A primeira coisa que pegou a gente quando entramos no universo de Entrelaces, de Maíra Guedes, foi a capa. Antes mesmo da música começar, estava ali aquela explosão luminosa de cores, entre rosa, laranja e luz, e essa mulher maravilhosa no centro de tudo, quase como uma fada surgindo no meio de um universo que parece pertencer completamente a ela. Existe força naquela imagem, mas também sensualidade, liberdade, movimento e uma alegria quase magnética. Naquele momento, antes mesmo do primeiro play, a gente já sabia que estava prestes a entrar em um mundo musical incrível.
E entramos.
Entrelaces é daqueles discos em que imagem, conceito, corpo e música parecem conversar o tempo inteiro. Lançado em agosto de 2026, o álbum olha para o universo feminino contemporâneo sem tentar reduzi-lo a uma única maneira de ser mulher. Pelo contrário: a beleza do trabalho está justamente na multiplicidade. Existe força, existe sensibilidade, existe desejo, existe liberdade, existe sensualidade e existe também espaço para todas as contradições que fazem parte de simplesmente existir.
Porque uma mulher poderosa não precisa ser uma mulher invulnerável.
Pode desejar, duvidar, mudar, sentir, dançar, cair, se reconstruir e continuar sabendo perfeitamente quem é.
E musicalmente Maíra encontra uma linguagem maravilhosa para contar tudo isso. O instrumental orgânico brasileiro se entrelaça com beats digitais e urbanos, criando uma sonoridade que consegue ser contemporânea sem abandonar suas raízes. É Brasil encontrando presente, corpo encontrando palavra e tradição encontrando movimento. Em determinados momentos queremos prestar atenção em cada detalhe das letras; em outros, simplesmente queremos deixar o corpo acompanhar aquilo que está acontecendo.
Talvez por isso o nome Entrelaces funcione tão bem.
Tudo parece se entrelaçar.
A mulher e a artista. O orgânico e o eletrônico. A delicadeza e a potência. A sensualidade e a reflexão. Aquilo que mostramos ao mundo e tudo aquilo que acontece dentro da gente.
Antes da chegada do disco, Maíra já havia aberto diferentes portas para esse universo através dos singles “Oxum Um Sol”, “Voo” e “Entrelaces”, acompanhados também por conteúdos audiovisuais. “Voo” conta ainda com a participação de Taís Reganelli, ampliando essa ideia de encontro que atravessa todo o projeto.
Mas existe uma faixa que tocou a gente de uma maneira especialmente intensa: “Tempo do Mar”.
Em determinado momento, Maíra canta: “Somos feitos de contradições.”
E pronto.
É uma frase aparentemente pequena dentro de um álbum inteiro, mas existe um mundo ali. Porque talvez uma das coisas mais violentas que fazemos conosco seja acreditar que precisamos ser completamente coerentes o tempo inteiro. Como se amar impedisse sentir raiva. Como se ser forte impedisse sentir medo. Como se sensualidade e vulnerabilidade não pudessem ocupar o mesmo corpo.
Somos feitos de contradições.
É poético porque é verdadeiro.
E dentro de um álbum interessado justamente nas múltiplas facetas do feminino, essa frase ganha ainda mais peso. Entrelaces não parece interessado em apresentar uma figura feminina perfeita. Ele celebra algo muito mais bonito: uma mulher inteira.
Isso também ganha outra dimensão quando olhamos para a história de Maíra Guedes. Cantora e compositora de Campinas, ela carrega mais de 25 anos de trajetória musical. Em 2016 lançou Sambas Contemporâneos com os Baluartes; em 2018 veio o trabalho audiovisual Olho de Gato; depois Show Livre com Maíra Guedes ao Vivo, em 2019, e Uma Década de Canções com o Bloco União Altaneira, em 2024.
Portanto, Entrelaces não chega como uma artista tentando descobrir sua voz.
Chega através de uma mulher que viveu o suficiente para saber que possuir uma voz não significa utilizá-la sempre da mesma maneira.
E talvez isso explique a segurança que sentimos no disco. Existe experiência ali, mas não existe acomodação. Existe uma artista com uma longa trajetória permitindo que elementos orgânicos, beats urbanos, audiovisual, dança, sensualidade e diferentes formas da música brasileira convivam dentro de uma obra atual.
Esse universo também foi pensado para ultrapassar o álbum. O projeto ganha vida no palco com banda completa e direção de Diogo Nazareth e Fernando Baeta, transformando essas canções em uma experiência que também passa pelo corpo e pela performance.
E isso faz todo sentido.
Porque Entrelaces é um disco que parece pedir movimento.
Aquela mulher luminosa que vimos na capa antes de apertar o play não estava ali por acaso. Depois de entrar nas músicas, entendemos melhor aquela imagem. Ela não parece uma fada porque está distante da realidade; parece uma fada porque descobriu a própria luz dentro dela.
É sensual sem precisar pedir permissão.
É poderosa sem precisar esconder suas fragilidades.
É feminina sem aceitar que alguém determine o que feminino significa.
E é contraditória.
Ainda bem.
Porque somos todos.




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