Uma das coisas mais gostosas de escutar música é quando, de repente, aparece um artista que desde o primeiro instante soa gostoso do começo ao fim. E não estamos falando de uma coisa física, mas auditiva mesmo: aquela voz que encaixa no beat de um jeito delicioso, aquela produção que faz o corpo acompanhar sem perceber, aquele refrão que entra na cabeça e aquela sensação de que você poderia permanecer dentro daquele universo por muito mais tempo. Foi exatamente isso que aconteceu quando demos play em Divino R&B, álbum de estreia de NYL.

E o nome não poderia ser mais apropriado.

Porque são oito faixas mergulhadas no R&B, mas atravessadas por soul, rap, hip-hop e pop, construindo uma sonoridade que olha diretamente para aquela riqueza vocal e melódica dos anos 90 e 2000 sem parecer presa ao passado. Em vários momentos, nossa memória correu para artistas como Ciara e Ashanti, principalmente por essa capacidade de transformar sensualidade, vulnerabilidade e groove em uma mesma experiência. Só que existe algo fundamental aqui: NYL faz tudo isso partindo da própria história, do próprio território e de uma identidade profundamente brasileira.

Criado em Guarulhos, São Paulo, NYL chega ao primeiro álbum depois de mais de oito anos construindo sua trajetória nos palcos. E talvez parte da beleza de Divino R&B esteja justamente em perceber que este não soa como o começo de alguém que acabou de descobrir quem é artisticamente. É um debut, sim, mas existe estrada dentro dele.

A relação de NYL com a música começou ainda na infância, ouvindo a coleção de discos da mãe e gravando músicas que tocavam no rádio em fitas cassete. Mais tarde, durante um período escolar difícil vivido na periferia, a música também se tornou refúgio. O palco profissional apareceu de uma maneira quase cinematográfica: uma publicação encontrada no Facebook levou NYL a trabalhar como backing vocal de Fanieh.

Vieram depois o grupo Entropy, encontros com nomes como Quelynah, d’Oliveira, Engrenagem Urbana e A’s Trinca, além de experiências como o projeto Música Alimento da Alma e apresentações ao lado de diferentes nomes da cena urbana e do hip-hop nacional.

Agora toda essa caminhada desemboca em Divino R&B.

Produzido por Kiko de Sousa e Matheus MxM, lançado pelo selo Pela Arte Music, o álbum coloca as experiências de NYL como homem gay periférico dentro de uma narrativa sobre afeto, vulnerabilidade, desejo, lealdade e frustração. E existe uma beleza enorme em perceber como o cotidiano da periferia convive naturalmente com imagens astronômicas, fases da lua e referências ao tarot. O íntimo encontra o cósmico sem abandonar a rua.

Musicalmente, referências como Mariah Carey, Mary J. Blige e Betty Wright conversam com uma história brasileira de R&B que passa por Fat Family, Quelynah, Cindy Mendes e Gloria Groove. NYL acrescenta a isso elementos de boombap, rimas, harmonias vocais, melismas e notas altas, encontrando um lugar onde R&B e rap paulistano não precisam disputar espaço — um alimenta o outro.

“Hey Vai”, carro-chefe do projeto, leva essa proposta para uma madrugada urbana construída entre saxofone, versos rimados e aquela saudade que parece crescer justamente quando a cidade começa a silenciar. “Frio” muda a temperatura e encontra no jazz e no soul uma maneira de falar sobre a dor que permanece depois do fim. Já “Me Engana”, ao lado de Deborah Crespo, abraça sem medo aquela estética deliciosa do pop e R&B dos anos 2000.

Em “Fatos Reais”, Fanieh e A’s Trinca entram em um encontro no qual o peso do boombap convive com a melodia, enquanto a música fala de lealdade e coloca mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ dentro desse espaço urbano como parte viva da cena. AKIN e Lucas Custódio completam o conjunto de participações que ajuda a fazer do álbum também um encontro entre diferentes vozes da música independente.

Mas teve uma música que simplesmente decidiu morar na nossa cabeça.

“Bate Na Minha Porta”.

Existe alguma coisa irresistível na maneira como NYL constrói essa faixa. É provocante, envolvente, segura de si e, principalmente, gostosa de escutar. Quando chega ao convite “vem, bate na minha porta”, acompanhado dessa certeza de conhecer exatamente aquilo que a outra pessoa deseja, entendemos perfeitamente o charme que atravessa Divino R&B.

Porque sensualidade também pode existir na música sem precisar ser exagerada. Às vezes ela está simplesmente na voz, no balanço, na confiança de uma frase, naquela produção que faz você sorrir porque sabe exatamente o efeito que está provocando.

E NYL sabe.

Talvez seja justamente isso que torna Divino R&B tão prazeroso: existe vulnerabilidade sem perder sensualidade, existe dor sem abandonar o groove e existe identidade sem transformar experiência pessoal em limite artístico. NYL fala a partir do lugar que conhece, mas constrói emoções que conseguem atravessar quem está do outro lado do fone.

Depois de oito anos de caminhada, seu primeiro álbum não parece apenas uma apresentação.

Parece uma afirmação.

De voz, de desejo, de território e de pertencimento.

E se existe uma palavra que continuou aparecendo na nossa cabeça enquanto essas oito faixas tocavam, é exatamente aquela do começo:

gostoso.

Divino R&B é simplesmente gostoso demais de ouvir.

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