Não existe coisa mais bonita do que quando uma banda decide homenagear um artista e entende que homenagear não significa simplesmente revisitar aquilo que já foi feito. Existe uma responsabilidade afetiva nesse gesto, porque é preciso tocar na memória de alguém sem aprisioná-la ao passado, encontrar uma maneira de contar novamente uma história respeitando aquilo que ela representou e, principalmente, fazer com que essa homenagem consiga atravessar também quem está do outro lado escutando. Foi exatamente essa sensação que tivemos com “Apátrida de Itabira”, dos Os Empenhados, uma homenagem profundamente humana a Elke Maravilha que consegue celebrar não apenas a artista gigantesca que ela foi, mas a mulher impossível de colocar dentro de qualquer definição

A composição é de Itamar Assumpção e nasceu inspirada justamente na amizade entre Itamar e Elke, duas figuras que, cada uma à sua maneira, fizeram da liberdade uma parte inseparável da própria arte. Agora, dez anos depois da partida de Elke, Os Empenhados recuperam essa obra e a atravessam com a própria identidade, construindo uma nova versão com arranjos de rock desenvolvidos por Marcelo Del Rio e Pedro Del Rio. O single chega às plataformas digitais em 16 de agosto, enquanto o videoclipe, lançado no dia 8, já abre as portas para todo o universo emocional que envolve essa releitura.

E existe algo particularmente bonito em ouvir essa música sabendo quem são Os Empenhados. Formado por músicos do bairro da Penha, em São Paulo, o grupo nasceu em 2015 a partir de um estudo sobre a linguagem artística e a obra de Itamar Assumpção e, desde então, vem levando esse repertório para escolas, teatros e diferentes espaços culturais. “Apátrida de Itabira”, portanto, não apareceu agora na história da banda. A música faz parte de seus shows desde a estreia do projeto, há mais de uma década.

E é justamente aqui que tudo ganha outra dimensão.

Na apresentação de estreia dos Empenhados, realizada em 13 de setembro de 2015, na Penha, Elke Maravilha esteve presente como participação especial. Elke é madrinha da banda, e aquela noite acabaria se tornando também sua última apresentação na cidade de São Paulo antes de sua morte, no ano seguinte. Quando entendemos essa ligação, a versão de “Apátrida de Itabira” deixa de ser simplesmente uma interpretação de uma composição importante da música brasileira e passa a carregar memória, encontro, amizade e uma história que pertence diretamente à existência do próprio grupo.

Isso aparece desde a introdução da gravação, talvez em um de seus elementos mais emocionantes: ouvimos a própria Elke Maravilha cantando um trecho da canção russa “Poi, Lastochka, Poi”, recuperado de um registro realizado em 2010 no Estúdio Disco Voador, no Rio de Janeiro. Sua voz surge ali quase atravessando o tempo, estabelecendo uma presença antes mesmo de a nova interpretação ganhar completamente o espaço.

Depois, a música vai construindo esse retrato extraordinário, e quando chegam palavras como “Elke Mulher Maravilha”, tudo parece se encaixar. Porque falar de Elke é necessariamente falar de muitas Elke ao mesmo tempo. A artista, a atriz, a apresentadora, a jurada, a musa, a refugiada, a mulher que passou pela vida recusando a obrigação de caber dentro daquilo que esperavam dela. A própria construção da letra vai desenhando essa figura multifacetada, e a interpretação dos Empenhados encontra na força do rock uma maneira de fazer essa personalidade continuar pulsando.

Talvez a maior beleza dessa homenagem esteja justamente em não tentar explicar Elke Maravilha, mas celebrar o fato de que ela nunca precisou ser explicada. Existe liberdade nisso. Existe irreverência. Existe uma vida inteira vivida sem pedir autorização para existir da maneira que desejava.

O videoclipe leva esse sentimento ainda mais longe. Concebido e dirigido por Marcelo Del Rio e Pedro Del Rio, com produção da Independently, o trabalho mergulha em objetos pessoais de Elke, fotografias de sua casa no Leme, no Rio de Janeiro, símbolos, presentes e lembranças acumuladas durante sua trajetória. Entre essas referências aparece também o famoso altar que ocupava sua sala, um espaço cercado pelas memórias de viagens, encontros e pessoas que atravessaram sua vida.

A utilização de inteligência artificial coloca alguns desses elementos em movimento, mas o que realmente chama atenção é a ideia por trás desse recurso: não reconstruir Elke, porque Elke não precisa ser reconstruída, mas permitir que os rastros deixados por ela voltem a conversar com o presente. Objetos deixam de ser simplesmente objetos e passam a carregar histórias; fotografias parecem recuperar movimento; aquilo que poderia permanecer imóvel dentro da memória ganha uma nova camada de existência.

É impossível separar esse lançamento da própria filosofia dos Empenhados. Depois de dois videoclipes, o grupo apresenta agora seu terceiro trabalho audiovisual enquanto prepara também seu primeiro álbum de músicas inéditas, construído a partir de parcerias entre Marcelo Del Rio e Itamar Assumpção. Existe, portanto, uma continuidade bonita entre preservar uma obra, estudá-la, dialogar com ela e permitir que dela nasçam novas possibilidades.

E talvez seja por isso que “Apátrida de Itabira” emocione tanto. Porque não parece uma homenagem feita para olhar nostalgicamente para alguém que partiu, mas uma celebração de tudo aquilo que continua vivo depois que uma pessoa vai embora.

Elke costumava falar da morte como “ir brincar de outra coisa”. Dez anos depois, sua voz continua aparecendo, sua imagem continua provocando, sua liberdade continua inspirando e sua história continua encontrando novas pessoas.

Os Empenhados entenderam isso perfeitamente.

“Apátrida de Itabira” não coloca Elke Maravilha no passado. Coloca Elke exatamente onde ela sempre pareceu pertencer: em movimento, impossível de prender, livre demais para caber em qualquer fronteira.

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