Ele chegou de novo para arrebentar o mundo musical. E talvez essa seja uma das maneiras mais honestas de começar a falar sobre “The Game”, porque tentar entender Shitiago olhando apenas para aquilo que ele fez anteriormente seria perder justamente uma das coisas mais fascinantes dessa nova fase do artista: ele não quer repetir uma fórmula, não quer que uma música explique a próxima e, definitivamente, não parece interessado em permanecer dentro de um lugar no qual já sabemos encontrá-lo.

Depois de “Destino Ínfimo” abrir esse novo universo através de uma atmosfera densa, fantasiosa e surreal, “The Game” chega chutando a porta de outro espaço completamente diferente. Agora é drill. Agora é rua. Agora é velocidade. Agora é Londrina atravessando a janela de um carro vintage preto. Agora é Shitiago assumindo ainda mais controle sobre a própria produção e transformando em música uma das coisas mais brutais de construir uma carreira independente: aprender a jogar um jogo cujas regras parecem mudar o tempo inteiro.

E quando dizemos que “The Game” representa uma transformação, estamos falando de tudo. Se em “Destino Ínfimo” conhecemos o Mago, agora Shitiago incorpora os arquétipos do Governante e do Rebelde. O cabelo loiro, a roupa, a postura, o universo visual e a mudança sonora não aparecem como decisões estéticas aleatórias, mas como novas peças de uma identidade que será revelada completamente com seu próximo EP. “Eu posso e gosto de fazer todo tipo de som”, afirma o artista, e talvez essa frase seja essencial para entender aquilo que está acontecendo. Shitiago não está tentando convencer ninguém de que consegue mudar. Ele simplesmente muda.

“The Game” começou a nascer ainda em 2025, quando Shitiago estudava drill e experimentava produzir seus próprios beats. Entre cinco ou seis instrumentais criados naquele período, um deles continuou crescendo até se transformar nessa faixa. Shitiago assina o beat, as melodias e aproximadamente 90% do instrumental, enquanto Cofwed, parceiro recorrente do artista, adicionou os 808s e outros detalhes da produção, além de assumir a mixagem e masterização. Existe até algo muito representativo da realidade independente na maneira como os dois construíram a música: apesar de morarem na mesma cidade, trabalharam praticamente à distância, trocando arquivos entre suas casas enquanto conciliavam criação, trabalho e a correria da vida cotidiana.

Porque existe uma realidade por trás de “The Game”.

O jogo não é imaginário.

O jogo é a indústria musical.

E talvez seja justamente isso que faça a faixa ganhar outra dimensão. Shitiago fala sobre uma indústria na qual talento nunca é a única variável. É preciso estratégia, paciência, investimento, inteligência, sacrifício e uma capacidade quase absurda de continuar acreditando quando o resultado ainda não apareceu. Para um artista independente brasileiro, isso ganha um peso ainda maior. Existe música para fazer, mas existe também conteúdo, imagem, lançamento, dinheiro, divulgação, contatos, números, planejamento e aquela pergunta silenciosa que volta inúmeras vezes: até quando continuar?

A resposta de Shitiago está em um verso que resume muito mais do que uma música: “Virando esse jogo mesmo que demore a vida toda.”

É forte porque existe ambição nessa frase, mas também vulnerabilidade. Não é alguém dizendo que sabe quando vai vencer. É alguém decidindo que vai continuar mesmo sem saber. O próprio artista explica que, para sobreviver a esse processo, “você precisa desenvolver uma fé quase cega no que está fazendo para não desistir”. E completa dizendo que chega um momento em que é preciso ter autoestima suficiente para acreditar 100% e doar tudo de si. É aí que “The Game” deixa de ser apenas uma faixa sobre a indústria e começa a falar sobre o preço emocional de acreditar profundamente naquilo que você decidiu construir.

Só que Shitiago não deixa esse conceito preso na letra.

Ele leva o jogo para a rua.

O videoclipe, dirigido, filmado e editado por Igor, o Cria da Rua, nasce das próprias imagens presentes na música: aceleração, pista, velocidade, drift. Shitiago imaginou um rolê noturno de carro e Londrina acabou se tornando personagem dessa história. Filmado nas proximidades do Boulevard Shopping e da Avenida Dez de Dezembro, o vídeo atravessa grafites, pixações, prédios, ruas e comércios enquanto o artista percorre a cidade dentro de um carro vintage preto. Londrina não aparece maquiada para parecer outra coisa. Londrina aparece sendo Londrina. E isso dá ao clipe uma identidade que nenhuma locação artificial conseguiria reproduzir.

O próprio processo de gravação carrega novamente aquela verdade independente que existe por trás de toda essa campanha. O carro pertence a Júnior Carvalho, ligado à cena independente londrinense, que disponibilizou sua segunda-feira de folga para dirigir. A equipe? Três pessoas. Júnior no volante, Shitiago diante da câmera e Cria da Rua filmando.

O resto foi a cidade.

Mas talvez uma das ideias mais incríveis de todo o lançamento esteja na decisão de não deixar “The Game” terminar quando a música acaba ou quando o videoclipe chega ao último frame.

Porque “The Game” pode ser jogado. Literalmente.

Como parte da campanha desenvolvida pelo Beats Lab 001, foi criado “Shitiago — The Game”, um videogame interativo pensado especificamente para ampliar o universo do single. Público, jornalistas e curadores não recebem simplesmente uma capa, um link ou mais um press kit tradicional. Eles entram no jogo. Precisam avançar pela experiência até chegar à mensagem “YOU’VE UNLOCKED THE GAME” e desbloquear conteúdos ligados ao lançamento, como capa, música, videoclipe e pré-save.

https://thegame-shitiago.netlify.app

E isso muda completamente a relação entre campanha e obra.

Não existe um videogame porque seria “legal ter um game”. Existe um videogame porque a música fala sobre jogar. Existe porque Shitiago está falando sobre entrar na indústria, entender suas regras, sobreviver dentro dela e tentar virá-la. Se o artista precisa jogar para construir sua carreira, por alguns minutos quem está do outro lado também precisa jogar para chegar até ele. Conceito, música, audiovisual e estratégia deixam de existir separadamente e passam a contar a mesma história através de linguagens diferentes.

Press start.

Joga.

Vira o jogo.

“The Game” é o segundo de três singles que antecedem o próximo EP de Shitiago e, depois de “Destino Ínfimo”, começa a deixar ainda mais evidente que talvez a maior pista sobre esse projeto esteja justamente em sua imprevisibilidade. Uma música não precisa soar como a anterior para pertencer ao mesmo artista. Um personagem pode desaparecer para que outro apareça. O Mago pode dar lugar ao Governante e ao Rebelde. O surreal pode encontrar a rua. Uma atmosfera pode se transformar em drill. Versatilidade não significa ausência de identidade quando a identidade está justamente na liberdade de transformação.

“De certa forma, tudo se conecta no fim”, diz Shitiago.

E talvez ainda não tenhamos todas as peças para enxergar essa imagem completa.

Mas “The Game” deixa uma coisa muito clara: Shitiago não está esperando alguém abrir espaço para ele dentro do jogo.

Ele está construindo o próprio.

E agora é a nossa vez de apertar start.

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