A gente já tinha falado sobre a Varanda aqui na Divergent Beats quando “Anjo de Papel” passou pelo nosso Destaque, mas talvez ainda não estivéssemos preparados para aquilo que viria depois. Agora, com a chegada de Às vezes um sonho pode ser um planeta inteiro ou uma canção ou uma cama com travesseiro de pluma de ganso ou um apagão ou a grande luz no meio desse grande túnel no qual estamos inegável infalível incansavelmente passageiros, podemos dizer uma coisa: estamos possivelmente diante de um dos álbuns mais lindos que escutamos em 2026.

E sim, talvez seja mais fácil chamá-lo simplesmente de Às vezes um sonho…. Mas existe algo naquele título gigantesco que já explica perfeitamente o universo que encontramos quando apertamos o play. Porque este é realmente um disco sobre todas as formas que um sonho pode assumir: pode ser esperança, memória, desejo, fuga, projeção, infância, futuro ou aquele lugar imaginário onde nos escondemos quando a realidade parece pesada demais. E, de alguma maneira, a Varanda conseguiu transformar tudo isso em música.

São 11 faixas inéditas e autorais, e existe uma característica que atravessa nossa experiência com o álbum inteiro: não quisemos pular nenhuma.

Parece uma observação simples, mas em um disco isso significa muito. Não houve aquele momento de pensar “essa aqui não me pegou, deixa eu passar para a próxima”. Cada faixa tinha alguma coisa esperando por nós. Às vezes era a voz de Amélia do Carmo, às vezes uma guitarra, uma escolha melódica, uma palavra ou uma pequena mudança dentro do arranjo que fazia a gente permanecer ali. Todas parecem guardar alguma coisa fascinante dentro delas, e isso transforma a audição completa em uma experiência contínua, quase como permanecer dentro de um sonho sabendo que cada porta pode revelar uma paisagem diferente.

Formada em Juiz de Fora por Mario Ricardo na guitarra, Amélia do Carmo na voz, Augusto Vargas no baixo e voz e Bernardo Bara na bateria, a Varanda chega ao segundo álbum em um momento muito particular. Depois de Beirada, lançado em 2024, a trajetória cresceu até levar o grupo ao palco do Lollapalooza Brasil em 2026. Só que, em vez de responder a esse crescimento tentando produzir alguma coisa maior ou mais óbvia, a banda parece ter olhado para dentro.

E o resultado é um álbum profundamente sonhante.

Produzido por Fernando Rischbieter, com mixagem e masterização assinadas por Rischbieter e Pedro Vinci, o trabalho mergulha em arranjos mais densos e sóbrios enquanto permite que referências de diferentes épocas se encontrem. Há rastros do rock dos anos 60 e 90, do universo de Yo La Tengo e Stereolab e ecos que o próprio produtor relacionou a nomes como PJ Harvey, Smashing Pumpkins e Pato Fu. Mas ouvir Às vezes um sonho… não parece um exercício de identificar referências. Parece entrar no mundo particular que a Varanda construiu a partir delas.

A própria ideia de sonho funciona porque não é tratada somente como algo bonito.

Como Amélia explica ao falar sobre o conceito do projeto, sonhar também significa projetar, idealizar, viajar e fugir da realidade. Pode ser aquilo que nos mantém conectados ao mundo ou justamente aquilo que nos leva para muito longe dele. Existe uma relação de amor e ódio com o sonho na experiência de ser artista, e o álbum parece caminhar constantemente por essa corda bamba.

Talvez por isso exista tanta emoção nele.

E entre todas essas 11 faixas, uma nos atravessou de maneira especialmente forte: “Sereno”, que conta com a participação de Fernanda Takai.

Existe algo nessa música que vai crescendo até chegar a um final que, para nós, é simplesmente emocionante. Em determinado momento ouvimos a pequena frase “eu não preciso de mais nada”, e parece que alguma coisa se abre. A partir dali, não é mais apenas sobre as palavras. É sobre aquilo que acontece ao redor delas.

A bateria, a guitarra, o baixo, as camadas instrumentais se encontrando e crescendo juntas criam um daqueles momentos em que a gente deixa de analisar uma música e simplesmente sente. É quase difícil explicar racionalmente porque funciona tanto. Você está ouvindo e, de repente, percebe que foi completamente tomado por aquilo. É aquele tipo de final que faz a gente pensar “o que está acontecendo aqui? Que coisa linda é essa?” enquanto a emoção já chegou antes mesmo de conseguirmos encontrar uma resposta.

E talvez “Sereno” represente perfeitamente a grande força do álbum.

A Varanda não precisa transformar emoção em espetáculo para emocionar. Ela vai construindo pequenos espaços, colocando detalhes pelo caminho e permitindo que voz e instrumentos façam aquilo que precisam fazer até que alguma coisa aconteça dentro de quem está ouvindo. É um disco que parece entender que sonho também é isso: uma sucessão de imagens, sentimentos e acontecimentos que nem sempre conseguimos explicar, mas que sentimos profundamente enquanto estamos dentro deles.

Até visualmente essa ideia foi abraçada. As fotografias de divulgação feitas em filme por Yan Gabriel acabaram ganhando ruídos, cores e texturas inesperadas depois de um problema durante a revelação — um acidente que a banda decidiu acolher. Há algo quase perfeito nisso: tentar controlar uma imagem e descobrir que o inesperado pode torná-la ainda mais interessante. É exatamente a lógica de um sonho.

No final das 11 faixas, a sensação é de acordar devagar.

Às vezes um sonho… é lindo, mas sobretudo é um álbum que emociona. Daqueles que pedem fone, tempo e disponibilidade para entrar em seu universo sem pressa. A Varanda construiu um trabalho em que cada faixa parece ter encontrado sua própria maneira de nos fazer permanecer mais alguns minutos ali.

E talvez o título enorme não seja enorme coisa nenhuma.

Talvez fossem necessárias todas aquelas palavras para tentar definir algo que este disco consegue fazer muito melhor através da música.

Porque, durante essas 11 faixas, às vezes um álbum também pode ser um sonho inteiro.

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