Colocamos o play em Hotel e Cassino Lótus e, em poucos segundos, ficou claro que isso aqui não era só mais um álbum. Era um manifesto. Um disco feito sem freio, sem culpa e sem vontade de agradar. Um daqueles trabalhos que te puxam pelo colarinho e dizem: “É isso que eu vivi, é isso que eu sinto, lida com isso”. E a gente lidou — e amou.
São 11 faixas, 39 minutos e 30 segundos e nenhuma tentativa de suavizar o impacto. O álbum é sensual, profundo, provocador e completamente consciente do próprio excesso. Existe prazer, existe vício, existe raiva, existe liberdade. Existe também um “I don’t give a fuck” muito bem colocado, que lembra aquele momento em que você para de se explicar e começa a existir. Sim, lembra, Brat, da Charli XCX — esse lugar onde tudo vem à tona, sem filtro, sem medo, sem pedido de desculpas.
Faixas como “Fogos de Artifício”, “BYD” e “Faísca” chegam do nada e explodem na cabeça e no corpo. São músicas que te fazem levantar, dançar, suar, se libertar de qualquer coisa que esteja pesando. Outras, como “Pensamentos Intrusivos” e “Inferno de Dante”, escancaram o lado mais cru e honesto de um artista que não tem medo de olhar para dentro — mesmo quando o que encontra não é bonito.
As letras são diretas, afiadas, presentes:
“O calor evapora lágrimas da nossa história.”
“Parece até sensual o modo em que você me machuca.”
“O nosso segredo se encontra com álcool.”
São frases que pertencem a um mundo muito específico — o mundo queer, noturno, clubber, intenso — mas que, ao mesmo tempo, conversam com qualquer pessoa que já sentiu demais. Para nós, soam como memórias vivas. Lembram noites longas, cidades que nunca dormem, corpos em combustão. Londres bateu forte aqui. Santos bate forte aqui.
Natural de Santos (SP), Theus é um artista independente que transita com naturalidade entre pop, MPB, rap, trap, funk, synthpop e eletropop — mas o que realmente define seu trabalho é a verdade emocional. Formado em Cinema e Audiovisual, ele não cria apenas músicas: constrói narrativas. Seus videoclipes, premiados em festivais, são extensão direta do que ele canta — e Hotel e Cassino Lótus marca uma transição clara de persona, estética e postura artística.
Se em Correntes, Cartas e Espadas havia luto, melancolia e silêncio, aqui há barulho, intensidade e fogo. Não existe mais culpa. Existe aceitação. Existe prazer. Existe rebelião. Existe alguém que decidiu abraçar todos os seus sentimentos — até os mais desconfortáveis.
Essa colaboração com a Divergent Beats não é pequena. Durante todo o mês de fevereiro, Theus ocupa nosso espaço com curadoria, playlist, conteúdos e presença real. Porque este não é apenas um lançamento — é um encontro de visões. De quem acredita que a música não serve para ser segura. Serve para ser sentida.
Conversamos com Theus sobre essa nova era, sobre dor, prazer, noite, corpo, cinema e liberdade.
E o que ele respondeu é tão intenso quanto o disco.
A seguir, você confere a entrevista com Theus.
“Hotel e Cassino Lótus” soa como um álbum feito depois de perder o medo de ser julgado. Em que momento da sua vida você decidiu parar de se proteger — e simplesmente se expor, mesmo sabendo que isso poderia incomodar?
Theus: Durante o processo de escrita do “Correntes, Cartas e Espadas”, meu primeiro álbum, eu não sabia exatamente se eu chegaria a realmente lançar o projeto, visto que os sentimentos e as situações ali relatadas eram todas muito recentes e vinham de um lugar de muita dor e solidão. Era um momento muito caótico no meu ciclo social e existia um grande receio de como pessoas próximas que me conheciam e se reconheceriam naquelas músicas iriam reagir a elas na época. Alguns chegaram a se afastar ou me tratar diferente por causa do lançamento do projeto, o que me abalou muito e reforçou esse pensamento autodepreciativo que já existia durante as composições: um sentimento de vergonha, de se sentir um fardo ou um incômodo.
