Tem EPs em que cinco faixas são suficientes para fazer a gente entrar em um mundo inteiro. Não precisa de uma hora de música, de uma produção gigantesca ou de dezenas de canções para construir uma história capaz de permanecer dentro da gente. Às vezes, bastam alguns minutos, algumas palavras colocadas no lugar certo e aquela sensação difícil de explicar de que alguém escreveu exatamente sobre coisas que nós também sentimos.
Foi isso que aconteceu escutando essa pequena obra-prima de Buub, meio-dia e pouco. Cinco faixas que fazem a gente sonhar, que abraçam de um jeito bonito e delicado, mas que, de repente, também dão aquele tapa na cara através de letras que se conectam profundamente com a vida, com o cotidiano e com esse negócio tão complicado que é simplesmente existir.
Buub é o alter ego de Bruno Ferreira Balieiro, músico que já circula pela cena alternativa através de projetos como Viúva Fantasma, Mangrove Dogs e Sutiã Rasgado. Só que existe algo diferente quando ele chega ao trabalho solo. O rock alternativo, o indie e o emo que fazem parte de sua trajetória continuam, de alguma maneira, dentro dele, mas aqui tudo parece diminuir de tamanho para aumentar de profundidade.
Existe espaço.
Existe silêncio.
Existe intimidade.
meio-dia e pouco reúne cinco faixas — “sombra”, “mutações”, “ontem”, “desaquecimento” e “filme” — dentro de uma produção lo-fi, minimalista e atmosférica em que guitarras, sintetizadores e elementos mais orgânicos parecem entender exatamente quando precisam aparecer e, principalmente, quando precisam deixar a música respirar.
E é muito gostoso entrar nesse universo.
Talvez porque as músicas tenham nascido justamente daqueles momentos em que aparentemente nada extraordinário está acontecendo. São pensamentos surgidos durante o horário do almoço, entre uma tarefa e outra no trabalho, dentro do ônibus ou simplesmente dentro da própria cabeça. Pequenas coisas que passam pelas frestas do cotidiano, ficam guardadas durante o expediente e resolvem reaparecer quando finalmente existe silêncio suficiente para escutá-las.
Até o título meio-dia e pouco parece perfeito.
Não é meia-noite. Não é amanhecer. Não é aquele horário cinematográfico em que esperamos que alguma coisa gigantesca aconteça. É meio-dia e pouco. Um horário comum. A vida acontecendo enquanto você está ocupado vivendo.
E Buub parece encontrar justamente aí a matéria de que precisa.
Essa sensação fica ainda mais forte quando entendemos que o EP foi construído de maneira 100% autônoma e independente. Bruno assina composição, voz, guitarras, baixo, sintetizadores, produção, mixagem e masterização. Praticamente tudo aquilo que escutamos passou pelas mãos da mesma pessoa, fazendo com que a intimidade não esteja apenas nas letras, mas na própria maneira como o trabalho foi criado. A capa é de Ju Carniça e as fotografias de divulgação são de Daniel Lasso.
É quase como entrar por alguns minutos na cabeça de alguém.
E então chega “ontem”.
Foi a faixa que deixou uma marca especialmente forte na gente, principalmente quando ouvimos “Todo esse medo me perdeu aqui”.
Que imagem linda.
Normalmente pensamos que somos nós que nos perdemos dentro do medo. Que ele nos captura, nos confunde, nos impede de encontrar uma saída. Buub vira essa lógica e faz o próprio medo se perder. Na sequência da composição, existe ainda essa imagem das coisas sendo retiradas e da porta sendo trancada, como se aquilo que um dia ocupou tanto espaço estivesse finalmente do lado de fora.
É uma metáfora simples e enorme ao mesmo tempo.
E talvez seja exatamente essa capacidade que faz meio-dia e pouco funcionar tão bem. As letras não precisam transformar o cotidiano em algo artificialmente grandioso para mostrar o quanto ele pesa. Elas encontram poesia naquilo que aparentemente é banal: pensamentos, lembranças, transformações, esfriamentos, imagens que continuam passando pela nossa cabeça como cenas de um filme.
“Sombra”, “mutações”, “ontem”, “desaquecimento” e “filme” acabam funcionando como pequenos pedaços de uma mesma existência. Não necessariamente porque contam uma história linear, mas porque compartilham uma maneira de olhar para dentro.
E o lo-fi é perfeito para isso.
A produção não tenta polir cada sentimento até ele perder sua humanidade. Existe uma proximidade que combina com essa ideia de anotação feita às pressas, de pensamento registrado antes que desapareça, de alguma coisa percebida pela janela do ônibus e levada para casa sem saber exatamente por quê.
O próprio material de apresentação define o projeto como “uma pequena espiada pelo vão da janela dos dias”, e é difícil encontrar imagem melhor.
Porque meio-dia e pouco é exatamente isso.
Uma fresta.
Por ela, Buub deixa a gente observar um pouco de seus medos, mudanças, memórias e pensamentos. Mas, enquanto olhamos para a vida dele, inevitavelmente começamos a enxergar pedaços da nossa.
Talvez seja por isso que essas cinco faixas consigam abraçar e dar um tapa na cara praticamente ao mesmo tempo.
Buub fez um EP pequeno em duração, mas gigantesco na quantidade de coisas que consegue fazer a gente sentir.
E quando termina, fica aquela vontade de permanecer mais alguns minutos ali.
No ônibus.
No horário do almoço.
Na própria cabeça.
Talvez simplesmente olhando pela janela e percebendo que já é meio-dia e pouco.




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