Existem artistas que você começa a gostar no primeiro segundo em que a música toca. Não é pelo impacto, nem pelo exagero — é porque tudo ali soa verdadeiro. A voz entra, o verso vem, e algo encaixa. Depois, você olha com mais atenção: a capa do single, o visual, a forma de se colocar no mundo. E percebe que não é acaso. Tudo conversa. Tudo é vivido. Esse artista é Dantas.

Cantor e compositor sorocabano, Dantas constrói sua música a partir daquilo que geralmente fica guardado: confissões, nóias, dilemas internos, pensamentos que vão e voltam quando a cabeça não desliga. Entre o Indie Pop e a MPB, ele não busca respostas prontas — ele expõe o processo. E talvez seja exatamente isso que torna sua obra tão próxima.

Em “Fracasso”, lançado em novembro, Dantas encara de frente o colapso emocional. A música soa como um diálogo interno cru, onde autossabotagem, culpa e ansiedade ganham nome e corpo. Versos como “criatividade pra sabotar a mim” não funcionam como efeito dramático — são reconhecimento. Ainda assim, a canção não se entrega ao fundo do poço. Ela respira. Tenta. Insiste. É sobre cair, mas também sobre continuar juntando os próprios cacos.

Já “Mar Aberto”, seu novo single, chega a outro lugar emocional. Lançada em pleno verão brasileiro, a música engana quem espera algo leve ou festivo. Aqui, Dantas fala de tempo, de aceitação e de coragem. De se lançar sem mapa, sem pressa, entendendo que antes de caminhar com alguém, é preciso aprender a caminhar consigo mesmo. “Antes de encontrar alguém, também preciso me encontrar” vira quase um manifesto íntimo.

O que atravessa essas duas canções — e tudo o que Dantas cria — é a consciência emocional. Nada soa aleatório. Nada parece feito para agradar. Existe um cuidado estético, sim, mas existe, sobretudo, verdade. Suas músicas não gritam. Elas permanecem.

Conversamos com Dantas sobre esse percurso, sobre dor, amadurecimento, desejo, medo e o que acontece quando você decide se jogar no mar aberto mesmo sem garantias.

A seguir, você confere a entrevista completa com Dantas.

Escutando suas músicas, dá a sensação de que você não canta personagens — você canta estados de espírito. Em que momento da sua trajetória você entendeu que sua força artística estava justamente em transformar confissões, noias e dilemas em canções?

Dantas: Quando decidi que Fracasso seria a minha primeira faixa autoral a ser lançada pro mundo, foi muito porque eu entendi que estava construindo ali algo além de qualquer arquétipo, um sentimento. Normalmente escrevo confissões, misturando-as com desejos e uma pitada de fantasia, se necessário.

Às vezes, estou na verdade descrevendo o agora, sensações ou sentimentos que me acompanham. No momento em que entendi que não poderia mais adiar tudo isso, entendi também que não teria como ser de outra forma senão abrindo meu coração e despejando tudo pra valer, jamais pela metade.

Sua voz é muito marcante, mas o visual também fala alto: capas fortes, clipes cheios de símbolos, referências aos anos 90 e ao começo dos anos 2000. O quanto imagem e música caminham juntas pra você na hora de contar a sua história?

Dantas: Eu sou cria da MTV, da era do auge dos blogs e fotologs, do pop e da moda dos anos 90,  2000. Além disso tudo, sou formado em comunicação (jornalista) e um grande apaixonado pelo audiovisual como um todo, sigo pesquisando muito e buscando me antenar sem ser forçado. Você bate tudo isso no liquidificador e o resultado é um mix de referências que passeiam por diversas épocas, tempos onde eu me lembro de ser muito feliz ao consumir, aprender e habitar, mas sem ignorar o agora.

Enquanto estou criando uma faixa, já penso em como posso apresentá-la pro mundo, a que cores ela me remete, que símbolos a representam e de que maneira consigo traduzir tudo isso além do ouvir (que sempre é o mais importante de tudo).

Começa aí esse trabalho que eu enxergo como um grande pacote, que pede pesquisa, cada faixa ou projeto pede algo diferente, e eu quero experimentar sempre, tanto na voz, quanto no visual. Eu sou inevitavelmente um contador de histórias que vai sempre usar os adereços que tiver em mãos para contá-las.

Em “Fracasso”, você diz: “Às vezes me sinto um fracasso, perco os meus passos, não sei mais dançar”. Essa música soa como um diálogo interno cru, quase sem filtro. Em que ponto da sua vida você percebeu que precisava colocar isso pra fora — mesmo correndo o risco de se expor demais?

Eu comecei a compor letra e música de “Fracasso” em agosto de 2024, no clássico esquema de notas em áudio do celular. Fui revisitando-a de tempos em tempos, porque também fui digerindo o sentimento e as sensações advindas desse estado de espírito, me compreendendo mais, me perdoando e também aceitando mais a vida acontecendo ao meu redor e minha interpretação inconstante de tudo.

Eu componho sem amarras, digo o que precisa ser dito, no máximo vou trazer um lúdico, para também não me mostrar sangrando, mas não enxergo outra forma de fazer minha música, ao menos nesse momento. Canto o que sinto, o que vivencio. Curiosamente, a letra de “Fracasso” abre com “Ah, agora não tem mais volta”, e isso foi um recado que gravei para mim mesmo, adicionado depois da música quase pronta, para que eu não volte atrás e siga me comprometendo com a verdade da minha obra, e consequentemente com a minha verdade interna.