Com o tempo, esse peso do projeto foi se esvaindo conforme eu ouvia comentários positivos sobre o álbum e as músicas, fui convidado a produzir um videoclipe para a faixa “muro invisível” que venceu prêmio de Melhor Videoclipe pelo Voto Popular no festival de cinema da minha cidade, o Festival Curta Santos – o que abriu portas para que outros projetos futuros como os videoclipes da era “Hotel e Cassino Lótus” ganhassem outros prêmios como o Festival Videoclipe-se onde eu disputei ao lado de Bruno Gadiol e Valesca Popozuda.
Isso tudo me motivou a voltar ao projeto com outros olhos e trabalhar numa versão deluxe com artistas que eu admiro e posso chamar de amigos como Enzo Borges, Luaro Inn e Fabio Colpani. Infelizmente ou felizmente, dependendo de quem você for, eu aceitei que esse é o fardo do artista e é algo que eu não vou conseguir simplesmente parar de fazer. E cada letra que eu escrevo é mais um motivo pra alguém se afastar e tá tudo bem, eu acho.
No seu primeiro álbum havia luto, silêncio e culpa. Aqui existe prazer, vício, fogo e um “foda-se” muito consciente. O que aconteceu com você para transformar dor em combustão?
Theus: Acho que veio muito do entendimento de que você pode devolver para as pessoas aquilo que elas te oferecem e isso não é vingança e “Hotel e Cassino Lótus” surgiu muito dessa mesma energia. Se algumas pessoas possuem a coragem de falar absurdos, cometer atrocidades, ter posturas e atitudes escrotas e acreditam que elas podem simplesmente deitar a cabeça na cama delas e dormir, eu vou ser a última pessoa a oferecer a elas um segundo de paz.
Eu sempre fui hiper vigilante comigo mesmo perante as minhas relações. No sentido de “Eu disse a coisa certa? Essa pessoa me odeia? Eu fiz essa pessoa se sentir bem? E se essa pessoa deixar de ser minha amiga? O que vão pensar de mim?”. E nenhuma dessas pessoas em nenhum momento teve a mínima consideração em como elas agiam perante a mim. Amizades que gritavam comigo por um mínimo erro, relações que se mostraram extremamente racistas, momento em que eu abaixei a cabeça para tentar me encaixar em um espaço que eu acreditei ser o único que viria a tolerar minha existência, porque ser amado era uma impossibilidade.
Conforme eu conheci pessoas incríveis ao longo dos últimos anos, fortalecendo meu ciclo social e aumentando o critério que eu usava para construir meus relacionamentos, eu descobri que eu cultivava alguns bem abaixo da média.
Conclusão: Se você quiser entregar sua energia e seu tempo e se relacionar com alguém que não te respeita, que te humilha em mesas de bar ou que manipula e faz você questionar todas as suas decisões, fique a vontade. Mas eu já estive nesse lugar e todos nós sabemos exatamente onde ele acaba – em músicas como “Torre em Chamas” ou “Combustão”.

Esse disco vive na noite: festas de rua, álcool, desejo, caos, corpos em movimento. A noite te salva ou te destrói — ou você já entendeu que as duas coisas podem existir ao mesmo tempo?
Theus: Eu acredito que existem um mistério e uma sensualidade na noite que naturalmente nos atraem. E não estou falando necessariamente de festas ou baladas, mas do horário em si. Você nunca sabe o que pode acontecer ou quem você pode encontrar ou como você vai se sentir ou onde você vai acabar. É nesse momento que um único convite ou um único pensamento é o suficiente para mudar o rumo da história daquela noite. Parece que é nesse horário em que uma faísca se acende no peito e você não pode fazer nada para impedi-la, a não se deixar queimar e rezar para que se saia ileso.
Entre noites horríveis que perto do fim se tornaram as melhores da minha vida e noites incríveis que simplesmente perderam o brilho após tropeços com alguém que eu não deveria encontrar de novo, as noites se tornaram parte da minha identidade artística. Sejam aquelas em que eu passei acordado no meu quarto remoendo lembranças ou sentado na calçada chorando pela memória de alguém, como aquelas em que eu estive dançando a céu aberto com luzes no meu rosto e batidas explodindo nos meus ouvidos ou beijando alguém que eu jurei ter alinhado as estrelas.
Quando você escreve versos como “parece até sensual o jeito que você ainda me machuca”, você está romantizando a dor ou escancarando uma verdade que muita gente prefere fingir que não vive?
