Camila Paredes entrou nos nossos ouvidos como uma doçura — e, quando percebemos, essa doçura já tinha virado intensidade, desejo e verdade. E a gente ficou feliz exatamente por isso. Porque o que começa suave, na música dela, quase sempre revela algo mais profundo.
Não foi só “Doçura”. Foi voltar no tempo, passar por “Luzes de Copacabana”, sentir o peso emocional de “Vermelho” e agora se deixar levar pelo calor e pelo movimento de “Sabor Tropical”. Cada música parece um capítulo diferente da mesma história: uma artista que observa, sente, se expõe e transforma tudo isso em canção.
A Camila Paredes é dessas artistas com os pés bem fincados no chão, mas com uma sensibilidade que abre horizontes. Poética sem ser distante. Sensual sem ser vazia. Humana de um jeito raro. Existe uma beleza muito consciente no que ela faz — uma sensualidade positiva, que não se reduz a um único discurso e não se esgota em um único tema.
Em um cenário musical onde muitas vezes tudo gira em torno da mesma narrativa, Camila escolhe a complexidade. Escolhe falar de desejo, de flertes que não acontecem, de encontros efêmeros, da noite, do corpo e da identidade — sempre com uma delicadeza firme, que soa como empoderamento vivido, não performado.
Com “Doçura”, ela abre os caminhos de FRENESI, seu primeiro álbum autoral (em breve). Com “Sabor Tropical”, ela leva essa sensibilidade para a pista, para a rua, para a noite carioca. E com tudo o que construiu até aqui, Camila Paredes se afirma como uma artista independente que cria a partir da própria vivência — e é justamente isso que faz sua música tocar tão fundo.
Tivemos a oportunidade de conversar com Camila sobre desejo, identidade, criação e futuro.
E é com muito prazer que compartilhamos essa conversa com vocês.
A seguir, você confere a entrevista com Camila Paredes.
DOÇURA nasce de um instante que não aconteceu — um desejo suspenso, algo que começou e ficou no ar. A partir desse lugar tão íntimo e incompleto: quem é a Camila Paredes hoje, depois de tudo o que você viveu até aqui?
Camila: Acredito que tanto a Camila Paredes enquanto artista, quanto a Camila Paredes enquanto pessoa se tornaram pessoas bem mais destemidas hoje em dia. Eu sinto que hoje eu não tenho mais medo de agir pelo o que eu desejo, e quando eu tenho, eu faço mesmo com medo. Eu acho que entendi que a potência do artista está no risco, entende? Enquanto estamos na nossa zona de conforto, em todos os âmbitos da vida, jamais conseguiremos ser ousados e colocar nossa marca no mundo.
Você já disse que esse flerte não concretizado acabou revelando um lado da sua sexualidade que ainda não tinha aparecido na sua música. O que mudou dentro de você depois de escrever DOÇURA?
Camila: Sinto que quando eu escrevi essa música, eu ainda não havia me aceitado completamente dentro da minha bissexualidade, apesar de já ter me experimentado na época. A bissexualidade é um lugar delicado, as pessoas estão sempre querendo te colocar em um lugar que não transita nessa orientação sexual, ou você é gay, ou você é hetero.
Quando eu ouvi LUNCH – Billie Eilish pela primeira vez, eu tinha acabado de vivenciar a experiência que tinha me inspirado a escrever DOÇURA, e eu pensei : “nossa, por que eu nunca escrevi sobre as minhas vivências com outras mulheres?”.
Eu acho que eu estava com heterocomposição compulsória kkkk só escrevia sobre as minhas vivências com homens nas minhas músicas, e quando você escuta uma artista que você admira e se identifica falando sobre algo que você também é,como já dizia o personagem Thiago da peça de Renato Farias “O Legado”: “é quase como se aquilo ali inaugurasse um espaço de pertencimento em você”.
Sinto que esse foi um momento-chave pra mim, porque além de ter toda essa importância na minha trajetória bissexual, DOÇURA também foi a primeira música que eu escrevi para o álbum.
