Nós da Divergent Beats não compartilhamos tanto hip hop, rap ou trap quanto outros gêneros. E não é porque a gente não goste — muito pelo contrário. É porque, como já explicamos outras vezes, em uma cena gigantesca, cheia de artistas lançando música todos os dias, são poucos os nomes que conseguem fazer a gente sentir alguma coisa realmente diferente, aquela emoção que chega antes mesmo de você compreender completamente as palavras. A música precisa falar primeiro através do som, da produção, da atmosfera, daquela sensação inexplicável que faz você parar tudo e prestar atenção. E tivemos a grandíssima oportunidade de conhecer o universo de Aldryn Amaral através de $UTRA. O resultado? Ficamos completamente obcecados.

Porque $UTRA não parece simplesmente uma coleção de beats esperando por versos. Existe construção, detalhe, intenção e, principalmente, uma identidade gigantesca atravessando o álbum inteiro. Em alguns momentos, fomos transportados para aquela sensação que os primeiros trabalhos de Kanye West provocavam, especialmente pela maneira como produção e narrativa pareciam existir no mesmo nível de importância. Mas a comparação termina na sensação, porque Aldryn tem personalidade demais para desaparecer atrás das próprias referências. $UTRA soa como ele.

E entender de onde vem essa musicalidade deixa tudo ainda mais interessante.

Aldryn Amaral é artista independente de Macapá, no Amapá, e sua relação com a música começou aos 11 anos através da bateria. Antes do cantor, do beatmaker ou do produtor, existiu o baterista — e talvez isso ajude a explicar por que existe uma preocupação tão evidente com ritmo, dinâmica e construção dentro de suas músicas. A bateria se tornou uma das bases de sua identidade e, posteriormente, abriu caminho para produção, composição e para a criação de seu próprio universo artístico.

Em 2017, Aldryn iniciou oficialmente seu projeto solo, começando no ano seguinte a disponibilizar seus trabalhos nas plataformas e redes sociais. Desde então, vem construindo de maneira independente uma discografia que atravessa música urbana e experimentação sem parecer interessada em caber confortavelmente dentro de uma única caixa.

Paralelamente, ele continuou vivendo a música por outros ângulos, atuando como baterista em projetos como Braille, My Betrayal e Desolation, experiências que também o colocaram diretamente dentro da cena independente de Macapá. Em 2023, essa caminhada ganhou outra dimensão com a criação da PURPLEKINGstudio, ampliando seu trabalho para a produção musical e o desenvolvimento de projetos de outros artistas.

Tudo isso ajuda a entender $UTRA.

Porque existe uma cabeça de produtor por trás desse disco, mas também existe um músico que entende ritmo fisicamente e um compositor interessado em transformar experiência em palavra. As músicas funcionam antes da letra e ficam ainda maiores depois que você começa a prestar atenção nela.

E é exatamente isso que procuramos tanto quando entramos no rap.

“Drum Boy”, por exemplo, carrega uma força absurda, enquanto “El Primo” mostra outra vez como Aldryn sabe construir músicas que possuem presença própria dentro do projeto sem quebrar sua unidade. Você continua avançando pelo álbum e existe aquela sensação maravilhosa de estar descobrindo novas partes do mesmo universo, em vez de simplesmente ouvir variações da mesma fórmula.

Mas foi a faixa-título, “$UTRA”, que pegou a gente de uma maneira especial.

Em determinado momento, Aldryn solta: “Tô vendo a guerra nos teus olhos.”

Que imagem.

São poucas palavras, mas elas imediatamente criam alguma coisa visual, emocional e quase cinematográfica. Você consegue imaginar um rosto. Consegue imaginar alguém olhando para outra pessoa e percebendo que existe uma batalha acontecendo ali dentro. Não precisamos saber exatamente qual guerra é essa para reconhecê-la, porque todo mundo, em algum momento, já encontrou alguém tentando sobreviver silenciosamente às próprias coisas.

E é justamente quando o rap consegue fazer isso que ele se torna gigantesco.

Não é somente flow. Não é somente beat. Não é somente encontrar uma frase bonita para colocar em cima de uma produção impecável. É conseguir construir uma atmosfera sonora e, quando o ouvinte já está completamente dentro dela, colocar algumas palavras capazes de atravessá-lo ainda mais fundo.

$UTRA faz isso repetidamente.

E talvez o que mais tenha impressionado a gente seja perceber que estamos diante de um artista que trabalha praticamente em todas as etapas dessa construção. Aldryn canta, compõe, produz, cria beats, toca bateria e carrega anos de experiência dentro de diferentes formatos da música independente. Isso não transforma automaticamente ninguém em um grande artista, claro. O que transforma é saber pegar todas essas ferramentas e utilizá-las para construir uma linguagem própria.

E Aldryn sabe.

Do Amapá para qualquer lugar onde exista alguém disposto a colocar um fone e realmente escutar, $UTRA apresenta um artista que merece atenção justamente porque não parece interessado em simplesmente ocupar espaço dentro de um gênero enorme.

Ele construiu o próprio espaço.

A gente entrou.

E, sinceramente, não queria sair.

Deixe um comentário

Ver Mais

Descubra mais sobre Divergent Beats

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo