A gente já falou algumas vezes sobre a Playmoboys aqui na Divergent Beats e existe um motivo para isso. Poucas bandas conseguem atravessar tantos anos sem perder aquilo que faz a música continuar significando alguma coisa, e existe uma grandeza muito particular na maneira como a Playmoboys transforma suas experiências em um rock alternativo gostoso, emocional e cheio de identidade. Mas colocar o fone e entrar em O Melhor Que Eu Pude Fazer trouxe uma sensação diferente. Desde a primeira faixa, parecia que estávamos ouvindo uma banda olhando para tudo aquilo que viveu, para quem foi e para quem se tornou. Quase como uma despedida.

Só que não é.

E agora entendemos ainda melhor por quê.

O Melhor Que Eu Pude Fazer encerra um capítulo de mais de vinte anos da Playmoboys, mas não representa o fim da banda. É o último grande registro daquela linguagem construída através de guitarras altas, refrões intensos e vocais rasgados antes de novos caminhos, novas sonoridades e novas maneiras de cantar começarem a aparecer.

Existe uma razão profundamente humana por trás dessa transformação. Conrado Muylaert passou por um longo período tratando uma lesão nas cordas vocais e, durante a construção do álbum, precisou praticamente reconstruir sua relação com a própria voz: reaprender a cantar, adaptar tons, reorganizar arranjos e, talvez o mais difícil, aprender a respeitar novos limites.

De repente, o título ganha um peso gigantesco.

“O Melhor Que Eu Pude Fazer” deixa de soar como justificativa e começa a soar como aceitação.

Essa ideia já aparece lindamente na faixa-título, que abre as 14 músicas do disco. Em vez de falar diretamente sobre a recuperação vocal, Conrado olha para os erros e dores que permanecem quando revisitamos o passado. Existe um exercício de autoperdão: perceber que, em cada fase da vida, fizemos aquilo que conseguíamos fazer com a maturidade e as ferramentas que tínhamos naquele momento.

E enquanto tudo isso acontece, as guitarras continuam ali.

Aquela Playmoboys que conhecemos continua ali.

Só que diferente.

Talvez tenha sido exatamente isso que mais nos emocionou durante a escuta. O álbum consegue parecer completamente novo e, ao mesmo tempo, carregar todos esses anos dentro dele. Existe rock britânico, existe MPB, existe grunge, punk, emo e indie rock, influências que atravessaram a adolescência e a formação musical da banda e que agora reaparecem quase como fotografias sonoras de diferentes épocas.

“Sonhos de Infância”, por exemplo, olha para aquela necessidade de preservar o brilho nos olhos mesmo depois que a vida adulta chega. “Ouvindo Punk” volta ainda mais longe, aos corredores da escola, às rodas de violão e aos tempos em que Nirvana, Green Day e tantas outras bandas ajudavam a formar uma identidade que ninguém poderia imaginar que continuaria pulsando décadas depois.

E isso ganha ainda mais força quando lembramos que a Playmoboys nasceu justamente da amizade entre dois colegas de escola que queriam gravar suas próprias músicas.

O primeiro álbum chegou em 2005. Depois vieram músicas em novelas e séries, presença em canais como MTV, Multishow e Canal Bis, reconhecimento no Garagem do Faustão, turnês pelo Brasil e pela Europa e até palco dividido com os ingleses The Libertines. Hoje são cerca de três milhões de streams e uma discografia que atravessa dez álbuns.

Mas O Melhor Que Eu Pude Fazer não parece interessado em transformar tudo isso em currículo.

Ele está interessado nas memórias que ficaram.

“Circo dos Horrores” observa a superficialidade das relações em tempos dominados por aparência e validação. “Um Bar, Um Shot, Um Começo”, registrada antes do problema vocal de Conrado, encontra valor nos rolês entre amigos, nas aventuras e naqueles encontros aparentemente comuns que, anos depois, percebemos terem se transformado em lembranças permanentes.

E existe ainda “Pra Te Fazer Feliz”, composição que nasceu por volta de 2010 e permaneceu inédita durante anos. Foi um fã quem redescob a música e acabou motivando a banda a finalmente registrá-la. Uma canção do passado precisou ser encontrada novamente para ocupar seu lugar no presente. É difícil imaginar história mais perfeita para existir dentro deste álbum.

Todas as composições são de Conrado e atravessam amadurecimento, amizade, perdas, esperança e transformação. E talvez por isso seja tão difícil escolher apenas uma faixa.

Mas a nossa continua sendo “Um Fim ou Tanto Faz”.

Existe algo nela que concentra aquela sensação que acompanhou a gente desde o primeiro play: estamos diante de um fim que, de alguma maneira, continua apontando para frente. Porque terminar um capítulo não significa necessariamente terminar uma história.

Conrado resume essa relação de uma maneira belíssima: “Me confundo com a Playmoboys… é meu sonho de infância.”

Talvez seja exatamente isso que estamos ouvindo.

Um sonho de infância que cresceu. Que passou por escolas, palcos, discos, viagens, amizades, erros, conquistas e limites que ninguém esperava encontrar. Um sonho que precisou reaprender até mesmo a usar a própria voz.

E que continua aqui.

Por isso O Melhor Que Eu Pude Fazer parece uma despedida.

Porque alguma coisa realmente está terminando.

Mas não é a Playmoboys.

É apenas uma versão dela dizendo adeus antes que a próxima encontre uma nova maneira de cantar.

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