Nós amamos aquela tipologia de música que simplesmente se recusa a permanecer no mesmo lugar. Aquela faixa em que você começa a ouvir acreditando que já entendeu mais ou menos qual caminho vai seguir e, poucos segundos depois, alguma coisa acontece e muda completamente a nossa percepção. Um instrumento aparece, a estrutura se transforma, a energia cresce e, quando parece que finalmente entendemos a proposta, ela muda novamente.
Foi exatamente essa sensação que tivemos ouvindo “Pier”, novo single da banda carioca Millo: uma música que parece guardar uma surpresa diferente para cada momento e que, quando termina, deixa aquela maravilhosa pergunta na cabeça: o que foi que a gente acabou de escutar?
E o mais bonito é que “Pier” não começa anunciando tudo aquilo que vai acontecer depois.
A entrada é tranquila, delicada, quase contemplativa, deixando a voz de Guto Millo ocupar o espaço de uma maneira muito natural. Logo nos primeiros momentos surge uma imagem que nos pegou imediatamente: “Tem dias que lembro o tempo em que o espelho embaçado levava o que ficou pra trás.” É uma imagem linda porque parece transformar memória em algo físico, como se aquilo que vivemos pudesse aparecer por alguns segundos diante dos nossos olhos e depois desaparecer novamente quando o vidro deixa de estar embaçado. Existe saudade ali, mas existe também movimento, passagem e aquela estranha relação que temos com versões antigas de nós mesmos.
Isso conversa diretamente com a origem da composição. Escrita por Guto, “Pier” nasceu de uma experiência vivida em 2019, durante uma espécie de montanha-russa emocional envolvendo um relacionamento amoroso e amizades importantes daquele período. Só que a música não permanece presa à lembrança de alguém. Aos poucos, ela transforma a memória em um caminho de volta para si mesmo, como se olhar para aquilo que ficou para trás pudesse também servir para compreender quem somos agora.
E então chegamos aos 47 segundos.
É aquele momento delicioso em que alguma coisa muda e a reação quase automática é: espera, o que está acontecendo aqui?
A música troca de pele. Aquela delicadeza inicial começa a revelar outras possibilidades, e fica muito claro por que definir a Millo através de apenas um gênero seria reduzir demais aquilo que a banda está fazendo. O projeto atravessa math rock, swancore e rock progressivo, carregando ainda referências de post-hardcore, jazz-fusion e outras linguagens que aparecem não como uma coleção de influências, mas como ferramentas para movimentar a própria narrativa. A formação atual — Guto Millo nos vocais, Alex de Freitas e Pedro Santoro nas guitarras, Matheus Tiengo no baixo e Hugo Rezende na bateria — parece especialmente confortável dentro dessas mudanças.
“Pier” não muda simplesmente para impressionar. Ela muda porque aquilo que está sendo contado também precisa se mover.
Talvez por isso o refrão funcione tão bem dentro dessa construção. A ideia de “demais para fugir” e “demais para sumir” toca justamente naquele conflito entre desaparecer e permanecer, entre continuar correndo e finalmente encarar aquilo que existe dentro da gente. É interessante perceber como uma música que nasceu de memórias relacionadas a outras pessoas acaba chegando a um lugar tão íntimo de autoencontro. O passado continua ali, mas já não ocupa sozinho o centro da narrativa.
Essa relação com a memória também será um dos fios condutores do próximo EP da Millo, previsto para outubro, com cinco faixas e lançamento pela Zbra Records. O projeto parte da nostalgia não apenas como vontade de regressar, mas como uma ferramenta para preservar nossa essência enquanto tudo ao redor inevitavelmente muda. É um conceito que também conversa com a própria história de uma banda nascida em 2017, em Maricá, e que agora entra em uma nova fase, com formação renovada e uma sonoridade que parece disposta a explorar ainda mais possibilidades.
Mas aí “Pier” ainda guarda uma última surpresa.
Quando pensamos que a faixa já mostrou aquilo que tinha para mostrar, o trompete de Steve Lamos entra e muda novamente o nosso universo.
E existe algo especialmente bonito no fato de essa colaboração ter acontecido de maneira tão espontânea. Lamos, integrante do American Football, uma das referências fundamentais do emo e do midwest emo mundial, comentou um vídeo de Guto nas redes sociais. O comentário virou conversa, a conversa virou colaboração e, de repente, temos seu trompete aparecendo justamente em um dos momentos mais marcantes da música.
É um encontro que possui um peso simbólico enorme — uma banda brasileira dialogando diretamente com alguém que ajudou a construir uma linguagem que atravessaria gerações e fronteiras —, mas durante a escuta a gente quase esquece toda essa importância histórica porque o trompete simplesmente é lindo demais.
Ele chega como se abrisse uma janela no final da música.
Depois de todas as mudanças, das guitarras, das palavras, das memórias e dessa sensação constante de não sabermos exatamente para onde “Pier” está nos levando, aquele instrumento aparece quase como uma última paisagem. E é justamente aí que entendemos por que gostamos tanto da faixa: ela não exige que escolhamos entre delicadeza e intensidade, entre nostalgia e presente, entre experimentação e emoção.
A Millo permite que tudo exista junto.
“Pier” começa como lembrança, atravessa diferentes formas e termina quase como descoberta. É imprevisível sem perder sentimento, tecnicamente interessante sem deixar de ser profundamente humana e nostálgica sem transformar o passado em um lugar onde precisamos morar novamente.
Quando o trompete termina e fica o silêncio, resta aquela sensação rara que algumas músicas conseguem provocar.
Que porra foi essa que a gente acabou de ouvir?
E a melhor parte é querer apertar o play outra vez.



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