Não ligo de me expor nesse lugar, só vou dividir o que desejar e como quiser, há muito guardado no meu íntimo que talvez não vire canção. 

Quando você canta “criatividade pra sabotar a mim” e “um complô perfeito contra eu mesmo”, parece que está nomeando algo que muita gente sente, mas não consegue verbalizar. Escrever essa música te ajudou a se libertar desses pensamentos — ou foi mais um jeito de aprender a conviver com eles?

Dantas: A letra de “Fracasso” fala sobre a jornada de finalmente abraçar a coragem e realizar algo que tanto se deseja. Hoje eu olho de cima e vejo que ela fala justamente sobre lançar a própria faixa no mundo, uma canção sobre finalmente criar uma canção. Com isso, vou trabalhando essas noias todas, externalizando dores e caminhos de reflexão que muitos devem estar vivendo em diferentes áreas da vida. Eu escrevi sobre não mais adiar os meus desejos, em especial na música, mas a mensagem fica transponível, se encaixa no cenário da vida onde você estiver agora.

“Mar Aberto” chega num momento diferente: é verão, mas a música não é sobre festa — é sobre se permitir. Quando você escreveu “antes de encontrar alguém, também preciso me encontrar”, você estava falando mais de amor ou de reconciliação consigo mesmo?

Dantas: Tem essa ironia de trazer algo mais brando durante um período festivo, carnavalesco, de calor e praia. Mas esse mar de fato está aberto para as possibilidades, até mesmo as mais complexas. A primeira reconciliação é comigo, antes de tudo. Ao buscar essa serenidade e leveza, mesmo que não vivendo-as 100% do tempo, a gente acaba se abrindo para outras áreas da vida, o amor é definitivamente uma delas.

A primeira frase dessa música surgiu enquanto eu assistia uma entrevista da Liniker no Roda Viva, onde ela dizia: “Quero ser acolhida da mesma forma que acolho”, isso me pegou muito. A partir dessa ideia, pensei mais sobre o papel do amor na minha vida, e como eu gostaria de vivê-lo quando de fato eu me sentir tomado. “Vai que uma hora eu acerto, o amor tem dessas, tudo é por um triz!”

O título pode sugerir algo leve, mas a música fala de coragem: se lançar sem mapa, sem pressa, sem garantias. O que te deu força pra escolher o mar aberto em vez de uma baía segura nesse momento da sua vida?

Dantas: Estou num estágio desse processo criativo onde acabei de abrir a porteira, e ela não se fecha tão cedo. Até então não presto contas e nem devo nada a ninguém, a não ser a mim mesmo. Dizer o que penso, do jeito que quero e sinto que devo, é um acerto de contas tardio, tô fazendo o pix de volta para a minha própria conta bancária.

Eu tive vontade de mostrar outras camadas da minha voz, minha versatilidade musical e simplesmente experimentar. É isso que farei antes de lançar um álbum completo, por exemplo. Quero entender os lugares que posso visitar musicalmente, explorar territórios, e depois contar histórias maiores. É cedo para dividir isso, mas o que vem depois de Mar Aberto norteia meu som para outro canto. Tudo o que eu sei é que na música eu quero me divertir, sempre!

Em um mundo que cobra decisões rápidas, relacionamentos imediatos e respostas prontas, “Mar Aberto” parece defender o tempo, o sentir e o acaso. Você sente que hoje consegue respeitar mais o seu próprio ritmo do que antes?

Dantas: Costumo dizer que quando escrevo, seja uma música, um poema ou simplesmente para me expressar na rotina, estou enviando recados para mim mesmo, para que eu também acredite ou para que deposite ainda mais confiança nessa ideia, movimento ou percepção.

No ritmo inevitavelmente acelerado que a gente vive, mente quem disser que não se abala ou minimamente se influencia com o que consome nas redes, com a condução de conversas e até mesmo o ritmo do outro nessas conexões. Eu me esforço para respeitar meu tempo e espaço, assim como quero conceder isso ao outro também, mas nem sempre é fácil. Mar Aberto sou eu mesmo dizendo, primeiramente para mim, “Confie e acredite no tempo das coisas, pressa não vai te levar a nada”. É uma espécie de mantra!

Pra fechar: que mensagem você gostaria de deixar para quem vai conhecer sua música através da Divergent Beats — e o que você pode contar sobre o que vem depois desse mergulho em “Fracasso” e “Mar Aberto”?

Dantas: Eu posso contar que este é o começo de uma longa história, e que eu nunca vou deixar de criar, me expressar e fazer música. Essa talvez seja uma das únicas certezas que tenho na vida, e que assino embaixo para chancelar sem medo algum.

Assim como muita gente, estou finalmente respeitando meus sonhos quase como numa missão. “Fracasso” abriu os trabalhos do meu universo musical em grande estilo, “Mar Aberto” convida para um diálogo mais intimista, mais sereno, e pela frente a gente logo se encontra nos palcos, nas pistas, fazendo a música que bate no meu coração, torcendo para que conquiste o seu também.

Instagram Dantas



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