A gente já falou por aqui sobre Martin e Os Martírios, essa banda realmente fascinante que vem construindo seu espaço na cena independente gaúcha com personalidade, poesia e uma maneira muito própria de entender o rock. Agora eles voltam com uma daquelas músicas que entram na cabeça sem pedir licença e, quando você percebe, já está repetindo a mesma pergunta quase como se também tivesse alguma coisa perdida pelo quarto: afinal, onde estão essas palhetas?

“Palhetas” é divertida, acelerada, extremamente gostosa de ouvir e carrega aquela energia upbeat que imediatamente movimenta o corpo, mas existe qualidade demais por trás dessa aparente simplicidade. É rock alternativo feito com inteligência, personalidade e, principalmente, com a capacidade de transformar uma situação quase banal em uma música que ganha um universo inteiro ao redor dela. A repetição funciona justamente porque vira obsessão. Você escuta uma vez, depois outra, e daqui a pouco está mentalmente procurando as palhetas junto com a banda.

A faixa faz parte de O Azar Está Aí Para Acontecer, primeiro álbum de Martin e Os Martírios, e não chega agora exatamente como uma desconhecida. Pelo contrário: “Palhetas” foi crescendo ao lado da própria trajetória do grupo e acabou se tornando uma das músicas mais queridas pelo público, conquistando um espaço especial também nas apresentações ao vivo. E isso diz bastante sobre ela, porque existem músicas que funcionam maravilhosamente dentro de um disco e existem aquelas que, quando encontram pessoas, palco, suor e amplificadores, parecem descobrir uma segunda vida.

“Palhetas” tem justamente essa sensação de música feita para ganhar corpo quando compartilhada.

Agora essa história encontra uma nova dimensão com o videoclipe lançado em 21 de agosto. Produzido pela Colateral Filmes, o audiovisual mistura live action e animação para transformar o cotidiano de um estúdio em uma pequena aventura, quase como se a própria lógica divertida da canção tivesse escapado do áudio e começado a contaminar as imagens. É uma escolha que combina demais com a faixa, porque seria muito fácil simplesmente registrar a banda tocando e deixar que a energia musical resolvesse tudo. Martin e Os Martírios escolhem ir além e criar uma extensão visual para esse pequeno caos.

E é aí que entra outro personagem importantíssimo dessa história: Tonho Crocco, vocalista da Ultramen.

Sua participação surge de maneira inesperada dentro do videoclipe e cria algo que ultrapassa a brincadeira da narrativa. Colocar Martin e Os Martírios e Tonho Crocco dentro do mesmo universo também significa aproximar diferentes momentos e gerações do rock produzido no Rio Grande do Sul. Existe memória nessa presença, mas existe sobretudo continuidade. Uma cena musical permanece viva justamente quando suas histórias conseguem conversar entre si sem precisar transformar o passado em peça de museu.

Talvez por isso “Palhetas” seja tão interessante dentro do momento atual da banda. Formada em 2022, Martin e Os Martírios vem construindo uma trajetória em que música, poesia, palco e produção audiovisual parecem pertencer à mesma vontade criativa. Não existe apenas a preocupação de lançar uma canção e seguir imediatamente para a próxima. Existe uma identidade sendo formada aos poucos, lançamento depois de lançamento, e o videoclipe recupera uma faixa do primeiro álbum justamente quando a banda está prestes a atravessar uma nova porta.

Porque existe futuro chegando.

No dia 25 de setembro, Martin e Os Martírios lança O Último Raio, novo EP que chega às plataformas digitais pelo Selo da Marquise 51. Na mesma data, a banda leva esse novo momento para o palco do Espaço 512, em Porto Alegre, em um show de lançamento com abertura da Shaun. Nesse sentido, “Palhetas” acaba funcionando como uma ponte muito bonita entre aquilo que Martin e Os Martírios já construiu e aquilo que está prestes a se tornar.

Mas antes de pensar no próximo capítulo, vale permanecer mais um pouco aqui, porque essa música merece.

Existe algo deliciosamente viciante na maneira como as palavras são repetidas, quase transformando a busca pelas palhetas em uma missão coletiva. E quando chega o momento em que ouvimos “as palhetas mergulham na escuridão”, tudo fica ainda melhor. É uma frase tão visual que parece imediatamente pedir uma imagem, uma cena, alguma coisa acontecendo fora da realidade. De repente, um objeto minúsculo e absolutamente comum dentro da vida de qualquer guitarrista ganha mistério, movimento e até certa dramaticidade.

É justamente essa capacidade de brincar sem fazer uma música descartável que deixa “Palhetas” tão boa. Existe humor, mas existe construção musical; existe repetição, mas existe intenção; existe leveza, mas existe uma banda que sabe muito bem o que está fazendo com seu rock.

E talvez a maior prova seja simples: quando “Palhetas” termina, a música termina — mas a procura continua dentro da nossa cabeça.

Onde estão as palhetas?

Sério.

Onde estão?

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