sessions, fica também nossa vontade de continuar olhando para o Maranhão e perguntando:
quem mais está fazendo música incrível por aí?




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