A gente já tinha falado sobre Luno aqui na Divergent Beats, especialmente quando “Colorida Barca” abriu para nós uma porta para esse universo tão particular do artista sergipano. Agora, finalmente, podemos atravessar essa porta por inteiro com Mantracaru, seu segundo álbum solo, lançado em 30 de setembro. E precisamos começar dizendo exatamente aquilo que sentimos quando chegamos ao fim dessas oito faixas: esse álbum deixou a gente chocado. No melhor sentido possível.
Porque existem discos em que você escolhe duas ou três músicas favoritas, existem aqueles em que algumas faixas funcionam melhor do que outras e, raramente, aparecem trabalhos em que você simplesmente não encontra uma música que gostaria de pular. Mantracaru pertence a essa última categoria. Não existe uma faixa aqui que não tenha alguma coisa para oferecer, uma referência para descobrir, uma textura para sentir ou uma pequena passagem capaz de levar a gente ainda mais fundo no mundo de Luno.
E que mundo.
O próprio título já explica parte dessa viagem. Mantracaru nasce da fusão entre mantra e mandacaru: de um lado, repetição, introspecção e transformação; do outro, resistência, permanência e todo um imaginário nordestino. O disco começa com “Aos Amigos, Um Abraço”, literalmente abrindo a porta para o ouvinte, e termina na faixa-título, em uma atmosfera mântrica e espiritual. Entre esses dois pontos, Luno constrói uma travessia por felicidade, fantasia, estranhamento, crítica social, ancestralidade e aquela tentativa tão humana de permanecer sensível mesmo diante das contradições do mundo.
É justamente essa ideia de travessia que impede Mantracaru de soar como oito músicas colocadas lado a lado.
A psicodelia brasileira encontra rock progressivo, jazz, indie rock, pop sessentista, música nordestina e experimentação, enquanto piano, mellotron, sintetizadores, baixo, guitarras, bateria e percussões dividem espaço com sonoplastias e elementos sinfônicos. Há rastros de Os Mutantes, A Barca do Sol, O Terço, Sá, Rodrix & Guarabyra, Ednardo e Tetê Espíndola, mas também Beatles, Beach Boys, Syd Barrett e Radiohead. Luno olha para todas essas referências sem permitir que nenhuma delas engula sua própria identidade.

E existe Sergipe pulsando no centro disso tudo.
A gente tem um carinho enorme pelo estado — inclusive porque existe alma sergipana dentro do nosso próprio time —, mas Mantracaru faz a gente pensar ainda mais sobre o tamanho da identidade musical que pode nascer desse território. Não é regionalidade utilizada como enfeite. Existe Nordeste na imaginação, na resistência, no misticismo, nas imagens e na maneira como Luno transforma suas raízes em linguagem contemporânea.
Essa ligação se torna ainda mais concreta em “Colorida Barca” e “Seres de Pano”, cujos arranjos de James Bertisch foram executados por músicos da Orquestra Sinfônica de Sergipe. O maestro ainda gravou tímpano e gongo sinfônico no Teatro Tobias Barreto, em Aracaju. As cordas não aparecem para deixar as músicas simplesmente “maiores”; elas fazem parte da narrativa, respirando junto com aquele universo psicodélico.
E pensar que algumas dessas músicas atravessaram anos esperando para encontrar esse disco torna tudo ainda mais bonito.
“Mulher-Onça”, “O Bando do Café da Manhã”, “Seres de Pano” e “Colorida Barca” nasceram ainda na juventude de Luno. “Colorida Barca”, por exemplo, começou com apenas dois versos escritos ao lado do amigo de infância Diego Bezerra, ganhou novas partes em 2017 e só encontrou sua forma definitiva durante Mantracaru.
Talvez exista aí uma das razões pelas quais o álbum pareça carregar diferentes tempos dentro dele.
E precisamos falar de “Mulher-Onça”.
Entre oito faixas que amamos, escolher uma favorita parece quase injusto, mas ela ganhou a gente. Existe algo naquela música que concentra muito daquilo que torna Mantracaru especial: fantasia, força, mistério e essa capacidade de Luno de fazer uma composição parecer um lugar físico onde entramos e permanecemos por alguns minutos. E ela também está entre as canções concebidas ainda na juventude do artista, fazendo com que sua presença no disco atual pareça um encontro entre diferentes versões do próprio Luno.
Por trás dessa viagem está um músico que já carrega uma trajetória enorme. Baixista, violonista, vocalista e compositor, Luno Torres vem da Plástico Lunar, integra A Banda dos Corações Partidos e Madame Javali e já passou por festivais como Abril Pro Rock, Virada Cultural de São Paulo, Psicodália, Bananada, DoSol e Festival Mundo. Depois de Homo Pacificus, de 2021, seu segundo trabalho solo não abandona aquela dimensão filosófica: ele a aproxima ainda mais de suas raízes, da ancestralidade e do imaginário nordestino.
E talvez seja por isso que terminamos Mantracaru com uma sensação tão bonita.
Não queremos escolher o que retirar.
Não queremos pular nenhuma faixa.
Queremos voltar para aquela porta e atravessar tudo novamente.
Entre tantos discos que chegaram até nós em 2026, “Mantracaru” entra, sem dificuldade, entre aqueles que mais nos tocaram pela beleza de seu universo. Luno não fez simplesmente um álbum psicodélico, nordestino, progressivo ou espiritual.
Ele fez algo muito mais difícil.
Fez um disco que só poderia ser dele.




Deixe um comentário