Existem artistas que fazem música e existem artistas que parecem construir lugares inteiros dentro dela. Oneance pertence ao segundo grupo. A gente já passou pelo universo dele outras vezes aqui na Divergent Beats, mas quanto mais escutamos seu trabalho, mais percebemos que existe alguma coisa que permanece escondida entre as camadas de distorção, silêncio, peso, poesia e contemplação — como se cada música revelasse uma parte e, ao mesmo tempo, guardasse outra somente para quem a criou.

Foi justamente essa curiosidade que nos levou a querer conversar diretamente com Oneance. Não para descobrir uma fórmula por trás das músicas, porque talvez ela nem exista, mas para entender como sentimentos viram sons, como poemas encontram instrumentais e como elementos aparentemente opostos conseguem dividir o mesmo espaço sem perder sua força. E as respostas revelaram um artista para quem criar também significa procurar harmonia dentro das contradições.

Entre Deftones, Slowdive, Neurosis, Alcest, Sylvia Plath, Baudelaire, Florbela Espanca e tantas outras referências musicais e literárias, existe um universo construído a partir de sensações profundamente pessoais, mas propositalmente aberto para que cada pessoa encontre nele uma interpretação diferente. Oneance escreve como forma de terapia, transforma poesia em música e prefere, como ele mesmo define de maneira belíssima, “dançar em escalas de cinza em vez de abraçar o preto e branco.”

Nesta conversa com a Divergent Beats, entramos justamente nessas escalas de cinza para entender um pouco melhor tudo aquilo que existe por trás — e por dentro — das músicas de Oneance.

As músicas do Oneance parecem nascer de muitos lugares ao mesmo tempo. Há peso, silêncio, distorção, momentos quase contemplativos e letras que acabam costurando tudo como se cada elemento pertencesse à mesma paisagem. Quando uma faixa começa a existir para você, o que costuma nascer primeiro: uma palavra, uma sensação, uma imagem ou um som? E em que momento você percebe que todas essas partes encontraram uma mesma história?

Tenho um panorama bem amplo de influências, entre as quais se sobressaem a música e a poesia. Acredito que, durante o processo de composição, a primeira coisa a surgir é a intenção de gerar uma determinada sensação com a música. As palavras e os sons surgem a partir do que estou sentindo e do que desejo transmitir. Tento alinhar todos esses elementos com um direcionamento em mente, de forma que a música e a letra trabalhem em harmonia. 

Existe algo muito visual na maneira como você faz música. Mesmo sem uma imagem diante dos olhos, algumas faixas parecem criar lugares, temperaturas, movimentos e até uma espécie de geografia própria. Quando você está compondo, você enxerga aquilo que está criando? Existem paisagens, memórias ou cenas dentro da sua cabeça que acabam determinando a maneira como uma música vai soar?

Muitas das letras são descritivas e contemplativas, o que me leva a visualizar determinado ambiente ou sentimento no processo da composição. Sendo assim, posso dizer que consigo enxergar 

Uma das coisas mais fascinantes no Oneance é que elementos que, teoricamente, poderiam se repelir acabam convivendo: o agressivo e o delicado, o ruído e a contemplação, o quase brutal e o profundamente poético. Essa convivência entre extremos é uma escolha consciente durante a composição ou é simplesmente a maneira mais natural que você encontrou para traduzir aquilo que sente?

É uma escolha consciente, mas não deixa de nascer naturalmente durante o processo de composição. Acredito que tentar conciliar esses extremos na música é o que mais me motiva a continuar produzindo. Procuro transformar o que pode parecer uma estrutura maniqueísta em harmonia, optando por dançar em escalas de cinza em vez de abraçar o preto e branco.

Suas letras não parecem estar colocadas sobre a música; elas parecem existir dentro dela. Há momentos em que uma palavra ganha outro significado justamente por causa do que está acontecendo instrumentalmente ao redor dela. Como você constrói essa relação? Você já chegou a mudar completamente um arranjo porque percebeu que uma frase precisava respirar, machucar ou chegar ao ouvinte de outra maneira?

Quando estou compondo, costumo criar um esqueleto que divide as sessões da música e tento seguir a estrutura preestabelecida. Ter um rascunho do que almejo gerar ajuda a manter o foco e a visualizar minhas ideias para um objetivo final, embora muitas vezes a música tome forma conforme avanço no processo de produção. Como gosto muito de poesia, tenho muitos poemas guardados que adapto para instrumentais já prontos. Em contrapartida, muitas vezes crio uma melodia vocal para a música e escrevo poemas seguindo a métrica que a música pede. Isso me permite canalizar a energia das letras em passagens específicas do instrumental.

Existe sempre alguma coisa que um artista coloca dentro de uma obra e que talvez ninguém consiga perceber completamente — um significado escondido, uma memória, uma ferida, uma referência ou simplesmente uma sensação que pertence somente a quem criou. Olhando para tudo o que você construiu com o Oneance até aqui, o que existe dentro dessas músicas que nós, como ouvintes, provavelmente ainda não conseguimos enxergar?

As letras são muito pessoais. Sinto que escrever é uma forma de terapia. Ainda assim, gosto de transmitir certa ambiguidade nas letras, de modo que cada pessoa possa interpretá-las à sua maneira. Prefiro algo mais abstrato e sensorial. Muitas vezes, coloco nas músicas referências às minhas influências musicais e literárias, algumas das quais podem passar despercebidas. Entre as influências musicais, posso citar Deftones, Isis, Neurosis, Alcest, Deafheaven, Agalloch, Slowdive, Tool, Sepultura, Acid Bath, entre outros. Entre as literárias, posso citar Charles Baudelaire, Irmãs Brontë, Lord Byron, Florbela Espanca, Sylvia Plath, Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, Fagundes Varela, Cruz e Sousa, entre outros. A poesia é algo que me ajuda muito na hora de compor. Também gosto muito de produções audiovisuais, como filmes, séries e animes.

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