Escutar Encruzilhada é uma experiência física e emocional ao mesmo tempo. É como estar no meio de um show — corpo em movimento, gente pulando, suor, barulho — e, de repente, perceber que as letras estão falando diretamente com aquilo que você guarda por dentro. A Olga Rosa consegue fazer algo raro: unir energia, intensidade e reflexão sem perder verdade em nenhum dos lados.
Formada em Curitiba, a banda mistura punk, hardcore, indie e outros caminhos da música alternativa para traduzir o cotidiano urbano, as contradições do presente e as inquietações de um jovem contemporâneo que vive entre a rua e a tela. Depois de um hiato durante a pandemia, o retorno em 2023 não soa como retomada — soa como amadurecimento. Como se o tempo tivesse passado, pesado, e deixado marcas que agora viraram música.
Em Encruzilhada, primeiro EP da banda, essas marcas aparecem de forma direta. Em apenas quatro faixas, a Olga Rosa fala sobre tempo, paralisia, redes sociais, conforto ilusório e a sensação constante de estar vivendo rápido demais e, ao mesmo tempo, parado. Versos como “se o tempo é rei, sou bobo demais” ou “ninguém precisa de abrigo, o lado de dentro é onde mora o perigo” não soam como frases de efeito — soam como pensamentos que muita gente já teve, mas nunca conseguiu organizar em palavras.
“A Foto Sai Borrada e Tremida” talvez seja o retrato mais preciso dessa geração: conectada o tempo todo, mas distante de si mesma. A música fala de telas, likes, imagens e da solidão que persiste mesmo quando tudo parece acessível. É impossível ouvir e não se reconhecer um pouco ali.
Além de intenso e honesto, Encruzilhada é um EP independente — e isso importa. Em um cenário onde tudo é rápido, descartável e algorítmico, a Olga Rosa entrega um trabalho que pede atenção, escuta e presença. Um EP que não passa correndo. Que fica.
Conversamos com a Olga Rosa sobre percurso, criação, contradições, geração e o que significa fazer música hoje sem fugir das próprias dúvidas.
A seguir, você confere a entrevista completa.
Escutar Encruzilhada dá a sensação de estar dentro de um show — dançando, pogando, suando — e, ao mesmo tempo, dentro da própria cabeça. Como foi encontrar esse equilíbrio entre intensidade física e reflexão emocional? Isso veio de forma consciente ou simplesmente aconteceu?
Olga Rosa: Foi acontecendo naturalmente ao longo da produção do EP. A parte de reflexão emocional vêm muito das letras desse trabalho, em que todas tem esse caráter de insatisfação e indignação, mas com uma certa esperança, humor e urgência, sangue no olho. O que é engraçado é que a gente só reparou que existiam esses temas em comum quando o EP estava gravado.
No meu caso, parece que eu escrevo uma letra e só depois me dou conta do que eu estava falando exatamente, ou só depois eu percebo que estou passando pela situação descrita. Talvez o inconsciente seja mais presente do que a gente pensa. Mesmo o nome do EP, só fui perceber o quanto resume os temas das músicas depois de termos decidido.
Mas parando pra pensar, tem tudo a ver com as letras das quatro músicas. Sobre a intensidade física, eu acho que isso vai muito da gravação do EP, que é muito fiel à forma com que nós tocamos em show ou no estúdio. A bateria, primeiro instrumento que gravamos, foi gravada em um estúdio de sessão, então ela já veio com um som que tem uma cara meio “ao vivo”. As guitarras foram gravadas na casa do Caetano (baterista) e usando o meu amplificador, que usamos nos shows também.
Por ser em casa, o tratamento acústico não é como o de um estúdio, então as guitarras vieram com uma ambiência de sala meio natural, que agregou pra esse som meio cru. Sem contar o fato de que, quase tudo que está gravado a gente toca ao vivo mesmo. Apesar de terem texturas, riffzinhos e alguns backings a mais, os arranjos e a produção são muito fiéis ao que fazemos ao vivo. Mas não foi uma decisão pensada, acho que foi consequência do processo, o que é legal, pois vai criando uma identidade muito nossa.

