A gente já conhece a Soprü. Já falamos aqui na Divergent Beats sobre “ArraiasCéus” e sobre essa capacidade maravilhosa que a banda tem de transformar o Tocantins em música sem fazer dele simplesmente uma paisagem ao fundo. Agora eles chegam com Cidade do Suor e conseguem ampliar tudo aquilo que já tinha chamado nossa atenção. São oito faixas que demonstram a enorme qualidade e a beleza de uma banda que sabe exatamente de onde vem, mas que continua encontrando maneiras diferentes de traduzir esse lugar em som. E, sinceramente, o resultado deixou a gente de boca aberta.

Cidade do Suor, segundo álbum de estúdio da Soprü, chega pelo selo Rockambole e representa uma nova fase para a banda de Palmas. Existe aqui uma aproximação ainda maior com o indie pop, os sintetizadores ocupam mais espaço e referências como Gorillaz e Metronomy ajudam a localizar algumas das cores desse universo. Mas guitarras, baixos, saxofone, clarinete e toda a identidade que já existia continuam presentes.

Só que tentar explicar esse disco através de referências externas seria perder justamente sua parte mais bonita.

Porque “Cidade do Suor” soa Tocantins.

A própria Soprü encontrou uma definição perfeita para aquilo que está fazendo: “Indie Pop do Pé Rachado”. E quanto mais entramos no álbum, mais entendemos o que isso significa. O calor de Palmas não é apenas mencionado nas letras; ele parece entrar na sonoridade. Existe poeira, sol, cansaço, cerrado, capim dourado, água, piranhas, arraias, o Rio Tocantins e aquela sensação de viver em um lugar que pode ser profundamente amado e, ao mesmo tempo, provocar uma vontade desesperada de escapar.

E mesmo assim, não existe uma música que não faça a gente sonhar junto com a Soprü.

Esse talvez seja o paradoxo mais bonito do álbum. Cidade do Suor fala sobre exaustão, falta de oportunidades, vontade de ir embora e a incerteza de não saber exatamente para onde fugir, mas soa também romântico, nostálgico, acolhedor. Em meio ao calor quase insuportável, existem pequenas possibilidades de alívio. Às vezes é a água. Às vezes é outra pessoa.

Às vezes é simplesmente uma música.

“Ar em Roma” representa lindamente essa construção. A Soprü aproxima duas imagens aparentemente distantes: a Roma Antiga consumida pelo fogo e o cerrado tocantinense atravessado anualmente pelas queimadas. É uma ideia gigantesca, histórica, quase cinematográfica, que de repente volta para algo íntimo, cotidiano e humano.

Quando ouvimos “deixa eu respirar, deixa eu recuperar meu ar em Roma”, a grandiosidade começa a diminuir de escala. A música entra no espaço doméstico, na falta de ar, na presença de alguém que continua ocupando os pensamentos. Roma está queimando, o cerrado está queimando, Palmas está quente e, no meio disso tudo, existe uma pessoa pensando em outra.

É gostoso. É lindo.

E é muito Soprü.

Carvalho Samuel assina as oito músicas — com Luna Esandi dividindo a composição de “Linguagem dos Homens” — e conduz a voz principal desse universo. Ao redor dele, Wellis Raik nas guitarras, Lucas de Jesus no saxofone e clarinete, Caio Paiva nos sintetizadores e guitarra e Iury Grooveman no baixo e sintetizadores constroem essa cidade sonora. Pedro Henrique Sousa participa nas baterias, enquanto Frederico Garibalde assume produção musical e mixagem, além de contribuir nas guitarras e em outros elementos do disco.

Essa riqueza instrumental ajuda a explicar por que Cidade do Suor consegue ser tão cheio sem perder sua leveza.

“Douraddo” já havia transformado o capim dourado, símbolo tão ligado ao Tocantins, em parte de uma narrativa sobre os amores vividos naquele espaço. “ArraiasCéus”, que já havia conquistado a gente anteriormente, leva a narrativa para a água, para a orla e para o lago. Cada faixa acrescenta mais alguma coisa a esse mapa afetivo de Palmas.

E então existem as pessoas.

Jady Aline participa da faixa-título, enquanto Luna Esandi entra em “Linguagem dos Homens”, levando inclusive o espanhol para dentro desse universo tocantinense. Já “Portal Pra Outra Vila” encontra uma maneira maravilhosa de fechar o disco: aquilo que durante boa parte do álbum parece ser um desejo individual de fuga termina transformado em movimento coletivo.

Amigos, artistas e parceiros da cena tocantinense aparecem juntos em um coral procurando esse outro lugar.

Talvez essa outra vila nem exista.

Talvez o importante seja não precisar procurá-la sozinho.

É aí que percebemos que Cidade do Suor nunca falou somente sobre Palmas. A cidade é extremamente específica, seus símbolos estão por toda parte, mas o sentimento ultrapassa qualquer fronteira. Quem nunca amou um lugar e quis fugir dele? Quem nunca reclamou da própria cidade enquanto sentia saudade dela antes mesmo de partir? Quem nunca encontrou em alguém uma pequena possibilidade de respirar?

A Soprü pega tudo isso e coloca dentro de oito músicas fortes, românticas, nostálgicas e lindas demais.

Depois de “ArraiasCéus”, já sabíamos que precisávamos continuar olhando para essa banda.

Depois de Cidade do Suor, sabemos ainda mais.

Porque talvez Palmas seja mesmo uma cidade do suor.

Mas nas mãos da Soprü, ela também virou uma cidade para sonhar.

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