Se um dia alguém perguntasse qual som poderia representar a essência da Divergent Beats, talvez a resposta não estivesse em uma explicação longa, nem em um manifesto.
Talvez bastasse apertar play em Delusis.
Porque existem artistas que fazem música. E existem artistas que criam mundos. Mundos onde você entra e, por alguns minutos, tudo parece mais verdadeiro do que o próprio mundo lá fora.
O projeto do músico e compositor potiguar Dimetrius Ferreira, conhecido também por seu trabalho na Mahmed, pertence exatamente a esse segundo lugar. Um lugar raro. Um lugar onde a música deixa de ser apenas som e passa a ser atmosfera, emoção, presença.
Nós já tínhamos sentido isso profundamente com “Imerso”, o primeiro EP lançado em 2025. Três faixas apenas, mas que carregavam dentro de si um universo inteiro. Um daqueles trabalhos que não passam simplesmente pelas suas orelhas — eles atravessam o corpo, ficam ecoando na cabeça, voltam dias depois, quando você menos espera.
E desde aquele momento a gente sabia que aquilo não era acaso. Era o começo de algo.
Agora esse caminho continua com “Espelhos”.
Se Imerso parecia um mergulho profundo, Espelhos é o momento em que você abre os olhos dentro da água e começa a enxergar tudo ao redor — inclusive a si mesmo.
A primeira porta para esse novo capítulo foi “Sala de Espelhos”, acompanhada por um videoclipe belíssimo dirigido por Bruno Alves. O vídeo se passa em uma bailadeira, um espaço de encontro e movimento, e trabalha de forma sensível com reflexos, luzes e sombras, criando um ambiente quase onírico onde os corpos se encontram e se movem juntos.
Há algo profundamente humano na forma como o clipe se constrói: pessoas dançando, se olhando, se reconhecendo. É um retrato de comunidade, de presença, de afeto, onde o amor e o compartilhamento aparecem como resposta à sensação de fragmentação que a própria música sugere. Não é apenas um videoclipe — é um pequeno manifesto visual sobre estar junto, sentir junto e existir junto.
Mas é quando o som começa que algo realmente acontece.
A guitarra elétrica entra rasgando o silêncio. A bateria pulsa com precisão. E em poucos segundos você já está completamente dentro daquele universo sonoro.
E então chegam as palavras:
Quem sou eu
Diz pra mim
Sob o peso dos sonhos
Desaprendi a dormir
Descalço e cansado
Ainda me encontro em mim
Uma sala de espelhos
Eu não consigo me ver
Esse trecho é devastador.
Porque fala de algo profundamente humano: o momento em que a gente se perde dentro de si mesmo. O momento em que o reflexo não parece mais familiar.
E quando essas palavras encontram a construção sonora de Delusis — esse encontro sensível entre slowcore, dream pop e post-rock — o impacto é enorme.
É impossível ficar indiferente.
Depois de “Sala de Espelhos”, o EP segue com “A bolha”, uma faixa que
continua essa jornada de introspecção com uma das frases mais fortes do EP:
“meus espelhos são tão tristes
eu não vou conseguir dormir.”
É uma música que parece respirar devagar, como se cada camada sonora estivesse ali para sustentar um sentimento que não precisa ser explicado, apenas sentido. Existe algo de muito humano nessa canção — uma sensação de fragilidade e presença ao mesmo tempo, como se estivéssemos caminhando lentamente dentro de um pensamento.

Credits: Bia Azevedo
E então chega “Findei”, a última faixa do EP. Um final que não parece exatamente um final, mas quase uma confissão. A música cresce com aquela atmosfera característica de Delusis, onde silêncio e intensidade convivem no mesmo espaço, até que chega uma frase que fica martelando na cabeça depois que tudo acaba:
““eu também conto as horas pra te ver, baby.”
É uma frase simples, mas profundamente poderosa. Porque ela carrega algo que todos nós conhecemos: a espera, o tempo que passa devagar, o desejo de algo que ainda não chegou.
E talvez seja exatamente por isso que “Espelhos” termina desse jeito — não com uma resposta, mas com uma verdade humana.
E talvez seja exatamente aqui que está a grande força de Delusis.
O que Delusis faz não é simplesmente música alternativa. É arquitetura emocional.
Cada camada sonora parece construída para abrir um espaço dentro de quem escuta. As músicas crescem devagar, respiram, criam paisagens sonoras que fazem você se perder — e ao mesmo tempo se encontrar.
Existe algo quase cinematográfico na forma como essas canções se movem. Elas não têm pressa. Elas deixam o silêncio falar. Elas permitem que o sentimento se expanda. E é impossível não amar isso.

Credits: Bia Azevedo
A gravação contou ainda com músicos que fazem parte de uma das cenas mais interessantes da música brasileira recente:
- Luis Fernando Cardoso (Terno Rei) nas baterias
- Bruno Paschoal (Terno Rei / Vovo) nos pianos
- vocais gravados em Natal (RN) por Yago Marques
- mixagem e masterização também assinadas por Roberto Kramer
Esse encontro de artistas cria uma base sonora extremamente rica, mas sem tirar o foco do que realmente importa: a emoção que atravessa cada faixa.
Porque quando criamos a Divergent Beats, lá em 2025, o sonho era exatamente esse: encontrar artistas que não têm medo de profundidade. Artistas que criam universos próprios. Artistas que fazem música que continua existindo mesmo depois que a última nota termina.
Delusis sempre foi isso para nós.

Credits: Bia Azevedo
E talvez por isso seja tão bonito ver “Espelhos” existir.
Porque mais uma vez Dimetrius prova que a música independente brasileira ainda tem artistas capazes de fazer algo raro: transformar som em emoção pura. Se a música ainda pode salvar alguns minutos do nosso dia, então Delusis é exatamente o tipo de som que faz a gente lembrar por que tudo isso ainda vale a pena.
Se alguém quiser entender o coração da Divergent Beats… basta ouvir Delusis.
https://delusis.bandcamp.com/album/ep-espelhos




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