A banda passou por hiato, pandemia, outros projetos, outras vidas… Quando vocês se reencontram em 2023, o que já não era mais possível fazer do mesmo jeito que em 2019? O que mudou dentro de vocês antes de mudar na música?
Olga Rosa: Nesse meio tempo, todos nós passamos por muitas coisas diferentes. Graduações na faculdade, amizades novas, namoros, términos, empregos novos, enfim. Tudo isso trouxe muito mais maturidade pra todos nós. E nesse período, ficamos envolvidos em ciclos criativos diferentes, então musicalmente e artisticamente também houve um crescimento.
Na mesma época nós também aprendemos a gravar demos em casa, coisa que em 2019 nós não sabíamos fazer e também não tínhamos os recursos para tal. Isso ajudou muito no nosso processo e ajuda até hoje, poder fazer uma demo em casa e todo mundo ir pro ensaio com pelo menos uma mínima noção da música que vai ser tirada e trabalhada. Então com essas ferramentas novas na nossa mão e esse tempo de experiências novas, acho que a gente ficou com muita coisa engasgada na garganta, e sendo todos amigos e circulando pelos mesmos espaços, uma hora o encontro ia ser inevitável.
E dessa vez, todo mundo estava muito mais preparado pra fazer o trabalho que estar numa banda exige, fora as referências que foram acumulando nesse período, o gosto mais refinado etc. Acho que, com toda essa nova carga de experiência + recursos, foi mais fácil ter um norte. A possibilidade de lançar um single, um EP, um álbum passou a ser palpável e nós sabíamos como fazer e tínhamos o que dizer. Em 2019, não existia um plano tão claro. E ambição sempre é importante.
Em “Medida Errada”, vocês cantam “se o tempo é rei, sou bobo demais / o futuro atropela, eu sei”. Essa frase carrega uma sensação muito real de paralisia e arrependimento. Esse EP nasce mais do medo de ficar parado ou da urgência de se mover, mesmo sem saber pra onde?
Olga Rosa: A urgência se sobrepõe, com certeza. No caso de Medida Errada o sentimento é algo meio “todo mundo em volta de mim está evoluindo e eu sinto que não estou acompanhando” ou “estou ficando pra trás em relação às pessoas da minha idade”, o que é bobagem, porque cada um se sobressai em uma área da vida em determinada época, a vida não é competição e cada um tem o seu tempo.
A frase do tempo ser rei, quando fiz a letra da música, pensei na relação rei com bobo da corte, porque eu sempre fui meio ruim de lidar com o tempo. Procrastinação é foda. Sobre o futuro atropelar, é isso, parece que às vezes a gente nem vê o tempo passar, e essa autocobrança de preciso fazer tal coisa até tal mês ou ano, às vezes acaba agindo contra a gente.
Mas a sensação de urgência acho que se confirma no verso “eu já fiquei pra trás, mas enxergo de longe”. Eu posso estar me sentindo pra trás, mas o horizonte tá sempre ali, e como você disse, nem sempre sabemos pra onde ir, mas em algum lugar nós vamos chegar. E mesmo pensando no coletivo, a gente estava com muita urgência de se lançar como banda, começar a fazer acontecer, acho que urgência por movimento resume muito bem essa música.
“Rarefeito” traz um verso que bate muito forte: “ninguém precisa de abrigo, o lado de dentro é onde mora o perigo”. Em um mundo que vende tanto a ideia de zona de conforto, vocês sentem que crescer também passa por encarar o próprio caos interno?
Olga Rosa: Totalmente, todas as novas fases da vida da gente passam por esse desconforto de encarar a mudança e partir pra cima, estar cansado de esperar. E toda mudança vem de dentro, o medo de falhar é real, mas a dor de se sentir estagnado é muito muito pior. Eu quando fiz esse verso, interpretei ele também como algo tipo: a gente é nosso pior inimigo, sabe?
