Realmente foi muito difícil conseguir descrever aquilo que sentimos escutando Turvo, da guandu. E foi difícil por um motivo quase ridículo: “obra-prima” não parece suficiente. “Incrível” também não. Existem discos que a gente escuta, ama, recomenda e coloca entre os favoritos do ano, mas existem outros em que, ainda durante o primeiro play, alguma coisa faz você pensar que está diante de um trabalho destinado a permanecer. Turvo pertence a essa segunda categoria.
São 15 faixas, 38 minutos e 43 segundos de música em um nível tão absurdo que, por alguns momentos, parece que estamos sentados no mesmo quarto em que a banda está tocando, acompanhando cada guitarra, cada respiração, cada ruído e cada acidente que resolveu virar música.
E essa sensação de proximidade não acontece por acaso.
A guandu é formada em São Paulo por Caique Lima na bateria, cleozinhu na voz e guitarra e João Corte também na voz e guitarra, e desde suas primeiras criações decidiu fazer da gravação caseira uma parte inseparável de sua identidade. Depois de planos em cima de planos, de 2024, e do experimental NO-FI, lançado em 2025, a banda chega ao segundo álbum aprofundando essa estética lo-fi sem simplesmente repetir aquilo que já havia feito.
Turvo foi gravado em fita cassete através de uma Tascam 4-track. Quatro canais. Limitações reais. Chiados. Saturações. Alterações de pitch. Reverse. Recortes. Acidentes.
E a guandu abraça absolutamente tudo isso.
A própria Tascam acabou se tornando quase uma quarta integrante. Em vez de enxergar as limitações do equipamento como problemas que deveriam ser corrigidos, a banda as transforma em possibilidades criativas. Muitas ideias surgem justamente do acaso, da matéria física da fita e daquilo que não pode ser completamente controlado. Posteriormente, as faixas passam pelo universo digital para pós-produção, mas o coração analógico continua ali, pulsando e deixando pequenas imperfeições que aproximam ainda mais quem toca de quem escuta.
Talvez seja por isso que tenhamos sentido tanto essa impressão de estar dentro do quarto com eles.
Existe intimidade em Turvo. O som não chega esterilizado ou excessivamente polido. Ele respira. Tem textura. Tem sujeira. Parece possuir temperatura própria.
A banda chama sua linguagem de slowcore brasileiro, não como tentativa de reproduzir uma fórmula específica, mas como maneira de explicar seu próprio processo: andamentos lentos, duas guitarras limpas conversando entre si, ausência de baixo como regra, vozes sussurradas, introspecção e letras atravessadas por uma realidade brasileira. Referências como Fellini, Duster e Daniel Johnston aparecem ao redor desse universo, assim como a produção ligada à Transfusão Noise Records. Em 2025, a guandu chegou inclusive a abrir em São Paulo para o Codeine, um dos nomes fundamentais da história do slowcore.
Só que Turvo é interessante justamente porque não fica obedecendo ao slowcore.
Existem drum machines, pequenas vinhetas, poesia minimalista, rimas, batidas que chegam perto do hip-hop, psicodelia, fuzz, tremolo e elementos tocados ao contrário. A banda parece pegar coisas que, inicialmente, poderiam não conversar entre si e colocá-las dentro da mesma fita até que encontrem uma linguagem comum.
E encontrar uma única faixa favorita em meio a tudo isso não foi fácil.
Mas “cowboy” ganhou a gente.
Existe naquele lado mais romântico do álbum alguma coisa extremamente bonita, acolhedora e humana, sem abandonar a estranheza que torna a guandu tão interessante. “cowboy”, ao lado de “Véspera”, já havia apresentado uma das facetas do disco antes de seu lançamento, mas dentro das 15 faixas ela ganha outra dimensão, porque passa a existir como parte desse organismo muito maior.
E então temos “fantasmas”.
O que está acontecendo aqui?
Foi realmente essa nossa reação. A faixa, com baixo e voz de omar, começa em uma lentidão quase exagerada, conduzindo a gente para um estado de aparente tranquilidade até começar a deformar esse espaço. A tensão cresce, aparece uma espécie de euforia e depois tudo desembarca novamente em uma calma estranhíssima. Modulações, fuzz, tremolo, alterações de pitch e manipulações características da fita fazem a música parecer viva, instável, imprevisível.
Marina Mole também retorna depois de participar de NO-FI, agora em “menos um dia”, espécie de doppelgänger mais denso e sombrio de “mais um dia”. Aluno Predileto, projeto de Guilherme Paz, da banda carioca gueersh, acrescenta ainda violinos em drone e camadas psicodélicas à segunda faixa, ampliando essa sensação de que nunca sabemos exatamente o que vai surgir depois.
Nós já havíamos falado da guandu em um dos nossos destaques na Divergent Beats. Já existia curiosidade, já existia interesse.
Mas Turvo fez outra coisa.
Abriu nossos olhos para uma banda que faz música, que entende música e que, em determinados momentos, parece ser a própria música.

Porque existe uma diferença entre utilizar uma estética lo-fi e compreender o que ela pode significar artisticamente. A guandu escolhe o caminho demorado, limitado e incerto quando poderia simplesmente procurar o mais fácil. Deixa o erro entrar. Permite que o acaso interfira. Faz da limitação uma linguagem.
E talvez seja justamente isso que faça Turvo parecer tão vivo.
Quando seus 38 minutos e 43 segundos terminam, não sentimos que acabamos simplesmente de ouvir 15 músicas.
Parece que estivemos lá enquanto elas aconteciam.




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