É um enorme prazer para nós da Divergent Beats poder conversar mais uma vez com Theus, agora por um motivo especialmente bonito: a chegada de “aliados”, um álbum que nos mostrou uma face diferente do artista e que, talvez justamente por isso, pareça tão verdadeira.

Existe muito amor aqui, mas não apenas aquele amor idealizado que costuma caber dentro de uma canção. Existe desejo, corpo, saudade, insegurança, cidade, manhãs compartilhadas e todas aquelas pequenas coisas que transformam uma pessoa em memória. “aliados” é profundamente íntimo porque não tenta esconder a vulnerabilidade de quem amou, romantizou, teve medo e continuou sentindo mesmo quando talvez já não devesse.

Ao longo dessa conversa,Theus nos levou para dentro desse processo e falou sobre uma relação breve que acabou crescendo até se transformar em um álbum inteiro, sobre Santos como cenário afetivo, sobre permitir que a luz entrasse em sua música e sobre a necessidade de registrar através da arte aquilo que o tempo inevitavelmente transforma.

Talvez seja justamente aí que esteja a beleza de “aliados”: algumas histórias terminam na vida real, mas encontram na arte uma maneira de continuar existindo.

Theus, você me contou que Aliados nasceu de uma relação muito curta. E eu fiquei pensando nisso enquanto ouvia o projeto, porque tem uma quantidade enorme de sentimento, memória e detalhe para uma história que, pelo menos no tempo, foi pequena. Você acha que algumas pessoas passam muito rapidamente pela nossa vida, mas deixam uma história muito maior do que o tempo que ficaram?

THEUS: Acredito que algumas relações curtas queimam mais intensamente do que outras mais estáveis. “aliados” começou como um EP de 3 faixas que soaria como um epílogo de “Hotel e Cassino Lótus”, meu segundo álbum. Esse EP vem a se tornar 5 músicas que se tornaram 8 e que se juntaram a interlúdios e formaram um álbum e ganharam um novo nome. Acho que isso mostra o quanto os acontecimentos em tempo real afetavam a arte que eu produzia e o rumo que o álbum tomava enquanto corpo de trabalho independente. 

Tem uma coisa que achei muito bonita nesse disco: parece que, pela primeira vez, amanheceu dentro da sua música. Tem sol entrando pela cortina, café, carros passando, encontros durante o dia… e você mesmo falou que esse é o seu primeiro projeto com uma identidade realmente diurna. O que aconteceu com você para a luz entrar dessa vez?

THEUS: No período de composição de “Hotel e Cassino Lótus”, meu segundo álbum, eu sentia a necessidade de estar em movimento através desse caos de decepções, traições e redescobertas sem me privar de sentir essa raiva e dor. Entretanto, algo que ocorre como consequência por atravessar esses sentimentos é justamente o receio de confiar e se abrir novamente, se mostrar vulnerável sem o medo de que isso seja usado contra a gente.

“aliados” surge justamente desse lugar onde eu conheço alguém que fez com que eu me sentisse visto, desejado e amado de certa forma e por nunca ter me sentido assim, isso abriu portas para novas questões que eu nunca imaginei que teria. Durante as composições, me peguei repensando o sentimento de saudade, por exemplo: Em “Correntes, Cartas e Espadas”, meu primeiro álbum, saudade vinha de um lugar de muita tristeza e de muita perda e no álbum “aliados”, ela surge de um lugar muito caloroso que é se sentir tão bem ao lado de alguém que você mal pode esperar para estar com ela de novo, de estar vivendo uma relação em que a saudade vira um desejo positivo.

E daí surge essa metáfora que percorre todo o álbum de me permitir ser visto de manhã de cabelo bagunçado com meus receios, vulnerabilidades e desejos. De se perguntar quem continua com você quando o sol nasce no dia seguinte. Quem acorda com você e gosta do que vê do outro lado da cama, o que é algo muito diferente de estar às onze da noite se arrumando pra sair ou se escondendo no seu quarto.

E tem outra coisa muito presente: a cidade. Você fala do Museu do Café, Monte Serrat, Avenida Ana Costa, Quebra-Mar, centro, ruas, prédios… Parece que você não está lembrando só de uma pessoa, mas dos lugares onde essa pessoa existiu com você. Hoje, quando você passa por alguns desses lugares, eles ainda pertencem um pouco a essa história?