Muitas vezes a gente cria nossos próprios impedimentos, e Rarefeito me parece ser uma boa resposta a isso. A música foi escolhida pra ser a última do EP, pois nós pensamos que ela faria um bom contraste vindo depois de Foto Borrada, um momento pop indo pra um momento mais hardcore. Mas ela calhou de ser a música que resolve as questões temáticas do EP, tem uma mensagem meio autossuficiente (estar sozinho é estar com alguém).
Essa coisa do caos interno, acho que ele nunca passa,né, mas ele se organiza de acordo com a fase da vida, então é aprender a lidar e tentar externalizar mesmo, botar o pé pra fora e ver o que o mundo pode nos oferecer. Como dizemos no refrão, estamos cansados de esperar, então, correr atrás dá medinho, mas sempre acaba valendo a pena, mesmo que a gente não perceba na hora.

“A Foto Sai Borrada e Tremida” parece capturar com precisão a experiência de ser jovem hoje: viver pela tela, sentir falta mesmo estando conectado, buscar validação e continuar vazio. Essa música nasceu de vivências pessoais ou da observação constante de tudo isso ao redor de vocês?
Olga Rosa: Eu e Alê (baixista) fizemos essa música em 2021. Era final de pandemia e o mundo estava mais digitalizado do que nunca. E nós nunca fomos bons de rede social, ficar postando stories, lembrar de tirar foto no rolê pra guardar pra depois, enfim. Então foi super um desabafo de experiência própria, e é sobre isso mesmo, viver pela tela.
Apesar de não nos darmos super bem com rede social, nós, como todo mundo, usamos o celular direto, e a gente conversava sobre como era ruim sentir que estava dependente do celular, como é ruim perceber que ficou horas rindo de qualquer merda no insta, vendo vídeo, stories de gente que a gente nem gosta tanto, etc.
A música continua super atual e ela tem uma letra bem-humorada que acho que trás uma leveza pro EP. Quando trouxemos ela pra Olga Rosa, a gente acelerou um pouco, tem uma introdução diferente que o Osmar (guitarrista) toca, e o resultado ficou super legal. É nosso aceno pra uma coisa mais pop, e no EP eu considero ela a mais bem produzida. Não que as outras não sejam, mas essa tem mais texturas e timbres e a mix do Caetano ficou animal.
O EP fala muito sobre contradições — esperança e incerteza, movimento e estagnação, presença física e isolamento digital. Vocês sentem que Encruzilhada é mais um retrato do agora ou uma tentativa de entender o que essa geração está vivendo?
Olga Rosa: Mais um retrato nosso, como banda. Fala muito de coisas que nós passamos e sentimos nos últimos anos e ter finalmente colocado essas palavras pra fora talvez nos tenha feito entender melhor ainda esses sentimentos. Mas como mencionei antes, a temática surgiu de forma inconsciente, então talvez ele fale sobre o que outras pessoas e a geração como um todo está vivendo, sim.
Talvez a gente só confirme isso daqui uns anos, mas me parece que todas as gerações, na fase dos vinte e poucos anos, encaram uma incerteza. É uma fase de transição muito louca, a gente se transforma mais do que nunca já tinha se transformado até o momento, então eu chuto que são temas geracionais, sim. Mas eu acho que, uma das formas de nos descrever como banda, é que nós somos uma banda que mora nos apesares.
Apesar da incerteza, temos esperança, apesar de estar parado, a gente sonha alto, o que nos faz correr. Apesar do dia estar uma bosta, pelo menos eu falei com um grande amigo, ou ouvi algo engraçado. Sempre tentamos ver o outro lado das coisas, o mundo é preto, branco e cinza ao mesmo tempo. Por isso, as contradições. Apesar de qualquer coisa, sempre tem algo pelo qual acordar e encarar mais um dia e quem sabe fazer uma música sobre. Se render uma risada pelo menos, a gente já fica feliz.

