GALLOV foi praticamente amor à primeira escuta para nós da Divergent Beats. E podemos falar isso de boca cheia porque, quanto mais entramos no universo desse artista, mais encontramos motivos para continuar ali. Tem alguma coisa muito foda na maneira como ele cria, escreve, produz e coloca música no mundo: parece existir sempre uma liberdade enorme por trás de tudo, como se GALLOV entendesse perfeitamente o que está fazendo, mas nunca deixasse esse conhecimento tirar a espontaneidade da música. Já falamos dele quando chegaram “Frio no Brasil” e “Futbet”, depois veio “Bolo de Sonho”, último single antes do álbum, e agora To Nem Aí completa esse caminho com oito faixas que conseguiram uma coisa que parecia difícil: fazer a gente gostar ainda mais dele.

Porque To Nem Aí é incrível.

E é incrível justamente porque não parece desesperado para ser.

Existe um mundo quase divertido atravessando essas oito faixas, uma leveza meio debochada, uma vontade de brincar com sons, palavras e situações, mas por baixo disso existe alguma coisa absurdamente verdadeira e honesta. Você ri, balança a cabeça, entra no groove e acompanha as maluquices desse universo, mas percebe que GALLOV está falando de medo, ansiedade, excesso de informação, controle, inspiração, desejo e daquela dificuldade tão humana de aceitar que nem tudo depende da gente.

Até o título brinca com isso. To Nem Aí poderia ser interpretado como indiferença, mas o disco parece transformar a expressão em outra coisa: liberdade. Um “tô nem aí” para a necessidade de controlar cada resultado, para a obrigação de levar tudo com solenidade e até para a ideia de que criar significa saber exatamente onde vamos chegar.

O álbum nasceu em cerca de um mês e meio, durante um período em que GALLOV não conseguia fazer muita coisa além de pegar o violão. Em vez de lutar contra aquele momento, ele convidou a inspiração para ficar.

E ela aparentemente resolveu morar ali.

“Frio no Brasil” já dava pistas dessa explosão criativa com a imagem maravilhosa de um santo fazendo milagre dentro de casa. “Bolo de Sonho”, por sua vez, transforma movimento em resposta ao medo, enquanto “Futbet” mistura rock, surf, reggae e jazz para olhar para esse Brasil de 2026 soterrado por informação, distração e pelo eterno pão e circo.

Agora, dentro do álbum completo, essas músicas encontram seu lugar.

“Apanhador de Sonhos” chega como uma pequena tentativa de aquecer o coração; “Bruxa Solta” encara justamente aquilo que não conseguimos controlar; “Susto, Ufa” trata a inspiração quase como uma aparição que assusta antes de provocar alívio; “O Som de um Reggae” encontra valor no caminho em vez de ficar obcecado pelo destino; e “Docimel” fecha esse universo entre doçura, ironia e interrogação.

E tudo isso passa por rock alternativo, surf music, reggae e canção brasileira com uma naturalidade deliciosa.

GALLOV — Marco Antonio Gallo de Carvalho — nasceu em Marília e hoje vive em São Paulo. Cantor, compositor e guitarrista, carrega cerca de duas décadas de relação com o instrumento, formação pelo CMT e experiência também como professor. Passou pelas bandas The Blank Tapes, Leza e Nectarina antes de construir uma trajetória solo que já inclui Desfrute, de 2019, Prazer Imediato, de 2021, Cosmopop!, de 2025, e agora To Nem Aí.

Existe ainda um elemento deste disco que seria impossível ignorar: a inteligência artificial participou do processo criativo.

Mas é importante explicar o que isso significa neste caso. Segundo GALLOV, o ponto de partida foram melodias, harmonias, letras e ritmos criados por ele e registrados em voz e violão no celular. A IA entrou posteriormente como ferramenta para gerar possibilidades, das quais o artista selecionou aquilo que conversava com sua intenção antes de gravar a própria voz. A composição e a produção são creditadas a GALLOV, enquanto Tiago Pierucci assina captação vocal, mixagem e masterização.

É uma escolha que inevitavelmente abre discussões — e talvez seja justamente esse o ponto. GALLOV não tenta esconder a ferramenta nem transformar sua utilização em segredo. Ele coloca a questão no meio da mesa, ao lado da autoria humana, da interpretação, da seleção e do acaso, e deixa que o próprio ouvinte também pense sobre onde essas fronteiras começam e terminam.

Aliás, a mesa existe quase literalmente na identidade visual de To Nem Aí.

Dinheiro, futebol, bolo, rádio, café, apanhador de sonhos e o vento de um ventilador aparecem reunidos numa cena doméstica e tropical que parece resumir o álbum inteiro. Tem Brasil ali. Tem distração. Tem desejo. Tem cotidiano. Tem aquela sensação maravilhosa de que alguma coisa importante pode nascer justamente enquanto aparentemente nada extraordinário está acontecendo.

Talvez seja isso que mais gostamos em GALLOV.

Ele consegue ser divertido sem ser vazio, estranho sem parecer forçado e leve sem deixar de dizer alguma coisa. Existe humor, mas também existe inquietação. Existe praia, mas existe ansiedade. Existe um “tô nem aí”, mas ele vem justamente de alguém que parece estar prestando bastante atenção ao mundo.

No fim das oito faixas, saímos com a mesma sensação que tivemos quando conhecemos GALLOV — só que maior.

A gente já gostava muito desse artista.

Agora complicou.

Porque To Nem Aí fez a gente gostar ainda mais.

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