THEUS: Sou constantemente influenciado sonoramente e visualmente pelos espaços que convivo, muitas das minhas memórias, boas e ruins, sempre se atrelam a endereços específicos.

Eu sinto que essas referências a lugares da cidade de Santos são mais algo que eu trago pra história, também porque as faixas que escrevo acabam por se tornar trilhas sonoras de períodos específicos da minha vida e os cenários tendem a guiar o visual e a sonoridade do projeto. Acho que o que eu quero dizer é que eu gosto de inserir esses pequenos detalhes para que essas histórias existam em outros lugares além do meu fone de ouvido, para que outros amores de outros contextos possam existir dentro da música. 

Em contraste ao eletrônico do “Hotel e Cassino Lótus” que referenciava constantemente ao Centro de Santos, “aliados” traz faixas mais acústicas que remetem a essa possibilidade palpável onde sentimentos românticos florescem à luz do dia numa mesa de bar num fim de tarde à beira da praia com seus amigos. 

Acho que daí nasce “ainda posso sonhar com seu beijo?” como uma homenagem a cidade que sempre visito enquanto falo de desejos e romances que flutuam em um lugar real e não mais um espaço fictício e mágico que existe apenas de madrugada.

Eu fiquei muito preso numa frase: “aliados de uma revolução que sua cidade jamais suportaria”. Porque você pega uma coisa que poderia ser simplesmente “duas pessoas se apaixonando” e transforma quase numa sociedade secreta entre vocês dois. Tem magia, religião, astrologia, feitiço, revolução… Por que você precisava tornar esse amor tão grande dentro da sua arte?

THEUS: Porque eu senti e enxergava esse amor exatamente dessa forma. Um sentimento tão delicado e ao mesmo tempo tão fascinante pra mim que seria injusto não tentar ao máximo descrevê-lo assim. Os olhares silenciosos, as aproximações contidas, quase que uma conversa por telepatia ou uma atração que flutua no ar onde você coloca toda sua fé e simplesmente acredita, sabe? 

Escrever textos sem uma estrutura quase como poesias livres também foi uma parte muito importante desse processo criativo. A faixa “25.03.2025” foi um desses textos que acabou se tornando um dos interlúdios do álbum e pra mim, uma das faixas mais importantes do projeto justamente por tratar esse encontro entre duas pessoas como algo sagrado, porque alguns desses encontros realmente são e tendo a ver a arte também como esse lugar não só de expressão, mas também de registro.

Sem contar que acho importante levantar a bandeira de um artista masculino preto LGBTQIA+ falando do desejo entre dois homens de um lugar poético e bonito.

Ao mesmo tempo, você não tenta parecer muito corajoso nesse disco. Você deseja, se entrega, fala de sexo, de corpo, de intimidade, mas também pergunta o tempo inteiro: “ainda posso sonhar com seu beijo?”, “quando a gente vai se ver de novo?”, “ainda existe espaço pra mim?”. Você teve medo de se mostrar tão vulnerável assim ou chegou um momento em que pensou: “é isso que eu senti e eu vou escrever exatamente desse jeito”?

THEUS: São tantas camadas, acho que depois de um período cercado de relações conturbadas, uma amargura muito forte foi silenciosamente crescendo dentro de mim. Acho que depois de tantas experiências ruins, uma situação onde alguém se interessaria por mim e isso viesse a ser algo bom se tornou uma possibilidade distante e não num sentido dramático, eu simplesmente não pensava muito sobre isso, principalmente por estar sempre do outro lado, sendo a pessoa que se interessa e não a pessoa interessada. Mas aí, aconteceu, né?

E foi como segurar algo muito delicado na mão e fazer de tudo para que não se quebre e numa relação entre duas pessoas, inseguranças de ambos se emendam em faltas que existem no outro que se emendam em traumas que se emendam em esforços… É tudo muito complexo e acho que ao experimentar isso pela primeira vez, essas perguntas acabavam rodando a minha cabeça, às vezes de um lugar de insegurança, às vezes num lugar de saudade, às vezes num lugar de carinho mesmo. Complexo.. 