Theus: Acho que quando você tem seu coração partido e você decide se movimentar através dele, nada mais parece tão doloroso quanto o que você está tentando superar no momento. Tudo se torna apático, você se torna insensível e muitas coisas que soariam como bandeiras vermelhas e sinais de perigo passam a soar mais como desafios. “É Só Mais uma Noite” e “De Inimigos pra Amigos” exploram justamente esse sentimento em relações baseadas apenas em disputas onde o desejo se torna apenas uma moeda de aposta num tabuleiro de xadrez. Cada movimento é pensado em como chegar do outro lado. Quem vai se apaixonar primeiro? Quem vai abaixar a guarda? Quem vai fugir? Quem vai sair derrotado e quem vai desistir de jogar quando a estratégia perder a graça?
Eu tive poucas experiências de amores românticos recíprocos e muitas das vezes, o sentimento de desejo sempre vem atrelado à curta duração do acender de uma faísca, no queimar do pavio e no destruir da combustão.
Mas sendo sincero, eu acredito que essas são consequências de uma geração com medo de se abrir, de se arriscar… Existe todo um estudo sobre isso que eu não vou saber explicar agora, mas é cada vez mais comum nos depararmos com esse tipo de relação moldada através do desejo físico e da falta de comunicação. E eu entendo, é muito gostoso conhecer alguém que sabe exatamente o que fazer e como fazer sem precisar dizer uma palavra porque tudo isso pode ser resumido ao conceito abstrato de “química”, mas nenhum relacionamento se sustenta a longo prazo dessa forma. Tempos modernos, noites rápidas, espaços pra se preencher.
Não quero soar moralista, eu adoro beijar por beijar e ficar por ficar, mas acho que é sobre ser responsável e entender o que você quer e precisa pra você no momento. Em certo ponto, todas essas experiências, positivas ou não, me trouxeram o repertório necessário pra que eu entendesse como funciona esse jogo das relações. Na época, eu adorava ter essas disputas de prazer, mesmo que eu acabasse muito abalado. Hoje em dia, eu sinto que eu lido de uma forma muito melhor com meus desejos, paixões e toda essa vivência romântica das ruas.

Faixas como “Fogos de Artifício”, “BYD” e “Faísco” têm algo quase explosivo — são músicas que pedem corpo, dança, libertação. Quanto desse som vem da vivência queer, do clubbing e desse espaço onde sentir demais nunca foi problema?
Theus: Eu fui 100% influenciado pela sonoridade das festas para esse projeto. Sempre gostei muito de música pop, principalmente quando incrementada aos gêneros eletrônicos. Ao mesmo tempo, eu também sempre gostei de escrever textos, principalmente poemas, e ainda tenho uma obsessão em ler a letra de todas as músicas que eu escuto.
Em “Hotel e Cassino Lótus”, eu tento unir esses dois mundos enquanto exploro as novas referências que a noite me oferecia: House, funk, trap, rap, R&B… Estilos musicais com diversos subgêneros e culturas que representam toda uma cena, mas ainda existem um preconceito e um forte estigma por trás. Tudo no projeto roda através dessa visão de que o Hotel e Cassino Lótus é um lugar escondido no tempo onde as pessoas são guiadas pelo desejo e pelo emocional, se desprendendo de qualquer amarra social e vivendo e sentindo na maior das intensidades. Particularmente, eu encaro e relaciono isso diretamente com a forma como pessoas negras e queers constroem suas comunidades e suas redes de apoio, até mesmo em momentos de lazer.
Durante o processo de criação do álbum, eu comecei a frequentar muitos shows de artistas LGBTQIAPN+ da região. Foi em um deles onde eu conheci a talentosa drag queen Yara Mansur que canta ao meu lado na faixa “Fogos de Artifício”.
Hotel e Cassino Lótus é um espaço fictício que se dissolve num sentimento inflamável de mudança. De ser quem você quer ser, sentir o que você precisa sentir e lutar pelo que você acredita ser real. É um lugar por onde todos passam pra que se descubra quem somos, como sentimos e como lidamos com o mundo ao redor. Pra que quem sabe assim, quando o relógio bata 8h da manhã e o dia amanheça, saibamos realmente com o que se parece aquilo que chamamos de casa. E saibamos procurar o caminho até ela.
“Pensamentos Intrusivos” coloca em voz alta aquilo que normalmente a gente tenta esconder. Você teve medo de ir longe demais nesse disco — ou o medo já não faz mais parte das suas decisões artísticas?
