No ano passado, a gente falou por aqui sobre A Curva Estreita do Sentir, do Cães de Prata, e desde aquele momento ficou uma vontade enorme de entender até onde aquele universo poderia chegar quando finalmente tivéssemos um álbum inteiro nas mãos. Agora, com Um Ano aos Estilhaços, essa resposta chegou — e talvez seja ainda maior do que esperávamos. Sem medo de dizer: Um Ano aos Estilhaços está entre os álbuns mais bonitos que escutamos em 2026. Não apenas pela música, mas pela sensação de existir dentro dele, porque este é um disco pensado, vivido, sentido e construído com uma atenção quase absurda aos pequenos detalhes, às palavras, aos silêncios, às imagens e a tudo aquilo que permanece quando alguma coisa dentro de nós quebra.

Foram quatro anos construindo essas oito faixas, quatro anos em que, como o próprio artista escreve no texto que acompanha o trabalho, a vida continuou mudando enquanto o álbum tentava encontrar sua forma. Existe uma imagem maravilhosa usada para explicar esse processo: perseguir um disco enquanto a vida muda seria como tentar cravar uma lança em um alvo ínfimo enquanto se está montado em um cavalo em velocidade. Talvez seja justamente por isso que Um Ano aos Estilhaços tenha tanta vida dentro dele. Ele não parece um álbum criado à distância das coisas; parece um álbum que foi atravessado por elas.

E tudo começa com uma frase gigantesca: “Morrer é uma cerimônia de retorno. Dura uma vida inteira.” É praticamente uma chave entregue ao ouvinte antes de atravessar esse lugar nebuloso criado pelo Cães de Prata, onde morrer deixa de significar simplesmente desaparecer e passa a representar também mudança, perda, cansaço, término, reconstrução e todos aqueles pequenos fins que acumulamos enquanto continuamos existindo.

A faixa-título, “Um Ano aos Estilhaços”, já abre o disco como uma obra sonora impressionante e estabelece imediatamente a dimensão do que estamos prestes a ouvir. Só que existe algo ainda mais bonito: o álbum não entrega tudo ali. A sensação é de que ele continua crescendo, faixa depois de faixa, estilhaço depois de estilhaço, encontrando novas maneiras de nos colocar dentro desse universo até que já não sabemos exatamente onde termina a experiência de quem escreveu e onde começam as nossas próprias memórias.

Cada música representa um desses pequenos rituais. “Um Ano aos Estilhaços” atravessa a inutilidade da linguagem, enquanto “Dez de Espadas” nasce como uma espécie de encantamento sobre um terreno devastado e “Um Truque” encontra seu lugar no que o próprio artista descreve como um jardim de escalas de um término. São imagens estranhas, delicadas e profundamente humanas, que fazem sentido justamente porque não tentam explicar tudo. Existem sentimentos que talvez precisem permanecer assim: meio escondidos, meio enevoados, esperando que cada pessoa encontre dentro deles alguma coisa que reconheça.

Essa atmosfera também explica as figuras que habitam as oito canções. Santos, pais, amigos, amores, fauna, flora, monstros e estátuas aparecem como habitantes de um país nublado, um lugar imaginário onde aquilo que passou continua caminhando ao lado daquilo que ainda existe. A intenção inicial, segundo o próprio artista, era escrever letras luminosas, em “estado de colheita”, como uma representação de algum acúmulo e algum cansaço. Ele próprio admite que falhou nessa tentativa. Ainda bem. Porque dessa suposta falha nasceram letras sinuosas que, de alguma maneira, acabam falando sobre um retorno à vida, retomando questões já presentes em Nocaute, mas agora encontrando uma forma ainda mais completa.

E escolher uma única faixa em Um Ano aos Estilhaços é quase injusto, porque cada uma encontra seu próprio espaço dentro dessa construção. Mas “Gás dos Outros”, apresentada pelo próprio artista como uma das pedras angulares do disco, ficou atravessada na gente. Principalmente quando ouvimos: “Eu não quero estar aqui / eu não quero acordar / me deixe flutuar nos gases dos outros.”

É uma bomba.

Não porque precise gritar para ser ouvida, mas porque existe algo brutalmente reconhecível nessas palavras quando elas encontram a melodia. É aquele instante em que você para e pensa: o que está acontecendo aqui? O que estamos escutando? O que estamos vivendo? Existe exaustão, existe fuga, existe uma vontade de desaparecer momentaneamente da própria realidade e existe, sobretudo, uma humanidade gigantesca. Em outro ponto desse universo aparece ainda a ideia de que “talvez seja melhor no mundo”, quase como uma fresta aberta depois de tanta neblina.

Talvez seja exatamente isso que transforme Um Ano aos Estilhaços em algo tão especial. Este não é um disco sobre morrer; é um disco sobre todas as vezes em que alguma coisa morre dentro de nós e, ainda assim, encontramos algum jeito estranho de retornar. E isso conversa demais com o tempo em que estamos vivendo, mas também com aquelas experiências íntimas que atravessam qualquer época: perder alguém, perder alguma coisa, terminar, cansar, mudar, não reconhecer mais quem éramos e descobrir que continuar também pode ser uma forma de reconstrução.

No final, resta aquela vontade de retornar ao álbum de novo, e de novo, e de novo, como propõe o próprio texto que o acompanha, cada vez talvez um pouco mais devagar. Porque oito músicas depois, alguma coisa ficou.

E que coisa linda poder encontrar um disco assim.

Cães de Prata não fez apenas um álbum para 2026. Fez um lugar para onde podemos voltar quando também estivermos um pouco aos estilhaços.

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