Tem uma frase em “Ainda Posso Sonhar com Seu Beijo?” que talvez explique uma parte enorme do álbum: “romantizo tudo pra você”. E depois isso continua aparecendo — nas cartas, na astrologia, nas entrelinhas, nas fantasias, nas coisas que talvez tenham acontecido e nas coisas que você gostaria que tivessem acontecido. Depois de escrever Aliados, você sabe dizer onde termina essa pessoa real e onde começa a pessoa que você criou dentro da sua cabeça?

THEUS: Pra ser sincero, não. Me pego relendo as letras, reouvindo as músicas, relembrando cenas e obviamente que existem muitas nuances quando estamos falando de relações humanas e acho que esse álbum me trouxe de volta a arte como uma forma de processar sentimentos e acontecimentos, algo que eu penso ter deixado em segundo plano nesse tempo entre os dois projetos, mas acho que justamente por saber dessas nuances dentro de uma relação, eu não sei dizer sobre quem eu escrevi esse álbum.

Eu não acho que eu inventei nada, acho que o romantismo do álbum vem menos de criar situações ou alguém na minha cabeça e mais sobre ver beleza e importância nos detalhes. Dizem que amar é ser visto e quando a gente ama, a gente tem essa mania de decorar os detalhes do outro, né?

Acho que é por isso que, por mais que seja algo pessoal meu, esses detalhes e esse romantismo inserido no projeto sempre acaba ressoando com pessoas próximas e distantes. Meu papel enquanto artista é sempre falar dos outros enquanto falo de mim.

Talvez pensando sobre essa resposta, eu tenha descoberto sobre quem eu escrevi esse álbum.

E quero terminar justamente no final do disco. Em “A Última Luz Acesa da Casa”, eu sinto que aquela pessoa que antes estava no quarto, na rua, no beijo, no café, começa a existir dentro de quadros, memórias e músicas. E tem “eu sinto tanto e eu nem sei se eu deveria”. Quando você terminou Aliados, você sentiu que estava finalmente deixando essa pessoa ir ou percebeu que, transformando tudo em arte, tinha acabado de encontrar uma maneira de nunca deixá-la ir completamente?

THEUS: Confesso que eu estou há alguns dias pensando sobre essa pergunta. É muito lindo e por vezes doloroso enxergar que todas as relações que construímos ao longo da vida moldam quem nós somos e que sempre vai existir partes de alguém em você e partes suas nelas. 

E pensando sobre isso, eu vejo como a arte ao meu redor também moldou a forma que eu enxergo o mundo: Eu não estaria pensando sobre amor se alguém não tivesse tentado descrevê-lo pra mim em algum momento. Se eu não tivesse encontrado ele nos pequenos silêncios, nos abraços mais quentes, nos filmes que eu assisti, nas músicas que ouvi.

Eu li um livro chamado “A Louca da Casa” da Rosa Monteiro e em um dos capítulos, ela diz: “Eu já acho que o substancial é que todos os romancistas que acreditaram perder em algum momento o paraíso escrevem — escrevemos — para tentar recuperá-lo, para restituir aquilo que se foi, para lutar contra a decadência e o fim inexorável das coisas.”

Talvez o manifesto de “aliados” seja exatamente esse: desafiar a morte de uma relação eternizando-a em uma obra de arte e deixando que ela viva dentro de cada um que for impactado, de alguma forma, por ela. Uma amiga minha ouviu a música “ele” em suas primeiras versões e enquanto ela falava sobre a faixa, era muito claro pra mim que a música ressoou de alguma forma com o recente relacionamento romântico dela. Uma música que eu escrevi enquanto chorava encontra espaço dentro de um relacionamento saudável.

E talvez, todo esse romance e toda essa relação só tenha sido real pra mim e talvez, há alguns meses atrás, ela nem tenha chegado a existir de verdade – o que eu duvido muito, mas todas essas questões já não importam mais. Elas se encerram em “a última luz acesa da casa”.

Porque agora, nesse exato momento em que respondo isso, essa relação existe. Nessas músicas, nesses quadros, nas casas e nos corações de quem quiser acreditar.

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