Acontece. De um momento para o outro, chega aquela banda que consegue, em poucos segundos, lembrar a gente de por que a música provoca emoções, acorda lembranças e tem essa capacidade absurda de nos transportar para dentro de um mundo que não existia antes de apertarmos o play. Foi exatamente isso que aconteceu quando escutamos “Forking Ways”, da RU NA. Dois segundos. Talvez nem isso. Foi o suficiente para alguma coisa acender por aqui e para entendermos que não estávamos diante de uma música que simplesmente passaria pelos nossos ouvidos. Ela entrou, ficou e começou a mexer em lugares que talvez nem estivéssemos esperando visitar naquele momento.
E existe algo ainda mais bonito quando descobrimos o que está por trás dessa música.
Formada em 2022, ainda naquele estranho período de reconstrução pós-pandemia, a RU NA reúne Alessandro Travassos na voz e guitarra, Cleber Aleixo na bateria e vocais, Clayton Vilaça no baixo e Tiago Sales na guitarra e vocais. Em 2024, a banda apresentou Heliades, EP de estreia que recorria aos mitos gregos para encontrar correspondências com os infortúnios da vida cotidiana e com as diferentes maneiras pelas quais reagimos quando a existência resolve colocar alguma coisa diante de nós.
Agora, alguma coisa mudou.
“Forking Ways” inaugura o caminho para Undercurrents, próximo EP da banda, previsto para o final de 2026 pelo selo midsummer madness, e existe uma imagem por trás desse novo momento que parece traduzir perfeitamente aquilo que sentimos durante a escuta: uma fratura pode também se transformar em passagem.
Porque nem tudo aquilo que quebra precisa representar somente destruição.
Às vezes é justamente através da rachadura que encontramos por onde continuar.
Essa ideia de fim e recomeço convivendo dentro do mesmo espaço atravessa “Forking Ways” e encontra uma casa perfeita na sonoridade que a RU NA está construindo. O alt-rock e o post-rock funcionam como fundação, mas escutando a faixa nós sentimos ecos muito fortes daquela escola alternativa que fez bandas como The Smashing Pumpkins, R.E.M. e Hole transformarem guitarras, vulnerabilidade e intensidade em universos próprios. Não estamos falando de reprodução ou nostalgia vazia; são referências que surgiram naturalmente durante nossa experiência, principalmente naquela maneira de fazer a guitarra carregar sentimento enquanto a voz parece estar vivendo aquilo que canta.
E que sound magnífico existe por trás de tudo isso.
Há peso sem necessidade de esmagar a música. Existe melodia sem tirar dela a aspereza. Existem camadas que fazem “Forking Ways” parecer familiar em alguns momentos e completamente própria logo depois. É aquele tipo de rock alternativo que não precisa gritar o tempo inteiro para ser enorme, porque sabe construir tensão, deixar respirar e permitir que cada elemento encontre seu lugar.
Mas foram as palavras que fizeram a música entrar ainda mais fundo.
Em determinado momento, ouvimos “I won’t keep this to myself”, e existe uma força gigantesca nessa decisão de não guardar tudo dentro de si. A letra passa por esse movimento de finalmente deixar aquilo que está preso sair, parar de lutar contra o que precisa ser sentido e permitir que essas experiências sejam compartilhadas.
É vulnerabilidade transformada em movimento.
E quando surge a ideia de deixar algo “decide my fate”, a sensação é novamente de estarmos diante de palavras vividas. Não parecem frases construídas simplesmente porque soariam bonitas dentro de uma música. Existe desgaste ali. Existe alguma coisa que aconteceu, deixou marcas, foi carregada e agora encontrou uma maneira de sair.
Talvez por isso o conceito da ruína faça tanto sentido.
Porque “Forking Ways” não romantiza necessariamente aquilo que quebra. O que nos pegou foi perceber outra possibilidade: a rachadura continua existindo, mas podemos atravessá-la. Você pode chegar ao fim de alguma coisa sem necessariamente chegar ao fim de si mesmo.
A própria produção reforça esse novo horizonte da RU NA. A faixa foi produzida pela banda, com Drey Henrique responsável pela mixagem e o produtor grego Alexis Gotsis pela masterização. Parte da captação aconteceu no Frango no Bafo, em Belo Horizonte, espaço importante para a criação musical da cidade. Existe, portanto, uma expansão acontecendo não apenas conceitualmente, mas também na maneira como a banda está construindo seu som e estabelecendo novas parcerias.
E talvez o mais empolgante seja pensar que estamos escutando apenas a primeira porta de Undercurrents.
Se “Forking Ways” estabelece o clima que vai atravessar esse novo trabalho, estamos diante de um EP que parece disposto a olhar para aquilo que terminou sem permanecer preso ao fim. Há ruína, mas existe esperança. Há fratura, mas existe passagem. Há aquilo que machucou, mas também existe a decisão de não carregar tudo sozinho para sempre.
Foi isso que tornou nossa primeira experiência com a RU NA tão especial.
Entramos pela sonoridade, por aquelas guitarras que imediatamente fizeram nosso imaginário correr por décadas de rock alternativo. Ficamos pela voz, pela construção e por palavras que parecem ter sido vividas antes de serem cantadas. E terminamos “Forking Ways” com aquela sensação deliciosa que buscamos sempre que damos play em algo que ainda não conhecemos.
A sensação de ter encontrado alguma coisa.
Porque, às vezes, bastam mesmo dois segundos para a música lembrar a gente de por que ainda sentimos tanto através dela.




Deixe um comentário