Theus: Eu com certeza me desprendi de muitas amarras e bloqueios que eu possuía durante a produção do “Correntes, Cartas e Espadas” e ainda estou no processo de me desprender de outras mais, mas em questão de letras, eu sempre fui muito honesto e fiel ao que eu queria contar e expor no momento com as pessoas que quisessem me ouvir e acho que isso é parte do processo criativo. Você pode me conhecer como amigo e ter uma percepção muito forte e clara da minha pessoa e de como eu sou fechado e dificilmente me abro sobre meus sentimentos, mas a partir do momento em que você ouve minhas músicas, você entende de onde essa postura vem de um ponto de vista muito mais profundo sobre mim.
Acho que sempre vai existir um medo de como as pessoas vão lidar com aquela mensagem. Como o mundo vai absorver o que você tem a dizer e como isso tem ligação direta com a percepção que eles vão criar de você: Ser artista é navegar entre esses mares sem deixar que isso apague sua identidade e sua verdade. Compor e escrever é se mostrar vulnerável e acho que é um ato corajoso de diversos artistas que admiro. Quando sento para escrever, é nesses artistas que eu tento me agarrar e me inspirar. Se privar de sentir ou racionalizar o processo de criação, pra mim, se torna uma trava artística muito forte.
Existe uma transição muito clara entre a persona de “Correntes, Cartas e Espadas” e a de “Hotel e Cassino Lótus”. Quem precisou morrer nesse processo — e quem finalmente teve espaço para nascer?
Theus:“Correntes, Cartas e Espadas” foi escrito num momento de diversos atravessamentos emocionais. Eu tava numa fase de amizades instáveis, tinha acabado de mergulhar no mundo das relações românticas me apaixonando pelo meu melhor amigo de faculdade da época e isso se tornou uma grande espiral mental muito forte e expôs brutalmente muitas feridas minhas. Eu talvez tivesse maturidade para proteger os outros desses sentimentos, mas possuía nenhuma pra lidar comigo mesmo e aí mora a porta de entrada do primeiro álbum. Ele é um álbum silencioso. “Oito paredes” e “dia final”, as músicas mais dolorosas do álbum na minha humilde opinião, refletem muito como todos esses traumas, vindos de um menino lgbt negro se sentindo solitário e que sequer faz ideia de como o amor funciona ou como ele se parece, precisavam ser encarados. A falta de experiências românticas mexia muito com a minha autoestima. O ponto de transição onde tudo passa a mudar é quando a primeira música composta pro álbum “Hotel e Cassino Lótus” surge: Faísco.
No início da ideia, ela seria apenas piano e voz. Quando ela chega nas mãos do meu produtor e amigo carioca, Gabriel Matos, a música toma outra forma. É uma das músicas favoritas dele e sempre soubemos de início que seria a faixa a encerrar o projeto. Ela encapsula o motivo de toda a jornada durante o álbum existir: Por que é tão mais difícil voltar para casa?
Ali eu vejo que a dor do Correntes, Cartas e Espadas nunca morreu de fato por completo e durante as faixas, fica claro que elas só se transformaram em combustível pro movimento em direção a novas histórias.

Esse álbum soa como rebelião, mas também como lucidez. É um disco sobre se perder na noite — ou sobre se reconhecer exatamente ali, no meio do caos?
Theus: Se perder e se reconhecer em Hotel e Cassino Lótus – e talvez na vida em geral – são duas situações interligadas na minha cabeça. O álbum foi um grande processo de queimar todos os meus arquivos antigos, me deserdar de algumas decisões e começar do zero. Me perder no mundo afora pra finalmente saber o que eu quero. Acho que esse é um dos grandes argumentos que eu utilizo pra defender “Torre em Chamas” como Faixa 2.
Após sermos apresentados ao Hotel e ao meu passado como artista, “Torre em Chamas” mostra a necessidade de incendiar essa grande pilha de memórias que já não te cabem mais, sejam elas de relações boas ou ruins. Pra que os ouvintes entendam o que vem a seguir nas próximas faixas, eu preciso que eles compreendam que existe um momento de libertação e redescoberta acontecendo ao longo do projeto. Um momento onde eu deixo de ter vergonha, medo e insegurança e aceito viver a intensidade dos meus sentimentos, sejam eles poéticos ou não, de forma explosiva – e não, reclusa como anteriormente – mesmo que isso dure por um álbum sequer, o que eu não acho que vá acontecer.