Então eu sinto como se a partir daquele momento eu tivesse aberto uma janela para um mundo completamente novo e delicioso dentro do meu inconsciente, tanto pessoalmente, quanto como compositora, porque depois dessa música a minha forma de compor mudou completamente.

Transformar um desejo platônico, frágil e pessoal em uma canção pop exige coragem. Em algum momento você sentiu medo de se expor demais — ou escrever essa música foi, na verdade, um alívio?
Camila: Toda vez que eu escrevo uma música, eu narro alguma experiência da minha intimidade, e quando não é isso, é completamente inspirado em sensações e situações reais. Então eu sempre fico com medo de me expor demais, eu não sei se esse é um sentimento unicamente meu enquanto compositora, porém toda vez que eu escrevo sobre algo, no primeiro momento, eu sempre tento segurar a minha língua kkkkkk.
Eu lembro exatamente da sensação de quando eu escrevi DOÇURA; eu lembro que eu pensei : “ok, mas e se a pessoa descobrir que é pra ela, como eu faço para as palavras não ficarem tão fortes?”. No fim de tudo, eu me senti muito bem depois de escrever; eu até enviei a música pra pessoa que me inspirou. Então eu sinto que foi tanto um desconforto como um alívio; acredito que na vida alguns desconfortos trazem alguns dos alívios mais importantes, e esse foi um deles.
Se DOÇURA é o desejo contido, SABOR TROPICAL parece ser o corpo em movimento: a noite, a dança, o encontro com desconhecidos. O que essa transição diz sobre a forma como você vive o prazer hoje?
Camila: Se DOÇURA foi a primeira música que escrevi para o álbum, SABOR TROPICAL foi a última e tudo isso teve praticamente um ano de diferença. Eu costumo dizer que escrever esse álbum foi um processo de cura pra mim, em diversos aspectos, então a forma como eu entrei no processo de composição não foi a forma como eu saí, definitivamente.
A transição entre tudo isso, são mais 7 músicas, que abordam diversas camadas de mim, e todas elas mostram quem eu sou sempre de forma livre, enfática, e com propriedade no que estou falando nas letras. O exercício de me colocar nesse lugar com a minha música foi essencial para que eu chegasse nesse lugar que estou, hoje eu me sinto mais segura sobre quem eu sou, o que eu quero, sobre a forma como eu me coloco nesse mundo. Eu sou muito grata à minha arte por me ensinar a me enxergar cada vez melhor.
A noite carioca aparece nas suas músicas como um espaço de magia, liberdade e risco. O que a noite te ensina sobre você mesma que o dia nunca conseguiu ensinar?
Camila: A noite carioca é o fio condutor do álbum FRENESI e com ela eu aprendi que o caos é belo. Quanto mais vida tem nas ruas, mais energia elas terão, pra mim a rua é quase uma divindade, um local com muitas energias importantes, muitas entidades são associadas a ela inclusive, e eu acho incrível se permitir ser tocado por isso.
O mesmo ocorre com a noite, que tem uma energia única de mistério, paixão, sedução, e quando você mistura uma com a outra, pra mim, isso tudo dá em: liberdade.
Eu sempre me identifiquei com a noite, apesar de ter o sol como meu planeta regente, gosto da solidão e do silêncio que a noite traz, me sinto inspirada e envolvida pela minha espiritualidade com ela, a noite pra mim sussurra coisas que meu ouvido jamais poderia escutar pela manhã.
É nela que tenho minhas maiores conclusões, ideias, experiências, porém, em toda luz há sombra, e é nela que também tenho minhas maiores crises de ansiedade, saudades repentinas e desafios mentais.
Eu fui uma criança que nasceu em plena sexta feira 13 quase 3 horas da manhã, no dia de Hécate (uma deusa da bruxaria), ou seja, eu sou envolta da noite desde que eu nasci, e sofro com insônia desde criança. Há uma forte conexão entre eu e as energias da noite, sinto que há uma potência que ainda deve ser explorada e compreendida por mim.
