Gente, Curitiba continua dando para a gente artistas e músicas incríveis. Existe alguma coisa acontecendo na cena alternativa curitibana que continua fazendo a gente olhar para a cidade com cada vez mais atenção, e agora chegou a vez da Resp3x entrar definitivamente no nosso radar com AINDA VIVO. E que álbum. Forte, poderoso, intenso, às vezes caótico, às vezes melancólico, mas sempre atravessado por uma vontade absurda de continuar. Um disco cujo título parece traduzir perfeitamente aquilo que sentimos enquanto passamos por suas doze faixas: isso aqui está vivo. Muito vivo.
AINDA VIVO é o primeiro álbum da Resp3x enquanto banda, mas essas músicas não nasceram ontem. Elas foram sendo aprimoradas durante aproximadamente três anos nos palcos, diante das pessoas, do suor, do barulho e da imprevisibilidade de uma apresentação ao vivo. Talvez seja justamente por isso que o disco carregue uma energia tão física. Existe a sensação de que não estamos simplesmente escutando doze gravações organizadas em sequência, mas acompanhando uma banda que aprendeu a entender suas próprias músicas enquanto as tocava.
E escutar uma faixa depois da outra faz a gente entrar cada vez mais fundo nesse mundo tão gostoso e absolutamente particular.
Porque tentar colocar a Resp3x dentro de uma única caixa seria praticamente impossível. Rock alternativo, post-hardcore, post-grunge, rap, indie rock, emo, samba, música eletrônica e post-rock se encontram, se chocam e, estranhamente, fazem sentido juntos. A banda consegue atravessar referências aparentemente distantes sem parecer estar simplesmente colecionando gêneros. Tudo acaba pertencendo ao mesmo corpo.
Esse corpo começou a ganhar forma em 2020, quando Resp passou a unir rap experimental, hip-hop, rock alternativo, post-hardcore e eletrônico em seu trabalho. Em 2023, a criação da banda 3x levou essa proposta para outra dimensão, colocando a energia do palco no centro. Hoje, Resp3x reúne Resp, Amandeczka, Gmax e Niko e já construiu uma comunidade importante em Curitiba, além de circular pelo Sul e Sudeste e dividir palco com nomes como terraplana, Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, Bella e o Olmo da Bruxa, Jovens Ateus e outros representantes dessa nova música alternativa brasileira.
E precisamos falar das vozes.
Niko tem uma voz incrível para essa proposta musical. Existe algo na maneira como ela entra no meio do peso, das guitarras e das mudanças constantes do disco que encaixa perfeitamente no universo da Resp3x. Ao lado de Resp, as vozes não ficam simplesmente por cima dos instrumentais: parecem fazer parte dessa massa sonora, principalmente quando o álbum cresce e tudo começa a explodir.
O próprio título nasce de “A Queda”, uma das faixas mais pesadas do trabalho, e da ideia de “o que eu sou, ainda vivo”. É uma frase que abre uma leitura enorme sobre transitoriedade: a vida termina, as coisas mudam, pessoas desaparecem, mas aquilo que criamos pode continuar pulsando. E existe ainda um segundo significado lindíssimo, porque “vivo” encontra “ao vivo”, justamente o lugar onde essas músicas foram construídas e onde a identidade da Resp3x parece respirar com mais força.
Essa transformação atravessa o álbum inteiro. “OUTRA PELE” começa olhando para uma cidade insustentável e para a necessidade de mudar quando o mundo ao redor parece não oferecer saída. “A Queda” leva essa sensação para um território ainda mais pesado. “Atrás da Moeda” entra na rotina CLT e na escala 6×1, misturando post-hardcore, samba e elementos eletrônicos para falar sobre uma existência presa entre sobrevivência e esperança.
Depois, o disco continua mudando de pele.
“Nova Lua” cresce lentamente até explodir enquanto acompanha um artista esperando algum retorno pelo esforço colocado na própria arte, inclusive atravessando referências muito específicas a Curitiba. “Cosmorigem RMX” imagina a destruição daquilo que nos revolta, mas lembra que qualquer destruição também pode alcançar aqueles que amamos. “sem_demora” olha para a passagem implacável do tempo através de uma construção próxima do post-rock, repetindo e intensificando suas ideias até praticamente chegar ao colapso.
E então ainda temos “COMEBACK!”, “BAIK”, “entre as peças…”, “Natural #5”, “600202 (Cuidado)” e “PARE DE FALAR”, cada uma encontrando uma maneira diferente de continuar essa mesma conversa sobre medo, trabalho, amor, amizade, cidade, liberdade, espiritualidade, arte e sobrevivência.
É impossível dizer qual foi nossa faixa favorita.
E isso, aqui, é um elogio enorme.
Porque todas têm alguma coisa gostosa, bonita ou inesperada esperando dentro delas. Quando pensamos que entendemos para onde a Resp3x está levando o disco, alguma mudança de andamento, gênero, atmosfera ou intensidade abre outra porta. É como se AINDA VIVO estivesse constantemente procurando novas maneiras de permanecer vivo enquanto acontece.
Talvez seja essa a maior beleza dessas doze músicas.
Existe muito descontentamento com o mundo contemporâneo dentro delas. Existe raiva. Existe medo. Existe cansaço. Mas a Resp3x nunca deixa o álbum morrer dentro da própria angústia. Sempre existe alguma coisa do outro lado: amor, amizade, transformação, cuidado, propósito ou simplesmente a decisão de continuar.
Curitiba nos entregou mais uma banda para acompanhar de perto.
E a Resp3x escolheu chamar seu primeiro álbum de AINDA VIVO.
Depois dessas doze faixas, a gente só consegue pensar uma coisa:
ainda vivo, ainda barulhento, ainda mudando e ainda com muita coisa para dizer.




Deixe uma resposta