Se alguém achar esse projeto inconsistente ou sem coesão, eu entendo que isso vem de um processo de experimentação e aprendizados com sons, melodias e barulhos onde eu me permiti e me arrisquei a fazer coisas novas, refletindo, se inspirando e impactando diretamente na minha vida pessoal.
“BYD” surgiu de uma piada entre amigos com a primeira frase da música “Nenhuma peripécia de um cachorro supera a malícia de uma cadela” e de uma situação onde o Thorzinho e a Hannah – meus doguinhos – latiam enquanto eu tentava gravar um vídeo para um trabalho.
“Combustão” surgiu de uma dificuldade de escrever músicas de raiva e após me sentir traído com a descoberta de uma ex-colega de trabalho racista, foi um processo lento e necessário dissecar esses sentimentos.
“Fogos de Artifício” surgiu após eu perceber a falta de músicas felizes na minha discografia. “Inferno de Dante” é uma diss-track para mim mesmo e meu lado inseguro.
Muitas outras músicas acabaram ficando de fora do projeto, mas se inspiravam em situações como se apaixonar perdidamente por alguém que você conheceu numa festa, mas que infelizmente já se esqueceu de você ou sobre sentir as estrelas se alinharem após beber demais com seu melhor amigo e acreditar na magia momentânea de quem vocês poderiam ser mais do que isso. Quem sabe eu não lance elas em algum momento futuro?
Mas depois de todo esse discurso, pode soar hipócrita dizer que eu sou a mesma pessoa de antes, mas é uma verdade que pode coexistir dentro dessa mesma ideia. Eu ainda sou o Theus de “Correntes, Cartas e Espadas”. A essência da minha escrita e da minha produção ainda se mantém. Talvez eu tenha trilhado outros rumos, encerrado alguns ciclos e me guardado um pouco mais de carinho e amor do que antes? Talvez.
Mas tudo isso foi pra escrever uma nova história que agora vocês podem escutar. Se ela é melhor ou pior, vocês decidem. Mas ela com certeza faz homenagem a parte de mim que eu descobri que existia há dois anos atrás, entre diversas outras partes de mim que ainda estão aguardando para ser descobertas em outros projetos.
Pra fechar, diretamente para quem vai descobrir esse álbum através da Divergent Beats: qual é a mensagem que você gostaria de deixar para pessoas intensas, noturnas, queer, que sentem demais e estão cansadas de pedir permissão para existir?
Theus: Você não precisa ser uma pessoa festeira ou ser fã de música alta ou beijar várias pessoas numa noite pra adentrar o Hotel e Cassino Lótus. Alguns amigos brincam que o álbum é mais sobre um estado de espírito do que um lugar fixo e eu concordo muito. No momento em que você se cansa ou se sente sufocado consigo mesmo, com a sua insegurança ou com suas relações e existe algo em você que queima e anseia por mudanças e transformações… Parabéns, você chegou no Hotel.
E cabe a você explorar todos os seus sentimentos da forma mais franca possível, explorando todas as oportunidades. Quando sentimos que perdemos tudo e não existe mais nada a perder, isso se chama liberdade. Quando estamos feridos demais, nós sentimos raiva e nenhuma revolução no mundo surgiu sem que houvesse um momento de raiva.
Então, sinta o que você tiver que sentir da forma como você precisar sentir. Encare seus piores defeitos e suas melhores qualidades. Se apaixone descontroladamente, volte atrás, se arrependa, pinte seu cabelo, tente de novo, aprenda outro corte, faça melhor, desate o nó te sufocando daquela suposta amizade, exploda de raiva, se apaixone por outra pessoa, faça outra tatuagem, se imponha mais, receba um ghosting, questione suas escolhas, peça desculpas, experimente um novo estilo, fique cafona, tente de novo, pare de pedir desculpas, mande aquela mensagem, vá naquele lugar diferente, odeie esse lugar, tente de novo, se arrependa de mandar a mensagem, conheça outras pessoas, conheça as mesmas pessoas mas por um outro olhar, quebre regras, lembre que você precisa delas e as reescreva melhor.
Dizer “Seja você mesmo” quando você sequer consegue mais se reconhecer seria extremamente clichê e raso.
Então abrace o caos desse momento entre os pedaços estilhaçados e irreconhecíveis de quem você é e faça disso uma escola temporária. Esse é o sentimento de passar uma estadia no Hotel e Cassino Lótus. É tipo um SPA, só que ao contrário haha.

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