Escutar o retorno da Burst Into Fire foi uma experiência magnífica. Daquelas que começam despertando curiosidade e, conforme os segundos passam, fazem a gente perceber que existe alguma coisa muito maior sendo construída diante dos nossos ouvidos. “Noob Saibot” não é apenas uma faixa pesada ou uma apresentação da nova fase da banda: é uma música que cresce o tempo inteiro, acumulando voz, instrumentos, eletrônica, tensão e intensidade até chegar a um final gigantesco.

E talvez seja justamente sua estrutura que tenha nos impressionado tanto.

A banda de São José dos Campos, formada por Raphael Andrade nos vocais, Felipe Rinke na guitarra, Cesar Pelogia no baixo e Felipe Souza na bateria, encontra em “Noob Saibot” uma maneira muito interessante de apresentar sua nova identidade sem abandonar aquilo que sempre esteve em sua origem. Existe metalcore, existe o peso das guitarras, existe uma bateria que empurra a composição para frente, mas agora tudo isso divide espaço com sintetizadores, efeitos, texturas industriais e uma produção eletrônica quase cinematográfica.

O resultado não parece simplesmente uma mistura de gêneros. Parece uma música em constante transformação.

“Noob Saibot” foi composta e produzida pelo próprio Raphael Andrade, enquanto a mixagem e masterização ficaram nas mãos de Jonathas Peschiera, da AXTY. Manter composição e produção dentro da própria Burst Into Fire foi uma decisão importante para esse novo momento, porque permitiu à banda ter controle sobre cada detalhe da identidade que deseja construir daqui para frente. E isso fica bastante perceptível durante a escuta: há uma intenção muito clara por trás da maneira como cada camada aparece e, principalmente, da maneira como a intensidade vai sendo acumulada.

Nada parece colocado ali apenas para preencher espaço.

A música começa nos convidando para dentro de um universo denso, mas a sensação é de que nunca chegamos imediatamente ao seu ponto máximo. Existe sempre alguma coisa esperando alguns segundos adiante. A voz cresce, os instrumentos crescem, a eletrônica amplia o espaço e a tensão vai se tornando cada vez mais física, como se estivéssemos atravessando diferentes cômodos de uma mesma mente.

Essa imagem faz ainda mais sentido quando entendemos o conceito da composição.

A própria Burst Into Fire descreve “Noob Saibot” como uma porta de entrada para a mente de seu autor. Do outro lado dela estão pensamentos, segredos, relacionamentos passados e dores que ajudaram a construir quem aquela pessoa é hoje. Só que não estamos diante de uma música interessada em permanecer presa ao sofrimento. Conforme ela avança, existe confronto. Aquilo que machucava começa a ser encarado, o passado perde seu domínio e a dor passa de cicatriz a elemento de identidade e força.

É quase como se a estrutura musical reproduzisse exatamente esse processo.

E então chegamos por volta de 1 minuto e 40 segundos, um dos momentos que mais nos pegou durante a primeira audição. A maneira como as frases começam a aparecer uma depois da outra, acompanhadas por toda aquela construção instrumental, cria uma sensação quase sufocante — mas no melhor sentido possível. A música parece acelerar emocionalmente. Não é simplesmente uma sequência de palavras: é como se tudo aquilo que vinha sendo guardado precisasse finalmente sair.

E dali para frente, “Noob Saibot” simplesmente vai.

Vai crescendo, acumulando e tomando espaço até chegar naquele final enorme que parece ser a consequência inevitável de tudo aquilo que ouvimos anteriormente. A Burst Into Fire não entrega a explosão de graça; faz a gente atravessar o caminho necessário para chegar até ela. É justamente isso que torna o encerramento tão satisfatório.

No fim, surge ainda “I’m glad you came”.

Quatro palavras que mudam a perspectiva da experiência inteira. Depois de sermos convidados a atravessar pensamentos, dores e memórias, já não estamos mais olhando para aquela transformação do lado de fora. Fomos recebidos ali. Passamos pela porta junto com a banda.

E esse novo começo carrega uma história construída desde 2019. A Burst Into Fire estreou naquele ano com o EP Heart of Ashes e lançou Chimera em 2021, dividindo posteriormente palcos com nomes como Black Pantera, Glória, Menores Atos, Bayside Kings, MC Taya e Desalmado. Com o encerramento daquele ciclo, veio também a necessidade de transformação.

Hoje, referências como Spiritbox, Bad Omens, Thornhill, Northlane, Bring Me The Horizon e Slipknot ajudam a apontar algumas coordenadas desse novo território, mas “Noob Saibot” mostra uma banda muito mais interessada em descobrir até onde pode levar essas influências do que simplesmente reproduzi-las. A agressividade continua ali; o que mudou foi o tamanho do espaço ao redor dela.

E isso é especialmente interessante porque “Noob Saibot” é apenas o começo. A faixa inaugura uma sequência de lançamentos que desembocará em um novo EP, acompanhado também por trabalhos audiovisuais, enquanto o quarteto se prepara para levar esse repertório novamente aos palcos e expandir seus shows para outras regiões do Brasil.

Depois desse primeiro contato, a curiosidade é enorme.

“Noob Saibot” é um retorno que não olha para trás procurando repetir aquilo que a Burst Into Fire já foi. É uma declaração de transformação construída como um crescendo: começa abrindo uma porta, vai deixando a gente entrar cada vez mais fundo e termina enorme, pesada e libertadora.

Se essa é a porta de entrada para a nova era da banda, a gente definitivamente quer descobrir o que existe do outro lado.

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