No momento em que você coloca o play em uma música da Manifeste e escuta a voz incrível de Façanha entrando pelos fones, fica realmente difícil imaginar alguém simplesmente dizendo: “não gosto dessa banda”. Existe alguma coisa ali que pega imediatamente. A gente já falou algumas vezes sobre eles aqui na Divergent Beats, já acompanhamos diferentes momentos dessa caminhada, mas é neste novo EP que sentimos a Manifeste mostrando de maneira ainda mais completa sua grandeza artística, suas emoções, suas letras e, principalmente, uma identidade que hoje está forte demais para ser confundida com qualquer outra coisa.

E tudo começa com “Um Pra Você, Um Pra Mim”.

Existe algo muito bonito em abrir um trabalho colocando vulnerabilidade praticamente na porta de entrada. Em determinado momento, Façanha canta: “Acreditei que era melhor assim”, antes de admitir ter dissimulado diante do próprio erro. Parece simples, mas não é. Quantas vezes fazemos exatamente isso? Erramos, percebemos o erro e, em vez de encará-lo imediatamente, tentamos escondê-lo até de nós mesmos. Criamos justificativas, reorganizamos a memória, fingimos que determinada escolha fazia sentido porque admitir nossa própria responsabilidade pode doer muito mais.

A Manifeste entende essas pequenas guerras internas.

Talvez porque essa seja, desde o começo, a razão de existir da banda.

Formada inicialmente em 2017, ainda durante os tempos de colégio, a Manifeste começou a profissionalizar sua caminhada em 2020 com o EP Boa Noite. O próprio nome funciona quase como uma declaração artística: manifestar sentimentos, ideias e inquietações que permaneceriam guardados se a música não lhes desse uma saída.

Ao longo desses anos, a banda construiu seu universo justamente em torno dessa capacidade de transformar vulnerabilidade em arte. Conflitos internos, relações, dores, amadurecimento, esperança e superação aparecem não como conceitos distantes, mas como sentimentos reconhecíveis. É aquele rock que consegue fazer você pensar: “caralho, eu já senti exatamente isso, só nunca consegui colocar em palavras”.

E esse novo EP potencializa justamente essa sensação.

Existe peso, mas existe emoção. As guitarras conseguem ser densas enquanto as melodias abrem espaços enormes para a voz. Em alguns momentos a banda explode; em outros, deixa a emoção respirar. É uma montanha-russa emocional construída por músicos que parecem entender que força não significa necessariamente tocar mais alto — às vezes significa ter coragem para mostrar aquilo que machuca.

As referências ajudam a localizar parte desse universo. Bring Me The Horizon, Paramore, Panic! At The Disco, The Strokes e Movements aparecem ao lado de nomes brasileiros como Fresno, Supercombo e Menores Atos. Mas existe uma diferença importante entre possuir referências e depender delas. Depois de tantos anos construindo esse caminho, a Manifeste já consegue carregar essas influências sem desaparecer dentro delas.

Ela soa como Manifeste.

E isso é enorme.

A fase recente já vinha deixando essa identidade cada vez mais evidente. “Feridas” e “Sem Perceber”, lançadas em 2025, abriram espaço para “Passado Imperfeito” e “GPS”, em 2026, dentro de uma trajetória que anteriormente já havia levado “Não Sei Se Eu Tô Legal” à playlist editorial Pátria Rock. A banda conquistaria depois uma segunda entrada na mesma playlist.

Mas números e playlists contam apenas uma parte da história.

A Manifeste é também uma banda construída para o palco.

Passagens por espaços como Kiss Club, House of Legends, Jai Club, Casa Lab, Augusta 339 e Nimbus ajudaram a consolidar uma experiência ao vivo baseada justamente naquilo que sentimos nas músicas: entrega total e conexão real. O público não parece existir apenas para assistir. Canta, participa e atravessa junto com a banda as explosões e os momentos de intimidade.

A trajetória ainda inclui a chegada à final do Gran Prix Amplifica, execução na Kiss FM e rádios parceiras, presença em matéria da Rolling Stone Brasil durante a fase do primeiro EP e diferentes experiências audiovisuais.

Só que existe uma frase no material da banda que talvez explique melhor tudo isso: crescer sem atalhos e continuar sem perder a essência.

É exatamente a sensação que este novo trabalho deixa.

Porque depois de quase uma década desde sua formação inicial, não estamos escutando uma banda tentando descobrir desesperadamente quem quer ser. Estamos ouvindo músicos que passaram anos construindo uma linguagem e agora parecem cada vez mais confortáveis dentro dela.

E Façanha é fundamental nisso.

Sua voz consegue carregar peso e fragilidade dentro da mesma música. Quando encontra letras tão emocionalmente diretas quanto as deste trabalho, alguma coisa acontece: não parece que ele está apenas interpretando sentimentos; parece que está atravessando cada um deles enquanto canta.

Foi isso que nos pegou em “Um Pra Você, Um Pra Mim” e continuou atravessando o EP.

Porque erramos.

Dissimulamos.

Tentamos convencer a nós mesmos de que determinadas decisões foram as melhores possíveis.

Amamos, perdemos, amadurecemos e seguimos carregando algumas feridas.

A Manifeste simplesmente encontrou uma maneira de colocar tudo isso dentro de guitarras.

E talvez seja justamente por isso que este EP seja tão bonito do começo ao fim: ele não tenta esconder as contradições humanas para parecer forte. Ele encontra força justamente nelas.

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