A gente já falou aqui na Divergent Beats sobre Sol Rodrigues e sobre Delírio, um álbum que nos deixou completamente de boca aberta porque existe algo muito particular na maneira como Sol entende música: ele não parece simplesmente escrever canções, mas construir atmosferas que pertencem somente a ele, lugares sonoros onde guitarras, palavras, ruídos, silêncios e sentimentos convivem até começarem a parecer parte de uma mesma memória. Agora, ele retorna com mais duas músicas tristes do sol rodrigues, um EP de três faixas que, apesar do título quase despretensioso, revela uma dualidade enorme de um artista que continua descobrindo novas maneiras de transformar aquilo que sente em música. E talvez o mais bonito seja perceber que, mesmo quando Sol muda completamente a forma, alguma coisa profundamente sua continua intacta.
EP reúne “Caminhos (Antônio Zanaga)”, “Nova Odessa (Winston Azul)” e a faixa bônus “Eu Não Enxergo Mais Você no Espelho da Minha Casa”, atravessando Midwest emo, indie rock e post-punk sem tratar esses gêneros como lugares fechados. O que une tudo é uma ideia muito mais humana: transformar cidades, bairros, ruas e objetos cotidianos em testemunhas silenciosas daquilo que vivemos. O disco fala de memória e responsabilidade afetiva, mas também da maneira como jovens do interior atravessam os próprios sentimentos quando os lugares ao redor começam inevitavelmente a carregar as pessoas que passaram por eles.
E isso não aparece por acaso. As músicas foram compostas durante uma turnê pelo interior de São Paulo e pelo sul de Minas Gerais, fazendo com que o deslocamento deixe de ser apenas circunstância e passe a ocupar o coração do próprio trabalho. Nas mãos de Sol Rodrigues, uma cidade nunca é somente uma cidade: ela pode virar uma pessoa, uma ausência, um relacionamento, uma lembrança ou aquela parte de nós mesmos que ficou presa em algum endereço.
Existe ainda uma dimensão profundamente independente em tudo isso. Sol produziu, gravou, mixou e masterizou o EP sozinho, aproximando ainda mais o resultado final daquilo que parece ser sua visão artística sem filtros. Sua premissa era aparentemente simples: escrever músicas capazes de fazer alguém pensar “parece que isso foi escrito sobre mim”. Só que alcançar esse tipo de identificação é uma das coisas mais difíceis dentro da música. É preciso escrever sobre algo profundamente pessoal e, ao mesmo tempo, deixar uma fresta aberta para que outra pessoa consiga entrar.
“Caminhos (Antônio Zanaga)” e “Eu Não Enxergo Mais Você no Espelho da Minha Casa” carregam muito daquele Sol Rodrigues pelo qual já tínhamos nos apaixonado. Existe a melancolia, a construção emocional, a maneira de fazer uma imagem cotidiana ganhar uma dimensão gigantesca e aquele sentimento estranho de estarmos escutando alguma coisa íntima demais para pertencer a alguém que não conhecemos. São músicas que confirmam uma identidade que já estava ali, mas agora parece ainda mais consciente de si.
Só que então chega “Nova Odessa (Winston Azul)”.
E alguma coisa muda.
“Nova Odessa (Winston Azul)” foi a faixa que mudou nossa percepção sobre o tamanho de Sol Rodrigues como artista. Existe nela uma construção etérea, quase suspensa, que parece brincar com a nossa expectativa de quando uma música deveria avançar, parar ou simplesmente respirar. As pausas deixam de ser vazios e passam a fazer parte da composição; as palavras aparecem como fragmentos de lembranças, enquanto a atmosfera vai lentamente envolvendo tudo até ser difícil distinguir se estamos escutando uma cidade, uma pessoa ou a memória que permaneceu depois das duas.

É justamente nesse espaço que aparece um dos versos que mais nos atingiu: “essas ruas me cheiram dos discos, dos discos do som de você.” Existe algo absurdamente sensorial nessa imagem. Porque memória também é cheiro, música, rua, temperatura, uma esquina aparentemente insignificante que de repente traz alguém inteiro de volta. Às vezes basta atravessar determinado lugar para perceber que o corpo se lembra de coisas que a cabeça jurava ter esquecido.
Mas Sol ainda guarda outro golpe.
“Eu vou perdoar todas as cidades, menos você.”
É uma frase gigantesca justamente pela simplicidade. De repente, cidade e pessoa parecem ocupar o mesmo lugar emocional. Nova Odessa deixa de ser apenas um ponto no mapa e se transforma em alguma coisa que feriu, guardou, testemunhou ou se recusou a desaparecer. Existe uma espécie de geografia sentimental nessa música, aquela cartografia particular que todos construímos ao longo da vida, onde determinados lugares ficam eternamente ligados a quem éramos quando passamos por eles.
E talvez esteja justamente aí a força de mais duas músicas tristes do sol rodrigues. Sol entende que nossas histórias não acontecem no vazio: elas ficam grudadas nas paredes, nas ruas, nos quartos, nos espelhos e nas cidades. Quando uma relação termina, os lugares não desaparecem junto com ela. Continuamos passando por eles e, algumas vezes, precisamos reaprender a habitá-los.
São apenas três faixas, mas existe um universo inteiro acontecendo aqui. Entre o Midwest emo, o indie rock, o post-punk e momentos que parecem escapar de qualquer necessidade de classificação, Sol Rodrigues confirma aquilo que Delírio já tinha nos feito perceber e, ao mesmo tempo, mostra uma possibilidade nova para sua música.
Porque “Nova Odessa (Winston Azul)” não é apenas nossa favorita do EP. É aquela faixa que faz você terminar a escuta querendo voltar imediatamente ao começo para entender o que acabou de acontecer.
E quando um artista consegue fazer uma cidade que talvez você nunca tenha visitado despertar saudade dentro de você, alguma coisa muito especial aconteceu.




Deixe um comentário