No momento em que tocamos o play de Pessoa Física, levamos talvez três segundos para entender que estávamos entrando em um mundo musical incrível. Não foi preciso esperar o refrão, chegar à segunda faixa ou tentar compreender racionalmente o que Bebici estava propondo: alguma coisa já estava acontecendo. Mas o que deu ainda mais arrepio — daquele jeito absurdamente positivo — foi a voz de Gabriel. Existe uma presença nela que parece chegar perto, ocupar o espaço e conduzir a gente para dentro desse universo onde MPB, groove, jazz, samba e tantas outras memórias da música brasileira se encontram sem nunca parecer uma colagem de referências. Tudo tem identidade. Tudo parece pertencer ao mesmo lugar.

E talvez seja justamente por isso que Pessoa Física seja um título tão perfeito.

Gabriel do Espírito Santo Bebici pega uma das expressões mais frias e burocráticas possíveis e faz exatamente o contrário dela. “Pessoa física” serve para cadastrar alguém, mas não consegue explicar absolutamente nada sobre quem essa pessoa é. Não conta seus sonhos, seus desejos, suas perdas, aquilo que provoca tédio, aquilo que deixa saudade ou as coisas estranhas que passam pela cabeça quando ninguém está olhando. Em seu primeiro álbum, Bebici parece querer preencher justamente esse espaço entre aquilo que cabe num cadastro e tudo aquilo que faz uma pessoa existir.

Até visualmente o conceito ganha corpo. As capas do álbum e dos três singles que o antecederam foram produzidas através de monotipias: Bebici cobriu o próprio rosto de tinta e o imprimiu sobre o papel. É uma imagem quase perfeita para entender o disco. Onde deveria existir somente um dado, aparece um rosto. Onde deveria existir cadastro, aparece humanidade.

São 11 faixas e, quanto mais avançamos, mais percebemos o cuidado absurdo que existe em construir esse autorretrato. Pessoa Física carrega muito da identidade de Gabriel, mas carrega também uma identidade brasileira que nos pegou profundamente. Existem momentos que dialogam lindamente com a MPB e com aquilo que podemos reconhecer nessa nova geração da música brasileira, mas Bebici não simplesmente reproduz uma tradição. Ele mexe nela, coloca groove, jazz, experimentação, humor, estranheza e cotidiano até encontrar alguma coisa que soe genuinamente sua.

“Coisas Estranhas” é uma introdução perfeita para isso. A faixa que abre o álbum foi composta e gravada em apenas 45 minutos, dentro do quarto do artista, com microfone dinâmico e instrumentos em linha. Existe nela essa confusão quase febril entre realidade e sonho e, curiosamente, foi a composição mais recente do repertório que acabou recebendo a responsabilidade de abrir toda a história.

Depois encontramos “Saudade”, construída em um compasso 7/4 e nascida de uma sessão experimental no home studio de Bebici, em Jardim da Penha. A música parte de uma experiência profundamente pessoal, a perda do pai do artista, mas escolhe um caminho muito bonito: não transformar saudade apenas em sofrimento, mas reconhecer a beleza que existe em sentir falta de alguém que foi importante para nós. Aceitar que algo não retorna não significa apagar aquilo que existiu.

Essa humanidade atravessa “Sofá Cama”, “Tocando No Escuro”, “Chove Nem Molha”, “Oceano Da Preguiça”, “Gato Do Mato”, “Morrendo (De Amor)”, “Pagodinho Pesadelo” e “Samba Pra Eles”. Até os títulos parecem conversar com essa ideia de registrar uma existência brasileira sem tentar deixá-la excessivamente bonita ou organizada. Há preguiça, sonho, amor, estranheza, saudade e pequenos pedaços de cotidiano. Existe uma pessoa ali.

Mas foi “Sonho” que mexeu de maneira especial com o nosso emocional.

A faixa, composta por Bebici e Artur Guerra, abre com uma imagem que ficou conosco: “Hoje eu sonhei que o erro não foi cometido”. Pouco depois, a ideia de alguém ser rei enquanto o destino se torna amigo transforma algo aparentemente simples em uma imagem enorme. É uma daquelas construções que fazem a gente parar porque existe alguma coisa dolorosamente bonita na possibilidade de imaginar uma realidade em que aquilo que deu errado não aconteceu, em que o destino, pelo menos durante um sonho, finalmente joga ao nosso lado.

E musicalmente tudo isso é sustentado por alguém que conhece profundamente o próprio ofício. Bebici não é apenas a voz do projeto: é produtor musical, multi-instrumentista, compositor e engenheiro de áudio. Assina produção, edição, mixagem e masterização do álbum e aparece em vozes, violões, baixos, teclados, percussões, programações e diferentes texturas, enquanto VT, Tosi, Iago Tartaglia, Oziel Neto e Mateus Tavares ajudam a expandir esse universo.

Natural do Paraná e vivendo em Vitória desde 2018, Bebici trabalha também como designer de som da rádio pública ES FM e produtor musical na DIVco. Sua relação com música começou ainda na infância, passando por casamentos, eventos, teatros e apresentações com a própria família. Talvez isso ajude a explicar por que Pessoa Física soa tão orgânico: não parece um artista tentando construir uma identidade para seu primeiro álbum; parece alguém finalmente colocando em disco uma identidade que já vinha sendo construída há muito tempo.

E essa história ganhou corpo cinco dias depois do lançamento, quando o álbum foi apresentado integralmente, com banda completa, na Casa Caipora, em Vitória, em uma noite que também contou com o ANM (Açúcar No Malbec).

No final das 11 faixas, aquela expressão burocrática já não parece burocrática.

Porque Pessoa Física começa quase como um cadastro e termina como aquilo que nenhum CPF conseguiria guardar: um ser humano cheio de memória, sonho, saudade, contradição, música e Brasil.

E que álbum incrível para começar uma história.

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