A gente já falou algumas vezes aqui na Divergent Beats sobre Vinícius Gouveia e sobre como existe algo de muito especial na maneira como ele pensa música. Não apenas na composição, mas na melodia, nos arranjos, na produção e, principalmente, na capacidade de criar atmosferas que parecem existir muito além da duração de uma faixa. Agora, ele chega com uma música que bate forte de um jeito completamente diferente: “Anjos de Papel”, sua primeira colaboração com a grandíssima Grisa. E que encontro lindo demais.

“Anjos de Papel” é o terceiro e último single que antecede No Escuro, álbum de estreia solo de Vinícius, previsto para 2026. Aos 26 anos, o compositor e instrumentista paulistano, formado em violão popular pela EMESP Tom Jobim, carrega uma trajetória que passa pela banda Applegate, com a qual gravou dois discos, por palcos como Cine Joia e CCSP e por trabalhos acompanhando artistas como Castello Branco, R.Sigma e Thomé. Mas aquilo que mais nos interessa aqui é perceber como toda essa bagagem parece desembocar em uma linguagem cada vez mais particular, delicada e profundamente imagética.

E então temos Grisa.

A gente poderia tranquilamente escrever um artigo inteiro apenas sobre a voz dela. Porque existe uma intensidade difícil de colocar em palavras na maneira como Grisa canta “Anjos de Papel”. É uma voz maravilhosa, melancólica sem precisar exagerar a melancolia, delicada sem jamais parecer frágil. Ela entra no coração. Principalmente quando colocamos os fones e deixamos a música ocupar todo o espaço ao redor, existe a sensação de que não estamos apenas ouvindo aquelas palavras, mas entrando dentro delas.

Talvez isso também aconteça porque Grisa é uma artista cuja relação com o som ultrapassa a ideia convencional de composição. Cantora, compositora, luthier eletrônica e pesquisadora, ela trabalha a partir de uma percepção sinestésica, pensando timbres quase como cores e aproximando imagem, espaço e música.

Atualmente integrante da Cidade Dormitório e com uma trajetória solo ligada ao selo midsummer madness, ela desenvolve inclusive instrumentos e dispositivos eletrônicos experimentais. Em “Anjos de Papel”, porém, toda essa sensibilidade encontra a construção de Vinícius e cria alguma coisa que pertence aos dois.

A parceria não surgiu agora. Os caminhos de Vinícius e Grisa já haviam se cruzado através da Applegate, inclusive dividindo apresentações e uma live session na qual ela participou com voz e theremin. Mas “Anjos de Papel” representa a primeira composição conjunta dos dois, e talvez por isso exista uma sensação tão bonita de encontro atravessando a música.

Violão, guitarra, synth bass, bateria e sintetizadores convivem dentro de uma produção que aproxima indie, rock alternativo e dream pop, criando uma paisagem contemplativa e levemente psicodélica. Vinícius assina o arranjo e divide a produção e mixagem com Lucas Diniz; Pedro Lacerda assume a bateria e Alejandra Luciani, a masterização. Só que listar os elementos separadamente não explica aquilo que acontece quando eles finalmente se encontram.

Porque “Anjos de Papel” parece flutuar.

No centro de tudo está a imagem do cais, esse lugar que é ao mesmo tempo chegada e partida, terra e mar, permanência e possibilidade. A música nasce justamente desse conflito entre liberdade e vínculo, entre aquilo que imaginamos e aquilo que efetivamente conseguimos viver, entre a vontade de partir e a necessidade profundamente humana de pertencer a alguma coisa.

E é aqui que a letra fica simplesmente linda.

Em determinado momento, fantasias e imagens começam a se desfazer e se afogar quando se encontram, enquanto surgem “anjos de papel” sonhando com as margens do cais. É uma imagem de uma delicadeza absurda. Papel e água. Asas e impossibilidade. O desejo de atravessar e, ao mesmo tempo, a fragilidade daquilo que deveria nos permitir voar.

É poesia pura.

E quando essa poesia encontra a voz de Grisa e a produção de Vinícius acontecendo por trás, “Anjos de Papel” ganha uma dimensão ainda maior. A gente sente cada camada chegando sem que nenhuma precise disputar espaço com a outra. Existe precisão, mas existe também ar. Existe uma produção extremamente pensada, mas nunca tão controlada a ponto de retirar a humanidade da música.

Talvez essa seja justamente uma das grandes qualidades de Vinícius Gouveia como artista: ele sabe construir sem sufocar aquilo que está construindo.

“Anjos de Papel” chega como o último capítulo antes de No Escuro, mas acaba funcionando também como uma promessa enorme sobre aquilo que esse álbum pode ser. Se os singles anteriores já haviam feito a gente prestar atenção no universo que Vinícius estava criando, aqui existe a sensação de que esse mundo ganhou ainda mais profundidade.

E com Grisa dentro dele, ganhou uma voz capaz de fazer a gente fechar os olhos, colocar os fones e permanecer por alguns minutos nesse lugar impossível entre a margem e o mar.

Sem saber se queremos partir.

Sem saber se queremos ficar.

Só querendo ouvir mais uma vez.

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