É lindo quando basta o primeiro play para você perceber que está entrando em um mundo extraordinário, cheio de raízes, memórias e detalhes que carregam aquilo que o Brasil tem de mais profundo. Foi exatamente essa sensação que tivemos escutando “Quebra-Quebranto”, single de estreia da carreira solo de Amanda Pacífico. É como se Amanda abrisse a porta de casa e dissesse: entra, senta aqui, porque eu quero te mostrar de onde eu vim. E quando entramos, encontramos Belém do Pará, encontramos família, fé, comida, festa, ancestralidade e aquele sagrado que muitas vezes não está nos grandes acontecimentos, mas escondido nos pequenos gestos que atravessam gerações.
Lançada em 20 de agosto, “Quebra-Quebranto” nasce das lembranças de infância de Amanda e dos tradicionais encontros de domingo das famílias do Norte nos anos 1990, costumes que permanecem vivos até hoje. A artista transforma essas recordações em uma espécie de álbum de fotografias sonoro, no qual aparecem os saberes das matriarcas, as ervas escolhidas na feira, os temperos, as crenças, a espiritualidade, a comida e a festa. Amanda não canta simplesmente sobre suas raízes: ela faz essas raízes respirarem dentro da música.
E talvez por isso um trecho tenha ficado imediatamente com a gente: “E bota mais pinga num copo / e acende a vela pro santo / defuma alecrim e arruda / e reza pra quebrar quebranto.”
É lindo demais porque são poucas palavras capazes de criar tantas imagens. Você quase sente o cheiro da arruda e do alecrim, enxerga a chama da vela, imagina o copo colocado ali e percebe como espiritualidade, memória familiar e cotidiano podem coexistir naturalmente. Não existe a necessidade de transformar tradição em algo distante ou folclórico. Pelo contrário, “Quebra-Quebranto” encontra o sagrado justamente naquilo que faz parte da vida.
Essa identidade também atravessa uma produção musical extremamente rica, assinada por Érica Silva e Rodrigo Lemos. Beats, sintetizadores e graves inspirados nos 808 convivem com guitarra paraense, sopros e diferentes matrizes percussivas brasileiras. A música começa transportando o ouvinte para o ambiente de uma feira e, aos poucos, vai abrindo suas camadas, aproximando uma linguagem urbana contemporânea de sonoridades que carregam território e tradição. Os atabaques rum, rumpi e lé encontram o prato e faca do samba de roda, enquanto a guitarra trabalha fraseados marcados pelo vibrato e chorus.
Mas existe um detalhe que talvez explique melhor “Quebra-Quebranto” do que qualquer definição técnica: no final da faixa, ouvimos um áudio da própria tia de Amanda ensinando uma receita de maniçoba.
Isso é de uma beleza enorme.
Porque naquele instante a memória deixa definitivamente de ser conceito e ganha voz. A família não está apenas sendo homenageada na canção; ela literalmente entra dentro dela. É como preservar um daqueles momentos aparentemente pequenos que, anos depois, descobrimos serem gigantescos. Uma receita deixa de ser apenas receita quando carrega uma voz conhecida, uma cozinha, uma infância e uma história que foi transmitida de uma geração para outra. Érica Silva encontrou uma definição perfeita para essa mistura ao chamar a faixa de “pop-ancestral”.
E então chega o videoclipe para tornar tudo ainda mais físico.
Dirigido por Talita Menezes, o vídeo foi gravado integralmente na Pedreira, bairro de Belém onde Amanda nasceu e vive, passando pela Feira da Pedreira, pelo Bar Recanto Pedreirense e por uma casa escolhida para representar a residência de sua avó. Cozinhas, altares, defumações, rodas de samba, botecos e cenas cotidianas transformam o chamado “bairro do samba e do amor” em personagem da obra. Não estamos olhando Belém como cenário: estamos olhando Belém como pertencimento.
Esse ponto é essencial porque “Quebra-Quebranto” inaugura oficialmente a carreira solo de uma artista que já carrega uma trajetória importante. Amanda iniciou seus estudos no Conservatório Carlos Gomes, passou por Curitiba e São Paulo, foi uma das fundadoras da Mulamba e integrou a Orquestra Friorenta. Em 2020, interpretou “Feira Livre” no álbum Onze (Músicas Inéditas do Adoniran Barbosa), trabalho que concorreu ao Grammy Latino no ano seguinte. Mais recentemente, encontrou Dona Onete e Suraras do Tapajós em “Gota Graúda” e participou, ao lado de Layse, de Laboratório Tropical VOL 1.
Tudo isso parece chegar agora a um ponto muito íntimo. Em vez de iniciar sua carreira solo tentando inventar uma personagem, Amanda faz praticamente o contrário: volta para casa, para a infância, para as mulheres que vieram antes dela e para os códigos culturais que ajudaram a construir quem ela é.
Talvez seja por isso que “Quebra-Quebranto” emocione tanto. Porque existe modernidade, existe uma produção enorme, existe uma construção audiovisual belíssima, mas nenhuma dessas coisas sufoca o coração da música.
No final, sobra a sensação de termos recebido alguma coisa muito íntima. Quase uma reza compartilhada, uma receita passada adiante, uma lembrança de domingo que encontrou uma maneira de continuar existindo.
Amanda Pacífico estreia solo sem tentar fugir de onde veio. Pelo contrário: transforma suas raízes em direção — e faz de “Quebra-Quebranto” uma celebração lindíssima de tudo aquilo que permanece vivo dentro de nós.



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