Existem artistas que aparecem uma vez e despertam curiosidade, e existem aqueles que, a cada novo lançamento, fazem a gente querer voltar para descobrir até onde aquele universo ainda pode chegar. Aqui na Divergent Beats, já falamos algumas vezes sobre o trabalho extraordinário do Oneance e sobre essa capacidade quase inquietante que o projeto tem de transformar música pesada em algo profundamente sensorial, poético e humano. Agora, com “Liturgia”, essa sensação não apenas permanece: ela parece alcançar um novo lugar.
“Liturgia” é uma obra sonora incrível porque não se entrega inteira nos primeiros segundos. Ela começa de uma maneira e, durante seu percurso, vai se transformando, crescendo, acumulando tensão, abrindo novas camadas até chegar a lugares completamente diferentes daqueles onde nos encontrou inicialmente. É uma música que parece estar viva enquanto toca. Você não simplesmente acompanha uma estrutura musical: acompanha uma espécie de metamorfose.
E talvez isso faça ainda mais sentido quando olhamos para quem está por trás do Oneance. Criado em Brasília em 2016, o projeto é conduzido inteiramente por A., artista que prefere permanecer anônimo e que assume praticamente todo o processo criativo: composição, performance, instrumentos, gravação, edição, mixagem e masterização. Tudo é realizado dentro de casa, carregando uma filosofia genuinamente DIY que aqui não parece estratégia estética, mas extensão natural da própria obra.
Até o nome carrega esse desejo de explorar aquilo que não conseguimos compreender completamente. “Oneance” surgiu de um anagrama modificado de “oceanos”, palavra ligada à vastidão e ao desconhecido. E existe muito disso em “Liturgia”. A sensação é de entrar em águas cuja profundidade você simplesmente não conhece.
A identidade construída pelo projeto atravessa metal alternativo, post-metal e black metal, mas permite que shoegaze, folk e atmosferas próximas do post-rock invadam suas composições. Essa mistura já estava presente no álbum autointitulado lançado em abril deste ano, um trabalho de quatro faixas no qual Oneance recusava estruturas convencionais, abandonava a necessidade de refrões tradicionais e permitia que as músicas crescessem lentamente, encontrando nos crescendos, nas rupturas e nos contrastes entre peso e delicadeza sua própria linguagem.
Em “Liturgia”, essa liberdade estrutural se torna essencial para a experiência.
Existe peso, existe violência sonora, existe aquele grito que parece atravessar a produção e atingir diretamente alguma parte física de quem está ouvindo, mas há também beleza. E é justamente essa convivência entre o brutal e o delicado que torna tudo tão fascinante. Oneance não parece usar o peso apenas para soar pesado; ele usa o peso para fazer determinadas palavras doerem de uma maneira diferente.
Porque as palavras aqui são gigantescas.
Em determinado momento, ouvimos: “Entre flores de carne e sangue, seus lábios sorvem a ferida aberta / suas mãos costuram a pele coriácea usando pinças revestidas de queratina / vacilamos à beira do abismo.” É uma construção visual fortíssima. Quase conseguimos enxergar aquilo que está sendo narrado. Existe carne, sangue, pele, ferida, abismo. Elementos físicos transformados em imagens que parecem simultaneamente ritualísticas e perturbadoras.
E então “Liturgia” encontra outro momento que ficou conosco: “Livra-me agora de todo perigo / do deslance da alma e do corpo / das armadilhas dos meus inimigos / da sede voraz nos olhos do corpo.”
É difícil passar indiferente por palavras assim.
Existe algo de oração nessa passagem, mas não uma oração confortável. É uma súplica atravessada por medo, desejo de proteção, vulnerabilidade e ameaça. E quando essas palavras encontram toda a construção instrumental de Oneance, elas deixam de existir somente como versos e passam a fazer parte de uma experiência muito maior. É como se a própria música se transformasse no ritual sugerido pelo título.
Esse cuidado com a palavra também dialoga diretamente com aquilo que Oneance vem construindo desde seu primeiro álbum, no qual as letras assumem frequentemente uma estrutura próxima da poesia e alguns fragmentos chegam a ser recitados. Natureza, religião, tempo, morte e os conflitos mais profundos da existência aparecem dentro de uma música que nunca parece interessada em oferecer respostas simples.
Talvez por isso “Liturgia” seja tão bonita. Não porque seja fácil ou confortável, mas justamente porque não é.
Oneance consegue encontrar beleza onde existe ferida, poesia onde existe violência e alguma forma estranha de contemplação no instante em que estamos à beira do abismo. “Liturgia” cresce, grita, respira, machuca e se transforma diante de nós.
Quando termina, fica aquela sensação rara de que não acabamos simplesmente de ouvir uma música. Passamos por alguma coisa.
E é exatamente por isso que continuamos querendo entrar nesse oceano desconhecido chamado Oneance.



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