Sabe aquelas músicas que, já nos primeiros segundos, fazem parecer que você está no meio de uma orquestra, cercado por alguma coisa enorme, grandiosa, quase cinematográfica, mas que, ao mesmo tempo, consegue te abraçar de um jeito lindo? Foi exatamente isso que aconteceu quando escutamos “Lembrança”, de Pedro Mello com participação de Jessica Assis. Existe uma grandeza que chega imediatamente, mas ela nunca afasta quem está ouvindo. Pelo contrário: Pedro e Jessica nos puxam para dentro dessa história e, quando percebemos, estamos acompanhando duas pessoas tentando entender aquilo que permaneceu depois que um amor chegou ao fim.

E talvez a parte mais bonita de “Lembrança” seja justamente essa: não existe apenas uma versão da história.

A música abre o ciclo do primeiro álbum de Pedro Mello, previsto para janeiro de 2027, e ocupa um lugar muito particular dentro da narrativa que ele está construindo. Será a única faixa do disco em que a outra pessoa envolvida nesse relacionamento ganha uma voz própria. Originalmente, Pedro havia imaginado a composição sozinho, até perceber algo muito simples e, ao mesmo tempo, extremamente humano: se aquela história tinha sido vivida por duas pessoas, talvez fosse necessário permitir que duas pessoas a contassem.

É assim que Jessica Assis entra em “Lembrança”.

Pedro a conheceu artisticamente depois de ouvi-la cantar em um evento dedicado à música independente, e a escolha funciona lindamente. O registro mais grave de Pedro encontra a delicadeza da voz de Jessica, e as diferenças entre os dois deixam de ser apenas características vocais para se tornarem parte da própria narrativa. São duas perspectivas, duas sensibilidades e duas maneiras de carregar uma memória que um dia pertenceu aos dois.

E são duas vozes que conseguem emocionar do começo ao fim.

A estrutura da música torna tudo ainda mais interessante. “Lembrança” parte da valsa, porque Pedro encontrou na dança a metáfora perfeita para falar sobre um relacionamento. Estar com alguém também é aprender os movimentos daquela pessoa, encontrar seu ritmo, avançar, recuar, tentar permanecer no mesmo compasso. Só que algumas danças, em determinado momento, deixam de funcionar. Um corpo segue para um lado enquanto o outro já está indo para outro.

O amor termina no desencontro dos passos.

Essa valsa, porém, encontra o pop-rock que marcou a formação musical de Pedro durante os anos 2000. Guitarras e sintetizadores criam uma atmosfera mais etérea, enquanto a bateria mantém a pulsação e conduz a faixa para momentos cada vez maiores. Refrão e ponte crescem, as interpretações vocais ganham força e aquela sensação quase orquestral que sentimos no começo parece se expandir ainda mais.

É grandioso sem perder a intimidade.

E então chegam as palavras.

Um dos momentos que mais ficou dentro do nosso coração é quando a composição entra nesse desejo de apagar memórias que continuam profundas, de finalmente se libertar da sombra deixada pelo outro e reconhecer que todo aquele amor entregue já não pertence mais àquela pessoa. Existe ainda a promessa íntima de que, em algum momento, aquilo que hoje continua doendo finalmente será apenas uma lembrança.

Que coisa linda.

Porque existe uma diferença enorme entre esquecer e transformar alguém em lembrança. Esquecer parece apagar; transformar em lembrança significa aceitar que aquilo existiu, que deixou marcas, que fez parte de nós, mas já não controla aquilo que somos agora.

E entender de onde a faixa nasceu torna tudo ainda mais intenso.

Pedro escreveu as músicas desse período depois do fim de uma relação importante não apenas emocionalmente, mas também artisticamente. Experiências de relacionamentos à distância, deslocamentos, dúvidas e uma retomada de sua própria trajetória começaram a entrar nas composições. “Lembrança” surge de um ponto final, mas paradoxalmente é justamente ela que inaugura algo novo.

Essa ideia conversa demais com a própria história do artista. Pedro tem na voz seu principal instrumento e sua relação com ela começou ainda criança, acompanhando os pais em ensaios de coral. Cresceu ouvindo de bossa nova e MPB a rock inglês e, posteriormente, aproximou esse universo de pop, indie, funk e jazz. O canto coral e o teatro musical também atravessaram sua formação até que, em 2020, a composição passou a ocupar um espaço ainda maior. Em 2023, veio seu primeiro trabalho autoral, Como Deveria Ser.

Jessica carrega uma trajetória que encontra a dele em vários pontos. Também passou pelo canto coral e pelo teatro musical, é cantora, compositora e formada em Literatura, e constrói sua própria identidade entre folk, indie, música alternativa e Nova MPB. Talvez por isso as duas vozes pareçam conversar tão naturalmente mesmo quando representam lados diferentes dessa história.

“Lembrança” é uma faixa incrível porque entende que um término não pertence somente ao instante em que duas pessoas dizem adeus.

Ele continua acontecendo depois.

Nas perguntas. Nas sombras. Nas coisas que tentamos apagar. Naquilo que ainda amamos mesmo sabendo que precisamos deixar ir.

Pedro Mello e Jessica Assis transformaram tudo isso em música e fizeram dessa última dança uma coisa enorme, emocionante e lindíssima.

E talvez chegar ao ponto em que alguém finalmente se torna apenas uma lembrança seja também isso:

o momento em que conseguimos parar de dançar com quem já foi embora.

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