Que álbum incrível! Escutar Primitive Chaos foi uma experiência sonora, de letras e, principalmente, de encontrar uma banda que realmente parece ter dado o máximo de si em cada segundo dessas onze faixas. É incrível. Realmente incrível. Porque o nono álbum do Paura não depende apenas do peso absurdo do hardcore para atingir quem está do outro lado. Existe pensamento, posicionamento, humanidade e uma escrita que transforma aquilo que vemos acontecendo ao nosso redor — e também dentro de nós — em música. Quanto mais avançávamos pelo disco, mais ficava evidente que seu caos não está apenas no som. Está no mundo que o produziu.

Primitive Chaos sucede Karmic Punishment, de 2023, e nasce de uma ideia fascinante: buscar aquilo que permanece quando retiramos o excesso. Aqui, “primitivo” não significa nostalgia ou tentativa de reproduzir uma época específica do hardcore. Significa chegar ao estado bruto das coisas. Guitarra, baixo, bateria e voz recuperam sua função mais física e imediata, enquanto velocidade, peso e concisão deixam pouquíssimo espaço entre aquilo que a banda quer dizer e aquilo que sentimos.

E talvez uma das frases de Fabio Prandini que melhor explique o disco seja justamente esta: “Entregamos não. Devolvemos. Porque ele veio do mundo, foi feito do mundo.” Existe algo enorme nessa ideia de devolver. Porque Primitive Chaos olha para um presente cercado por tecnologia e suposto progresso e encontra, por baixo de tudo isso, comportamentos humanos assustadoramente antigos: crueldade, ódio, guerra, abuso, ego, intolerância, manipulação. Só que o Paura não observa tudo isso de longe. A banda reage.

A faixa-título já abre o álbum colocando essa contradição sobre a mesa. “Primitive Chaos” questiona a ideia de progresso diante de uma brutalidade humana que insiste em permanecer, enquanto “The Deepest Evil” desloca essa violência para dentro e encara solidão, amargura e os demônios que ninguém pode enfrentar por nós. Logo depois, “Sarcastic Sadistic” praticamente nos joga dentro de um ambiente contaminado por ansiedade, depressão, dinheiro, rumores, manipulação e crueldade.

É impressionante como cada faixa encontra sua própria maneira de confrontar alguma coisa.

“Master Your Hate” transforma raiva em possibilidade de construção e encontra no próprio hardcore um espaço de pertencimento e ação coletiva. “King Of Yourself” desmonta ego, vaidade e falsas posições de autoridade. “Who’s The Brave?” olha diretamente para a guerra e para a distância obscena entre aqueles que exercem poder e aqueles cujos corpos terminam dentro de caixões e valas. “Purity In Heresy”, por sua vez, confronta a contradição entre moralidade, religião e a celebração do sofrimento alheio.

E então chegamos à nossa favorita: “Death Trap”.

Existe uma força enorme nessa música porque ela entra em um território que atravessa gerações: a imposição de crenças e a violência que nasce quando alguém decide que aquilo em que acredita também precisa determinar a vida de seus filhos. Logo no começo, o Paura descreve pais pressionando os próprios filhos a seguirem aquilo em que não acreditam, enquanto aqueles que resistem acabam tratados como traidores. “It’s a death trap.” É uma imagem brutal justamente porque não precisa ser complicada. Quantas pessoas cresceram dentro dessa armadilha? Quantas precisaram lutar para descobrir que poderiam existir de outra maneira?

É aqui que Primitive Chaos mostra por que suas letras são tão importantes quanto sua sonoridade. O disco não oferece agressividade vazia. Existe sempre alguma coisa sendo confrontada por trás do peso.

“Serpent’s Nest” talvez leve essa proposta ao seu ponto mais instintivo, transformando raiva, sangue, perseguição e sobrevivência em reação quase corporal. Depois, “Immigrants Are Beautiful” abre outro espaço dentro do álbum ao responder à xenofobia através da comunidade, defendendo terra, conhecimento, cores e sabedoria como coisas que existem para serem compartilhadas. É uma mensagem especialmente poderosa dentro de um trabalho tão interessado em perguntar o que ainda existe de humano sob todas essas camadas.

Por fim, “Their History Still Bleeds” encerra o percurso olhando para violência masculina, abuso, cumplicidade e para a escolha deliberada de não enxergar. As vítimas deixam de existir como números abstratos e recuperam história, presença e humanidade. O passado continua sangrando porque aquilo que aconteceu não desaparece simplesmente quando decidimos parar de olhar.

Gravado e mixado por Thiago Bezerra no Madness Music Studios, masterizado por Will Killingsworth no Dead Air Studios e com arte de Alexandre Kool, Primitive Chaos encontra força justamente em não querer ornamentar demais sua mensagem. Quanto menos lugares existem para o peso se esconder, mais diretamente ele chega.

Talvez por isso aquela definição de um disco feito com “raiva e amor” faça tanto sentido depois das onze faixas. O Paura está com raiva, claro. Mas ainda acredita em comunidade, resistência, transformação, construção e na possibilidade de encontrar alguma luz dentro dela.

Que álbum incrível.

E que maneira brutalmente humana de devolver ao mundo aquilo que o próprio mundo colocou dentro dessas músicas.

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