O mundo da música sergipana é incrível. Existe alguma coisa acontecendo ali que continua nos entregando artistas capazes de experimentar sem perder a raiz, de olhar para aquilo que veio antes e transformar essas referências em algo completamente próprio, vivo, estranho, bonito e profundamente brasileiro. Foi exatamente essa sensação que tivemos ao escutar “Colorida Barca”, novo single de LUNO.
Porque não estamos simplesmente diante de um cantor interpretando uma composição: estamos diante de um artista criando um mundo sonoro inteiro ao nosso redor. E entrar nele é uma experiência absurda.
LUNO é o projeto solo de Luno Torres, músico e compositor sergipano que carrega consigo uma trajetória profundamente ligada à música independente e à psicodelia brasileira. Oriundo da Plástico Lunar, nome importante do rock psicodélico nacional, e também integrante da Banda dos Corações Partidos, Luno lançou em 2021 seu primeiro álbum solo, Homo Pacificus. Agora, cinco anos depois, ele começa a abrir as portas de Mantracaru, seu segundo disco, previsto para setembro, e escolhe justamente “Colorida Barca” como nossa primeira passagem para esse novo universo.
E que passagem.
“Colorida Barca”, composta por Luno Torres e Diego Bezerra, nasce de uma ideia aparentemente simples, mas emocionalmente enorme: perceber que alguma coisa já não cabe mais em nossa vida, partir e confiar que existe algo do outro lado, mesmo sem saber exatamente aquilo que vamos encontrar. A barca se transforma, então, em muito mais do que uma imagem bonita. Ela é movimento. É decisão. É medo, esperança e transformação acontecendo simultaneamente.
Só que LUNO não conta essa história apenas através das palavras. Ele constrói a própria viagem dentro da música.
É isso que torna a faixa tão fascinante para nós. Você não sente apenas uma voz conduzindo uma canção; sente um artista pensando em cada elemento como parte de uma paisagem maior. O balanço da valsa encontra o rock, ruídos marítimos aparecem pelo caminho, vozes surgem ao fundo como se outras pessoas também estivessem dentro daquela embarcação e, aos poucos, a sensação de navegar deixa de ser apenas uma metáfora e começa quase a existir fisicamente dentro da sonoridade.
E existe um momento particularmente bonito nessa viagem. “Colorida Barca” começa apresentando seu universo e deixando que a gente encontre um lugar dentro dele, mas, depois de aproximadamente um minuto, alguma coisa muda. A sensação se transforma. É como se a barca finalmente deixasse a margem e, de repente, estivéssemos completamente dentro de outro espaço. É justamente esse tipo de construção que nos faz amar músicas que não permanecem paradas, que parecem descobrir a si mesmas enquanto acontecem.
As cordas têm um papel fundamental nisso. Os arranjos de violinos, viola e violoncelo foram criados e regidos pelo maestro Dr. James Bertisch, do Conservatório de Música de Sergipe, e interpretados por músicos da Orquestra Sinfônica de Sergipe. Não entram como decoração ou simplesmente para tornar a faixa “grandiosa”. Elas ampliam o horizonte da música. Existe uma dimensão cinematográfica em “Colorida Barca” que faz cada nova camada parecer abrir mais um pedaço dessa paisagem diante dos nossos olhos.

Produzida por Léo Airplane e Luno Torres, a faixa reúne ainda LUNO na voz, baixo e arranjos vocais, Léo nos teclados, guitarra base, violão e efeitos sonoros, enquanto Gabriel Perninha, do The Baggios, assume bateria e instrumentos percussivos. Essa combinação ajuda a explicar por que tudo parece tão orgânico: mesmo com tantos elementos acontecendo, existe vida dentro da música. Existe terra. Existe água. Existe movimento.
E talvez seja justamente aí que “Colorida Barca” fique ainda maior.
Porque você sente a raiz, sente a vida e sente o percurso de Luno Torres dentro da faixa. Mantracaru promete aproximar psicodelia brasileira, jazz, rock progressivo, sonoridades nordestinas e música indiana, atravessado por referências que vão de A Barca do Sol e O Terço a Os Mutantes, Ednardo e Tetê Espíndola. Mas “Colorida Barca” não soa como um exercício de referências. LUNO pega toda essa bagagem e a transforma em linguagem própria.
É a diferença entre simplesmente fazer música e criar um universo.
E LUNO cria.
Talvez seja por isso que chamar “Colorida Barca” apenas de bonita pareça tão pouco. Existe aqui uma verdadeira obra de construção sonora, daquelas que fazem a gente querer voltar ao começo assim que terminam para entender quantas pequenas coisas passaram despercebidas durante a primeira viagem. É psicodélica, nordestina, cinematográfica, espirituosa e profundamente humana, mas acima de qualquer definição existe uma sensação maravilhosa de liberdade.
Se “Colorida Barca” representa a face mais luminosa de Mantracaru, então estamos extremamente curiosos para descobrir quais outros caminhos esse disco pretende atravessar. Por enquanto, embarcamos com LUNO sem perguntar exatamente para onde estamos indo.
Às vezes, a beleza está justamente nisso.




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