Não tem muita coisa mais bonita do que colocar o fone, apertar o play em um disco e, sem perceber, sentir uma espécie de liberdade tomando conta do corpo. Uma leveza fresca, quase como o cheiro das primeiras flores da primavera, o vento entrando pela janela ou aqueles sabores da natureza que parecem despertar alguma coisa que estava adormecida dentro da gente. Foi exatamente essa sensação que tivemos ao escutar “Inventário”, novo EP do Madame Ralph: um trabalho que fala sobre perdas, colapsos, memória e a passagem inevitável do tempo, mas consegue fazer tudo isso florescer musicalmente.

Madame Ralph é o projeto autoral do cantor, compositor e músico carioca Ralph Holzmann, e talvez uma das coisas mais bonitas de “Inventário” seja justamente a maneira como sua identidade aparece sem precisar gritar. São cinco faixas autorais — três inéditas, enquanto “Roda” e “Hilda” já haviam chegado anteriormente como singles — construídas a partir de guitarras, melodias, vozes e detalhes que vão surgindo naturalmente, criando um disco cheio de movimento, frescor e uma sensação deliciosa de liberdade.

Mas existe algo muito mais profundo acontecendo por baixo dessa aparente leveza.

O próprio título nasce quando Ralph olha para um longo histórico de composições e percebe nelas uma espécie de testamento das diferentes fases que atravessou. “Inventário”, nesse sentido, deixa de significar apenas aquilo que possuímos e passa a representar tudo aquilo que herdamos emocionalmente: ideias familiares, linguagens compartilhadas, lembranças, afetos, perdas e pedaços de quem fomos que continuam existindo em quem somos agora. Existe também uma relação inevitável com o luto e com aquilo que permanece depois de uma ruptura, ideia transportada para a própria capa, onde diferentes formas e elementos encobrem um corpo, como raízes invisíveis sobrepostas umas às outras.

E talvez seja justamente essa contradição que faça o EP respirar tão bonito.

Porque “Inventário” não soa como um disco esmagado pelo próprio peso. Pelo contrário. As letras podem olhar diretamente para lugares densos da existência, enquanto a música abre a janela e deixa o vento entrar. Ralph encontra nessa oposição uma força criativa que também conversa com referências como Father John Misty, Mitski, CMAT e Talking Heads: falar sobre os absurdos, medos e rachaduras da vida sem necessariamente transformar tudo em escuridão sonora.

Parte fundamental dessa construção acontece no encontro com Luis Calil, da Cambriana, responsável pela produção musical. Ralph esteve profundamente envolvido em letras, melodias e propostas de timbre, mas escolheu abrir espaço para que Calil colocasse também sua própria criatividade no projeto, sem precisar permanecer preso às sonoridades das primeiras guias. É uma escolha que diz muito sobre o resultado: “Inventário” tem personalidade, mas não parece fechado dentro de si mesmo. Há circulação, troca, pequenas descobertas acontecendo durante a escuta.

E então chegamos a “Cinzas e Flores”.

Entre as cinco faixas, foi aquela que entrou mais fundo na gente. Talvez porque exista algo extraordinariamente humano nessa imagem de duas coisas aparentemente incompatíveis caindo juntas sobre o mesmo quintal. Cinzas e flores. Destruição e nascimento. Aquilo que acabou e aquilo que, apesar de tudo, continua brotando.

Quando Ralph canta “Disparo alarmes no corpo mental / minha cabeça sofre virtual / cinzas e flores caem no quintal / e tudo junto me faz passar mal”, existe uma fotografia muito contemporânea sendo construída diante de nós. A mente saturada, o corpo recebendo os impactos desse excesso, o virtual invadindo aquilo que deveria ser íntimo e, enquanto tudo acontece, a vida continua espalhando simultaneamente beleza e ruína pelo chão.

É uma letra linda justamente porque não tenta organizar aquilo que sentimos em caixas perfeitas. Às vezes estamos florescendo e desmoronando exatamente no mesmo dia. Às vezes queremos desapegar enquanto ainda seguramos alguma coisa com força. E “Cinzas e Flores” consegue colocar esse conflito dentro de uma música que não sufoca; ela movimenta, envolve, cresce e transforma essa confusão em algo estranhamente bonito.

No fundo, é isso que atravessa “Inventário” inteiro. Ralph não parece interessado em oferecer respostas fáceis para o absurdo da existência. O disco olha para aquilo que herdamos, para o que perdemos, para os sentimentos difíceis e para um mundo que tantas vezes parece caminhar em direção ao colapso, mas decide não permanecer imóvel diante dele.

Existe esperança aqui, só que não aquela esperança artificial que finge que tudo vai ficar bem. É uma esperança mais humana, construída no ato de continuar.

E talvez por isso “Inventário” seja uma obra de arte sonora tão bonita: porque entende que viver também é carregar nossas cinzas enquanto procuramos espaço para novas flores nascerem.

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