Já fazia bastante tempo que a gente não atravessava o Atlântico para falar sobre um artista de Portugal aqui na Divergent Beats, e é muito bonito poder fazer esse reencontro através de um trabalho como Moonlogue.

Foi escutando o novo álbum de xxMia, projeto da artista portuguesa Ana Margarida, que encontramos novamente aquela sensibilidade muito particular do indie europeu, mas também alguma coisa diferente, profundamente pessoal, que não parece querer simplesmente pertencer a uma estética. “Moonlogue” é um álbum sobre finalmente ocupar o próprio espaço, contar a própria história e entender que todas as nossas diferentes fases também merecem existir.

Natural de Santo Tirso, no distrito do Porto, xxMia chega aos 25 anos carregando uma relação com as artes que começou muito antes deste disco. Passou por concursos de talentos, dança e teatro, estudou na Escola Profissional Balleteatro, no Porto, aprendeu guitarra, ukulele e piano e começou a transformar suas próprias experiências em composições tanto em inglês quanto em português. Depois do projeto em duo Eclipse, de 2024, e do EP acústico The Delicate Art of Healing, lançado no mesmo ano, Moonlogue representa uma mudança importante: desta vez, é ela quem ocupa completamente o centro da própria narrativa.

E até o nome escolhido para esse momento é lindo.

Moonlogue nasce do encontro entre “moon” e “monologue”, lua e monólogo. De um lado está a necessidade de finalmente contar sua história sozinha, depois de experiências em duos e bandas; do outro, sua conexão com a lua enquanto representação de uma energia feminina, vulnerável, mutável e, ao mesmo tempo, poderosa. A imagem é muito bonita porque a lua nunca permanece visualmente igual e nem por isso deixa de ser ela mesma. Talvez esse seja também o coração do álbum: mudar não significa perder quem somos.

Ao longo de oito faixas — seis composições originais, um interlúdio e um cover —, xxMia permite que diferentes versões de si convivam. Existem momentos mais íntimos, outros confiantes, memórias dolorosas, relações que precisaram terminar, homenagens a pessoas que partiram e uma vontade muito forte de continuar seguindo em frente sem fingir que aquilo que aconteceu deixou de fazer parte dela.

E foi justamente a abertura que primeiro ficou conosco.

“Intro: The Flowers Will Grow” funciona quase como uma conversa entre duas versões da mesma pessoa. É uma resposta ao universo de The Delicate Art of Healing, mas agora partindo de alguém que consegue olhar para trás com outra maturidade. Existe uma ideia muito bonita atravessando essa pequena introdução: “the flowers will grow on you”. As flores vão crescer, mas para isso a chuva também precisou existir.

É uma metáfora simples e profundamente humana para cura. Não significa transformar sofrimento em algo bonito à força ou agradecer pelas coisas ruins que aconteceram, mas reconhecer que aquilo também atravessou nossa história. A pessoa que existe agora consegue olhar para sua versão anterior e dizer: continua, porque um dia você vai enxergar flores onde agora consegue perceber apenas chuva.

Essa transformação continua em “Ficar” e “Let You Go”, duas músicas que parecem conversar entre si a partir de lados diferentes de uma relação tóxica. Na primeira existe a dificuldade de abandonar alguém mesmo quando sabemos que permanecer está nos machucando; na segunda, a distância finalmente permite enxergar como a vida mudou depois daquela despedida. Já “Ain’t Stopping” coloca xxMia deliberadamente fora da própria zona de conforto e revela uma versão mais divertida, confiante e sedutora.

E essa também é uma das belezas de Moonlogue: vulnerabilidade não é a única maneira de ser verdadeira.

Mas o álbum guarda espaços particularmente delicados para falar de ausência.

“Father” nasce como homenagem ao homem que ajudou a criar xxMia e da esperança de que duas pessoas que se amaram possam, de alguma maneira que talvez nunca sejamos capazes de compreender, reencontrar-se depois da morte. Depois, “Interlude: Afonso” abre outro espaço de memória, desta vez coletivo, reunindo vozes de pessoas que conheceram um amigo da artista que morreu tragicamente.

É então que chegamos a “Glory Days (Maki’s Version)”, um dos momentos que mais ficaram conosco.

A faixa é dedicada a Afonso, conhecido como Maki na comunidade de osu!, e transforma um cover em algo muito maior do que uma simples releitura. A presença de registros ligados à sua história e da própria comunidade que o cercava faz com que a música funcione como memória viva. É linda demais porque existe uma diferença enorme entre falar sobre alguém que partiu e criar um espaço onde aquela pessoa parece continuar existindo através das lembranças de quem ficou.

No encerramento, “A Filha Deles” leva o álbum para um território ainda mais pessoal, encarando experiências de abuso e marcas que podem cicatrizar sem desaparecer completamente. É uma conclusão coerente para um disco que nunca vende a ideia de cura como apagamento.

Existe ainda outro elemento que torna a proposta de Moonlogue especialmente coerente: xxMia decidiu construir o projeto através de colaboração com artistas independentes e queer e optou conscientemente por não utilizar inteligência artificial em nenhuma etapa criativa, defendendo uma obra imperfeita, emocional e essencialmente humana.

Talvez essa palavra — humana — seja realmente a melhor maneira de terminar.

Porque Moonlogue não procura apresentar uma xxMia definitiva. Faz justamente o contrário. Mostra aquela que sofreu, aquela que amou, aquela que perdeu, aquela que consegue ser sensual e confiante, aquela que ainda carrega feridas e aquela que finalmente percebe que pode ocupar o próprio espaço.

Assim como a lua, xxMia não precisa escolher uma única fase para provar quem é.

E depois de oito faixas tão íntimas, talvez a mensagem daquela primeira música continue sendo a que melhor permanece quando o álbum termina: houve chuva, houve perda, houve momentos em que parecia impossível continuar.

Mas as flores cresceram.

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