FRENESI nasce inspirado em uma personagem que usa a sensualidade como força política. Para você, ser sensual hoje é um ato de prazer, de resistência ou de afirmação de identidade?
Camila: Eu acho que tudo ao mesmo tempo, sabe? Uma curiosidade sobre mim é que eu fui instrutora de pole dance durante 2 anos, já estive em pódio de campeonato e tudo mais, e por que eu estou falando disso?
O pole dance é uma arte erótica que surge das strippers e quando eu comecei a fazer aula eu tinha 19 anos, eu estava numa época muito conturbada da minha vida, era um momento em que eu me reprimia muito, e quando eu aprendi a acessar a minha sensualidade através do pole dance, tudo mudou. A minha conclusão é que uma mulher se apropriar da sua sensualidade é algo muito potente socialmente, uma vez que nós somos negadas desde crianças a sermos detentoras de qualquer coisa relacionada ao prazer, a energia sexual e etc..
O patriarcado domina muito os corpos femininos, e quando você vira esse jogo e aprende a lidar com o seu próprio corpo nesse lugar por conta própria, eu sinto que isso é revolucionário. Usar a sensualidade pra mim então nasce de um ato de prazer, mas de forma inerente a mim se torna um ato de resistência e reafirmação de identidade, isso é algo que não se controla.
Seu processo criativo passa por imagens, sensações, referências visuais e sonoras muito bem definidas. Quando você cria, o que vem primeiro: a emoção que você quer sentir ou a história que você precisa contar?
Camila: Eu fico muito feliz de conseguir transmitir isso porque eu de fato sou uma pessoa muito imagética na minha forma de criar e esse sempre foi um objetivo que eu tinha com as minhas músicas. Respondendo a sua pergunta, nos meus momentos de composição a inspiração sempre é um sentimento, eu sempre sei o dia que eu vou compor porque eu sinto isso, e minha composição nasce disso.
Depois eu trânsito por acordes no violão até encontrar uma harmonia que seja condizente com a sensação (que eu não penso muito sobre até esse momento). Quando eu encontro esses acordes eu sinto que tudo vem de uma vez, tento encontrar uma melodia cantarolando mas junto já vem as palavras e a partir disso entendo sobre o que eu to querendo falar.
Tiveram algumas músicas pontuais do álbum em que eu pensei sobre o que eu queria falar, como, por exemplo, DOÇURA, que, como eu disse, foi quase como um processo terapêutico, mas, na maioria das vezes, eu só deixo o sentimento reverberar através das palavras.
Para fechar, de forma bem honesta: o que você gostaria de dizer para os leitores da Divergent Beats — pessoas sensíveis, curiosas, intensas, que estão aprendendo a viver o desejo com mais verdade e menos culpa?
Camila: Tem uma frase da Rita Lee que eu amo que é: “Eu nunca fui um bom exemplo, mas eu sou gente fina”. Acho que todos temos que aprender com a Rita Lee e não ser um bom exemplo pra ninguém, buscarmos dentro de nós a nossa essência e vivermos sendo verdadeiros com ela, sempre entendendo os nossos limites e sendo gentis conosco mesmos.
Eu passei por muita dor na minha vida, esse álbum me ensinou que tentar negar isso, é negar as minhas sombras e isso só me tornava uma pessoa menos honesta comigo e assim, menos verdadeira com o que eu realmente sou.
Eu ainda estou aprendendo, afinal de contas, eu só tenho 26 anos, mas hoje em dia, eu não peço mais desculpas por quem eu sou pra mais ninguém, e esse é meu conselho de hoje, sejam péssimos exemplos desde que isso não esteja afetando a liberdade de ninguém <3 E ah, obrigada por terem escolhido ler e se interessar pelo meu trabalho (: eu sou muito grata a isso.
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