A gente é completamente apaixonado por essa banda. E não é de hoje. A Vulgari já passou pela Divergent Beats e deixou aquela sensação maravilhosa de encontrar uma banda que não está simplesmente fazendo música pesada, alternativa ou atmosférica, mas construindo uma identidade que pertence a ela. Agora, eles chegam novamente com uma faixa que é beyond incredible: “Disforia”.
E quanto mais a gente escuta, mais difícil fica decidir o que impressiona primeiro, porque existe a sonoridade absurda, existem as texturas, existe o peso, mas existem, principalmente, palavras capazes de fazer a gente parar no meio da música e pensar: poxa, essa banda é top do top do top.
A Vulgari nasceu na cena paulista e está ativa desde 2021, construindo de maneira completamente independente um universo que atravessa shoegaze e rock alternativo e encontra no heavy shoegaze um território perfeito para brincar com opostos. Guitarras densas convivem com atmosferas etéreas, elementos digitais entram no meio da organicidade da banda e agressividade e delicadeza parecem constantemente disputar espaço. Só que uma nunca elimina a outra. Pelo contrário: é justamente dessa tensão que nasce grande parte da personalidade deles.
E talvez “Disforia” seja uma das manifestações mais bonitas dessa identidade até agora.
Existe peso, claro. A sonoridade sempre foi um dos grandes pontos fortes da Vulgari e continua sendo impossível ignorar a maneira como a banda consegue criar atmosferas que parecem envolver completamente quem está ouvindo. Mas reduzir “Disforia” à força instrumental seria deixar escapar metade da experiência, porque as palavras aqui são pesadíssimas de uma maneira completamente diferente.
Tem uma frase que ficou tatuada em nós: “Gosto de ver a solidão te abraçar.”
Que frase.
Existe crueldade nela. Existe intimidade. Existe mágoa. Existe quase um prazer desconfortável em assistir à solidão chegar até outra pessoa. E talvez o mais incrível seja justamente não precisar explicar demais. São poucas palavras capazes de abrir um espaço emocional gigantesco, e é exatamente aí que percebemos a grandeza da escrita da Vulgari. A banda não precisa entregar sentimentos mastigados. Ela cria imagens e deixa que elas encontrem alguma coisa dentro de quem está ouvindo.
É por isso que “Disforia” funciona tão bem também dentro do projeto maior que a Vulgari começou a apresentar em 2026. Primeiro veio euforia EP, formado por quatro faixas e acompanhado por um videoclipe para a música-título. Ali, escapismo, afeto e busca por propósito ajudavam a apresentar uma das faces dessa nova identidade. Agora, disforia EP surge como sua contraparte, também formado por quatro músicas, ampliando um conceito no qual os extremos não existem separadamente.
Euforia e disforia são duas metades do mesmo corpo.
Essa ideia é maravilhosa porque existe algo profundamente humano nela. Nós também somos feitos dessas contradições. Podemos desejar presença e procurar isolamento. Podemos querer escapar e, simultaneamente, desejar pertencer. Podemos ser delicados e violentos, esperançosos e completamente esgotados. Euforia e disforia não precisam representar simplesmente felicidade e tristeza. São estados, excessos, maneiras diferentes de experimentar aquilo que acontece dentro e fora de nós.
Quando os dois EPs finalmente se encontram, formam Euforia/Disforia, uma obra de oito faixas que sintetiza um novo estágio musical, visual e profissional da Vulgari. E “Disforia”, justamente por carregar esse nome, parece ocupar um lugar especialmente importante nesse quebra-cabeça. É como olhar para o outro lado do espelho depois de já termos conhecido aquilo que estava na frente dele.
Tudo isso ganha ainda mais força quando entendemos como a Vulgari constrói sua trajetória. Existe um caráter genuinamente DIY atravessando o projeto desde a composição e produção musical até planejamento, direção criativa, identidade visual, videoclipes e organização de shows. Não estamos falando apenas de uma banda independente porque não existe uma grande estrutura por trás. Estamos falando de artistas que transformaram a independência em parte da própria linguagem.
Em 2025, o lançamento de VULGARI já havia marcado uma etapa importante dessa construção sonora, aproximando ainda mais o grupo do heavy shoegaze e consolidando essa mistura entre peso, ambientação e texturas digitais. O período também trouxe encontros com outros nomes da cena, incluindo a colaboração com Porcelana em “a dor é minha amiga”. Ao vivo, essa mesma vontade de construir comunidade apareceu no Phaser Fest, primeiro evento organizado pela própria banda em São Paulo, que converteu a venda de ingressos em arrecadação de alimentos, além da participação no CarnaRock 2026, em Campinas.
Tudo parece fazer parte da mesma construção.
E talvez seja por isso que a gente seja tão apaixonado pela Vulgari. Existe intenção em tudo, mas existe sentimento antes da intenção. A estética não tenta esconder a emoção; ela amplifica. O peso não substitui a vulnerabilidade; faz com que ela doa ainda mais. E as palavras não aparecem simplesmente porque uma música precisa de uma letra. Elas são parte fundamental daquilo que faz a banda ser tão interessante.
“Disforia” é incrível do começo ao fim. É daquelas músicas em que a gente entra pela sonoridade e acaba ficando por tudo aquilo que começa a acontecer emocionalmente lá dentro.
E depois que termina, uma frase continua voltando.
“Gosto de ver a solidão te abraçar.”
Talvez uma banda não precise de muito mais do que isso para mostrar o tamanho que tem.



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