Tem momentos em que uma banda consegue, antes mesmo de você compreender completamente o que está ouvindo, avisar que está prestes a te levar para algum lugar. Às vezes isso acontece na primeira guitarra, em uma virada de bateria, em uma pausa inesperada ou naquela imagem de um videoclipe que parece abrir uma porta para dentro da música. Foi exatamente essa sensação que tivemos quando entramos no universo de “Afinal”, da Lunoz: a impressão de que alguma coisa estava prestes a acontecer e que seria impossível sair dali exatamente do mesmo jeito.
“Afinal” é uma música maravilhosa porque consegue transformar inquietação em som. Existe rock, existe peso, existem guitarras que crescem, baterias que parecem conversar diretamente com aquilo que está sendo dito e, principalmente, existem pausas que fazem parte da própria narrativa. Nada parece colocado simplesmente para preencher espaço. A música respira, acelera, recua e volta a crescer como uma cabeça que tenta descansar, mas simplesmente não consegue parar de pensar.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores forças desse lançamento.
Vivemos cercados por metas, horários, projetos, expectativas e aquela sensação quase permanente de que deveríamos estar fazendo alguma coisa. Quando finalmente conseguimos parar o corpo, a cabeça continua funcionando. Pensamos no amanhã, naquilo que ainda não aconteceu, no trabalho que falta, no projeto que queremos realizar, na pessoa que queremos ser e naquela versão imaginária da nossa vida que continuamos perseguindo. “Afinal” pega exatamente esse ruído invisível da vida adulta e transforma tudo em música.
A ideia encontra inspiração também nas reflexões de Carl Gustav Jung sobre os sonhos e o inconsciente, partindo da percepção de que aquilo que vivemos continua sendo elaborado mesmo quando dormimos. E a Lunoz consegue trazer uma questão enorme para uma linguagem absolutamente cotidiana, sem transformar a faixa em uma explicação filosófica. Pelo contrário: tudo permanece humano, próximo e até engraçado em alguns momentos, como naquele trecho que imediatamente ficou com a gente: “Qualquer dia desses eu vou ficar louco / tentando entender esses sonhos doidos / travesseiro tá pesado / sono tá bem complicado / mas Jung disse que faz sentido.”
É bom demais.
Porque existe uma verdade quase desconfortável escondida ali. Você ri da referência, reconhece a inteligência da construção, mas segundos depois percebe que talvez conheça muito bem aquele travesseiro pesado. O corpo está deitado, o quarto está silencioso, aparentemente o dia terminou, mas existe uma cabeça inteira ainda trabalhando. E quando uma música consegue fazer uma questão existencial soar tão próxima da nossa própria rotina, alguma conexão muito especial acontece.
Isso também não aparece por acaso na obra da Lunoz. Formada em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, a banda conhece de perto a realidade de construir arte enquanto a vida acontece ao mesmo tempo. Lucas Rato, responsável pelos vocais e guitarra, e Gabriel Costa, na guitarra, também estão ligados à banda Mais Um Dia; Marcos Abiraude assume teclado e backing vocal, enquanto Bill Dias, também integrante da Melton Sello, ocupa a bateria. Entre música, estudos, trabalho, diferentes projetos e responsabilidades pessoais, existe por trás de “Afinal” uma experiência que não foi imaginada de longe: ela é vivida pelos próprios integrantes.
Essa realidade ajuda a entender por que a música parece tão verdadeira. Influenciada por nomes como Supercombo, Fresno e Turnstile, a Lunoz constrói sua identidade entre o rock alternativo, a intensidade e momentos de maior delicadeza, utilizando letras alegóricas para falar sobre experiências que poderiam pertencer a qualquer um de nós. Não existe aqui uma banda tentando entregar respostas para a vida adulta; existe uma banda vivendo as mesmas perguntas que todo mundo e encontrando na música uma maneira de compartilhá-las.
E existe uma pergunta particularmente bonita atravessando todo o conceito de “Afinal”: como viver um sonho? Acordado ou em segundo plano?
Porque perseguir aquilo que queremos também pode nos consumir. Existe uma linha muito pequena entre continuar acreditando e transformar o próprio sonho em mais uma obrigação, mais uma meta, mais alguma coisa que precisa ser conquistada antes que finalmente possamos descansar. A música entra exatamente nesse espaço estranho, onde desejo e exaustão começam a dividir o mesmo quarto.
O videoclipe amplia ainda mais essa sensação. Concebido, dirigido e produzido pelo próprio Lucas Rato, o audiovisual não funciona apenas como acompanhamento, mas como extensão desse universo, reforçando o caráter profundamente autoral de uma banda que parece interessada em construir não somente músicas, mas uma linguagem própria.
E isso importa ainda mais porque “Afinal” representa um começo. A faixa é o primeiro fragmento do próximo álbum da Lunoz, inaugurando uma fase em que memória, tecnologia e relações humanas devem se cruzar para contar histórias pessoais que, inevitavelmente, acabam pertencendo a muita gente.
Talvez seja justamente essa a beleza de “Afinal”: transformar uma cabeça que não consegue desligar em um lugar onde várias outras cabeças podem finalmente se reconhecer. Entre guitarras, bateria, pausas, sonhos estranhos e um travesseiro que parece pesar mais do que deveria, a Lunoz criou uma música que fala sobre continuar tentando enquanto descobrimos, no meio do caminho, como simplesmente existir.
E depois desse primeiro fragmento, fica uma certeza: queremos muito descobrir até onde esse sonho vai levar a Lunoz.




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