Encruzilhada é um EP independente, feito dentro de uma cena que é rica, mas também muito difícil de sustentar. O que significa, hoje, para vocês, insistir em fazer música autoral e independente no Brasil?
Olga Rosa: No período pós-pandemia houve um boom de bandas aqui em Curitiba. Claro, sempre teve underground na cidade, mas parece que os anos de lockdown deixaram a galera sedenta por fazer esse corre de banda, arte, música independente. Incluindo nós.
A vontade de fazer autoral vêm da vontade de ser ouvido. Ouvido não no sentido musical, embora também tenha isso, mas de encontrar na música uma forma de falar coisas que não tem como falar de outra forma, de se expressar mesmo. Uma música é uma declaração perene, vai estar sempre lá, mesmo anos depois. Eu escuto as músicas do Encruzilhada, ou as que vieram antes, e é como ver um álbum de fotos.
Eu lembro de quando cômpus a música, de como foi a gravação, como a vida estava na época, igual quando você acha um caderno antigo e parece que foi ontem que você estava rabiscando nele. E quando, mesmo que uma pessoa apenas, para ouvir um som nosso e prestar atenção e ela realmente gosta e se identifica, eu sinto que o trabalho foi feito, aquela música cumpriu seu papel.
E, óbvio, se mais pessoas curtirem, é ainda melhor. Mas primariamente, a sensação de ter dito algo que às vezes a gente nem sabia que queria dizer, e alguém de fora se identificar, é boa demais. E também tem a questão social. Nesse boom de bandas novas da cidade, a gente fez muitos amigos legais. Então tem esse lado de, além de fazer música com meus amigos, a gente pode achar mais amigos e montar um show com as bandas deles, e é muito sincero.
Não tem grandes cifras na mesa, a galera não vem por grana, ou por interesse, é pelo amor de ver que tem gente que é como você, e ri das mesmas coisas, gosta de fazer o mesmo corre, mesmo sendo outro estilo musical, que existe uma cena e um grupo de pessoas que dá a mesma importância que você pra música e pra autoexpressão.
E o independente, apesar de ser um trabalho enorme, nos permite fazer as coisas no nosso tempo e da nossa forma, com quem a gente quer, e a gente aprende muito fazendo isso. Desde organizar rolês, mixar, masterizar, tocar melhor, cuidar de redes, divulgar. Colher o resultado de um esforço tão sincero, que não vêm de um interesse monetário, é legal demais. E aconteça o que acontecer, mesmo que tudo vá pro espaço, no futuro, as músicas ainda vão estar lá, como um testamento de uma época, tanto pra nós quanto pra quem gosta da banda. Eu acho isso muito bonito. E tocar é divertido pra caralho.

Pra fechar: que mensagem vocês gostariam de deixar para os leitores da Divergent Beats — pessoas que também vivem essas dúvidas, esse excesso de estímulos, esse conflito entre estar conectado e se sentir sozinho?
Olga Rosa: Primeiramente, escutem o Encruzilhada hahaha. Mas sobre as dúvidas, solidão, excesso de estímulo: A gente acorda e nunca sabe o que pode acontecer até o final do dia. Então eu diria pra dar a cara a tapa, mesmo com medo, ou inseguro, se der errado, que se foda. Melhor do que não tentar. E fazer algo por amor.
A gente não precisa viver do que a gente ama pra fazer o que a gente ama. É importante você não odiar o que você faz pelo sustento, caso contrário, a vida vira um inferno, mas se a sua paixão número um não é o que paga as contas, continue fazendo, da forma que for possível. É importante pra você e pras outras pessoas, a gente nunca sabe quem vai se identificar com o trabalho da gente.
E deixar cartas na mesa, palavras por dizer, e oportunidades passarem têm um gosto muito amargo. Então mete o louco e faz, mas sem fazer loucura hahahaha

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