Escutar “Sem Tempo Pra Medo”, de Sumano, DaPortela e G.Kynos, é abrir os olhos para um território que tantas vezes o restante do Brasil parece enxergar apenas quando lhe convém. É entrar na identidade nortista, na Amazônia, na desigualdade histórica, no abandono político e na contradição de um ecossistema que parece pertencer ao mundo inteiro, menos às pessoas que nasceram, cresceram e continuam resistindo dentro dele. Mas é também encontrar algo muito maior do que a denúncia: é sentir uma presença ativa dizendo “este é o meu território, esta é a minha história e ninguém vai contá-la por mim”. É exatamente aí que essa música deixa de ser apenas uma faixa de rap e se transforma em documento, posicionamento e resistência.
“Sem Tempo Pra Medo” nasce do encontro entre três lugares diferentes do Brasil. Sumano é paraense, DaPortela é amazonense e G.Kynos é baiano, e essa colaboração interestadual encontra no rap uma linguagem comum para colocar no centro questões que atravessam historicamente a Região Norte. A música também integra um EP que vem na sequência, mas funciona sozinha como uma declaração suficientemente poderosa para entendermos o tamanho do universo que esses artistas estão construindo.
Porque aqui a Amazônia não aparece como aquela imagem distante, quase mitológica, que tantas vezes é reproduzida de fora para dentro. A Amazônia de “Sem Tempo Pra Medo” tem gente, voz, indignação, memória, contradição e consciência política. É uma Amazônia narrada por quem conhece as consequências das decisões tomadas longe dela, por quem entende que falar de preservação ambiental sem falar sobre as populações que habitam esses territórios é construir um discurso inevitavelmente incompleto.
Essa dimensão ganha ainda mais força quando música e imagem se encontram. O videoclipe foi produzido entre Belém e a comunidade ribeirinha de Vila Menino Deu do Anapu, no interior de Igarapé-Mirí, no Pará, lugar ao qual Sumano pertence. Jovens da própria comunidade fazem parte do elenco e ajudam a transformar aquilo que poderia simplesmente ilustrar a música em uma extensão verdadeira de sua narrativa. O território não está ali como cenário: ele participa da obra.

DaPortela resume muito dessa potência ao destacar a identidade presente no local escolhido, nas roupas, nos ângulos e nos elementos inseridos nas cenas. É uma escolha que importa porque impede que o audiovisual separe estética e discurso. A direção e o roteiro são de Sumano, enquanto a direção de fotografia reúne DaPortela, Sumano e Tião Mamba, com assistência de Victor Miranda e Luiz Horizonte. DaPortela também assume edição e finalização, enquanto Sumano e DaPortela respondem pela produção executiva. Patrícia Patrocínio assina a articulação artística, e a curadoria de elenco fica com Sumano e Luiz Horizonte, em um trabalho que ainda reúne apoios da DRX Gang, Instituto Só Rema, Kamicria e MAM Nacional.
Mas talvez seja a declaração de Sumano que melhor revele o peso de criar uma obra como essa. O artista reconhece que não existe prazer em continuar precisando falar dessas questões, especialmente depois de uma COP sediada na própria região. Afinal, permanecer denunciando um modelo de desenvolvimento sustentado pela desumanização da população pobre e periférica e pelo desrespeito aos ecossistemas significa reconhecer que determinados problemas continuam existindo mesmo depois dos discursos, das promessas e da atenção internacional.

Existe algo doloroso em precisar transformar abandono em arte para que o restante do país perceba aquilo que já deveria estar vendo.
E “Sem Tempo Pra Medo” entende perfeitamente essa responsabilidade. G.Kynos define o videoclipe como um grito poético contra abusos e explorações que atravessam não somente Pará e Amazonas, mas diferentes partes do Brasil. Essa palavra — grito — talvez seja fundamental. Porque a música não pede licença para ocupar espaço, da mesma maneira que não tenta suavizar aquilo que está dizendo para tornar sua mensagem mais confortável.
Por isso também é difícil escolher apenas um verso. “Sem Tempo Pra Medo” funciona como narrativa inteira, e fragmentá-la demais quase significaria diminuir o tamanho do que está sendo contado. Ainda assim, existe um momento que ficou profundamente com a gente: “nós que vemos da cinza transformando destroços / nós que tá nas esquinas sempre ativo / sem ter tempo para medo”.
Existe uma força enorme nessas palavras porque elas deslocam o olhar daquilo que foi destruído para quem permanece depois da destruição. Falar em transformar destroços é falar de sobrevivência, mas estar “sempre ativo” significa algo além: é recusar a passividade que tantas vezes esperam daqueles que foram historicamente colocados às margens.
Não ter tempo para medo não significa não sentir medo. Significa compreender que, quando o próprio território, a própria existência e o direito de permanecer estão em jogo, continuar também se transforma em uma forma de luta.
E talvez seja exatamente isso que torna “Sem Tempo Pra Medo” tão necessária. Sumano, DaPortela e G.Kynos não observam essa realidade de longe para depois transformá-la em conceito. Existe pertencimento naquilo que está sendo dito. Existe terra. Existe comunidade. Existe a consciência de que defender a Amazônia significa também defender as pessoas que fazem dela casa.
O rap sempre carregou consigo essa capacidade extraordinária de registrar aquilo que determinada sociedade preferiria não enxergar, e aqui essa função aparece com uma urgência brutalmente contemporânea. “Sem Tempo Pra Medo” não fala pela Região Norte: nasce dela, olha a partir dela e exige que finalmente escutemos quem sempre esteve ali.
No fim, não estamos diante apenas de uma música sobre resistência. Estamos diante da própria resistência transformada em música.



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