Muitas vezes acontece de a gente simplesmente colocar o fone, apertar o play e, de um momento para o outro, ser completamente surpreendido pelo que encontra. Não existe preparação, expectativa ou qualquer ideia muito definida sobre onde aquela música vai nos levar; existe apenas aquele primeiro impacto que faz a gente prestar atenção imediatamente. Foi exatamente isso que aconteceu quando escutamos “Capoeira”, novo single da banda carioca Funeral Macaco. Uma faixa conceitual, experimental e profundamente brasileira, que parece carregar terra, história e conflito dentro de sua própria sonoridade.

E existe uma coisa que nos captura quase imediatamente: a voz de Vinicius Monteiro.

Há algo de incrivelmente intenso nela, mas não de uma intensidade que precise necessariamente gritar para existir. É uma voz que parece terrena, enraizada, quase como se viesse de algum lugar anterior à própria música. Existe uma textura muito particular na maneira como Vinicius conduz “Capoeira”, e ela combina perfeitamente com a atmosfera criada ao redor dele, porque essa não é uma canção que parece interessada apenas em ser escutada: ela quer contar alguma coisa, carregar alguma coisa e fazer com que a gente caminhe por dentro dessa história.

“Capoeira” é o primeiro single de Odé, próximo álbum da Funeral Macaco, e marca o começo de uma nova etapa para o grupo, antecipando o universo sonoro e conceitual que será desenvolvido em seu segundo disco. Gravada com Vinicius Monteiro na voz, Gabriel Matuk no violão e Pedro Valle no baixo, além da participação especial de Raphael Balbino na percussão, a faixa encontra justamente nessa formação uma de suas maiores forças. Há espaço entre os instrumentos, há respiração e, ao mesmo tempo, existe uma tensão que parece permanecer no ar durante toda a experiência.

O violão de Matuk tem um papel especialmente bonito nisso. Ele não está simplesmente acompanhando a voz: parece conduzir nossos passos para dentro da narrativa, enquanto o baixo de Valle oferece uma profundidade que faz a música ganhar corpo e chão. Quando a percussão entra nessa construção, tudo passa a carregar ainda mais essa sensação física, quase ritualística, de uma história que não está sendo observada de longe. A gente entra nela.

E é justamente aí que o conceito de “Capoeira” torna tudo ainda mais interessante.

A Funeral Macaco estabelece na composição um paralelo entre os capoeiras que lutaram na Guerra do Paraguai e os soldados conhecidos como “cabeludos”, mortos durante a Guerra do Vietnã. São geografias, períodos e conflitos diferentes colocados em diálogo dentro de uma mesma obra. A guerra deixa de existir apenas como acontecimento histórico isolado e passa a ser observada através dos corpos que foram enviados para dentro dela, das identidades carregadas por esses corpos e das histórias que permanecem depois que o conflito termina.

É uma escolha conceitual muito forte porque transforma a escuta em algo que vai além da experiência musical. “Capoeira” provoca curiosidade. Faz a gente querer entender aquilo que está por trás da composição, procurar essas histórias, pensar sobre as pessoas que existiram dentro delas e sobre aquilo que sobrevive quando uma guerra vira apenas algumas linhas nos livros.

Ao mesmo tempo, seria injusto reduzir a faixa ao seu conceito histórico, porque musicalmente existe muita coisa acontecendo.

Funeral Macaco constrói uma música experimental sem fazer do experimentalismo um exercício de dificuldade. Existe estranheza, existe personalidade, mas também existe uma organicidade enorme. Violão, baixo, percussão e voz parecem pertencer ao mesmo terreno, e essa característica quase crua faz com que “Capoeira” carregue uma identidade muito própria. Não sentimos uma banda tentando encaixar uma história dentro de uma música; sentimos uma história encontrando a própria forma através dos instrumentos.

E talvez seja justamente essa sensação que tenha nos deixado tão surpresos no primeiro play.

Porque há músicas cuja beleza aparece imediatamente através de uma melodia irresistível, enquanto outras precisam de tempo para revelar suas camadas. “Capoeira” consegue fazer as duas coisas de uma maneira bastante particular: existe um impacto imediato, principalmente através da voz de Vinicius, mas quanto mais a música avança, mais percebemos que existe um universo sendo construído por baixo dela. É uma daquelas faixas que terminam deixando perguntas e imagens na cabeça.

Também é impossível não mencionar que encontramos aqui mais um trabalho ligado à Alter Ego Produções, que continua colocando no nosso caminho projetos capazes de nos deixar de boca aberta justamente por não parecerem interessados em seguir uma fórmula única. Existe algo muito bonito em descobrir artistas que tratam música como espaço de pesquisa, identidade e possibilidade, principalmente dentro de uma cena independente brasileira que continua mostrando quantas linguagens diferentes ainda podem nascer dela.

E “Capoeira” chega exatamente desse lugar.

É música que parece carregar poeira nos pés, memória no corpo e história na voz. Uma composição que consegue ser experimental sem perder humanidade, conceitual sem ficar distante e profundamente intensa sem precisar abandonar sua organicidade.

Se esse é realmente o primeiro passo para dentro de Odé, então a Funeral Macaco acaba de abrir uma porta enorme. E depois de “Capoeira”, a nossa curiosidade não está apenas em descobrir como será o próximo álbum, mas em entender até onde essa banda está disposta a levar esse universo tão estranho, terreno e fascinante que acabou de começar a revelar.

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