Na Divergent Beats, a gente abre um espaço enorme para diferentes artistas, gêneros e maneiras de entender a música independente brasileira, mas é verdade que o rap acaba aparecendo menos por aqui. E não porque seja um universo que não gostamos — muito pelo contrário. Talvez aconteça justamente porque o rap brasileiro é tão gigantesco, tão diverso e atravessado por tantas linguagens que a gente procura aquele momento específico em que tudo parece ocupar o lugar certo: a letra, o beat, o flow, as palavras e, principalmente, alguma coisa que realmente precise ser dita. Não queremos simplesmente uma música que soe bem. Queremos encontrar aquela faixa que faça a gente parar e pensar: existe uma ideia aqui. Foi exatamente isso que aconteceu quando escutamos “Placebo”, de Sos.
“Placebo” é uma música muito bonita, mas é principalmente uma música diferente. Existe uma inteligência na maneira como Sos constrói sua crítica sem transformar a faixa em discurso, porque aquilo que ele questiona faz parte justamente do mundo em que ele está inserido: números, dinheiro, status, reconhecimento e essa necessidade quase infinita de validação dentro da indústria musical.
E existe uma ironia maravilhosa no momento em que essa música chega.
Cria de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Sos está há cerca de dez anos construindo sua trajetória no rap e agora passa a integrar oficialmente a 1Kilo. “Placebo” marca sua estreia no Studio Rec, projeto dedicado aos trabalhos solo dos artistas da gravadora. Ou seja: no instante em que sua carreira entra em uma nova estrutura, potencialmente maior, ele escolhe falar justamente sobre as ilusões que essa própria indústria pode criar.
Isso diz muito.
Sos já construiu uma história extensa antes de chegar aqui. Ao longo desses dez anos, trabalhou com nomes como Baco Exu do Blues, Chris MC, Leall, Duzz, Sant e Major RD, além de ter músicas que ultrapassaram dezenas de milhões de reproduções. Sua relação com a 1Kilo também não começou agora: existe uma amizade anterior à projeção de sua carreira, além de participações em faixas como “Fluxo”, “Verdades”, “Acreditar de Novo” e “Fita de Milhão”.
Portanto, “Placebo” não soa como alguém chegando e tentando provar que merece estar ali.
Sos parece interessado justamente em não precisar provar quem é.
Isso aparece desde o início, quando ele afirma sua própria identidade sem querer ocupar o lugar de ninguém. Existe algo extremamente forte nessa postura dentro de um gênero constantemente atravessado por comparação, números, rankings e pela busca do próximo nome que supostamente ocupará o espaço de outro.
O próprio conceito de placebo é perfeito para essa discussão.
Você alcança determinado número e sente que chegou. Consegue dinheiro e sente que chegou. Recebe reconhecimento, ganha status, vê os números subirem e, por alguns instantes, talvez realmente pareça que chegou. Mas e depois?
Quanto tempo dura essa sensação?
A faixa questiona justamente esse ciclo de recompensas momentâneas que podem fazer um artista acreditar que está sendo preenchido enquanto, na realidade, continua procurando a próxima dose de validação.
Só que Sos não transforma isso em uma condenação simplista da ambição. Existe sobrevivência dentro da música. Existe família. Existe origem. Existe o desejo concreto de melhorar a própria vida e a vida das pessoas que estiveram ao seu lado. Quando ele coloca a mãe dentro dessa equação, entendemos que querer dinheiro não é necessariamente o problema.
Talvez a pergunta seja por que você quer aquilo e quanto de si está disposto a entregar para conseguir.
E então chega um dos momentos que mais chamou nossa atenção, quando ouvimos “faixa zero, um placebo”.
Gostamos demais dessa imagem porque ela parece conversar com a própria estrutura da música. Existe algo de introdução, quase de ponto de partida, mas ao mesmo tempo uma consciência de que aquilo que estamos recebendo pode ser apenas a superfície de uma discussão muito maior. É uma escolha diferente, uma construção que desperta curiosidade justamente porque não entrega tudo mastigado.
Outro verso sintetiza ainda mais radicalmente essa postura: “Faço RAP só pra ter o que escutar.”
É quase engraçado pela simplicidade, mas existe muita coisa acontecendo ali.
Em uma indústria que pergunta constantemente o que funciona, o que viraliza, qual fórmula entrega mais números e qual sonoridade está crescendo, Sos responde fazendo aquilo que ele próprio gostaria de ouvir. Segundo o artista, essa crítica nasceu naturalmente: ele nunca buscou uma fórmula para sua música e simplesmente deixou seus pensamentos encontrarem a atmosfera oferecida pelo beat.
E sentimos isso.
O som é diferente. A ideia é diferente. A maneira de organizar as palavras é diferente.
Talvez seja exatamente isso que procuramos quando abrimos espaço para o rap dentro da Divergent Beats. Não estamos procurando uma definição do que o rap brasileiro deveria ser — seria impossível e completamente contrário à própria diversidade gigantesca dessa cena. Estamos procurando artistas que consigam utilizar essa liberdade para nos entregar alguma coisa que ainda faça a gente sentir, questionar e querer voltar para a música.
Sos conseguiu.
E é especialmente interessante que “Placebo” inaugure sua chegada à 1Kilo, uma relação construída ao longo de anos e que agora ganha um novo capítulo profissional. Em vez de utilizar esse momento apenas para celebrar uma conquista, ele olha para a própria ideia de conquista e pergunta quanto dela é realmente capaz de preencher alguém.
No fim, talvez “Placebo” fale sobre indústria, mas a pergunta ultrapassa a música.
Quantas coisas perseguimos simplesmente porque aprendemos que elas significam sucesso?
Sos não entrega uma resposta pronta.
Ainda bem.
Ele entrega uma faixa para a gente escutar, voltar, pensar e questionar.
E esse é exatamente o tipo de rap que queremos encontrar mais vezes por aqui.




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