A gente já falou algumas vezes sobre gabrielfah nos nossos destaques da Divergent Beats. Acompanhamos alguns dos passos dessa nova fase do artista mineiro e, a cada lançamento, existe a sensação de que estamos conhecendo mais uma parte de algo que ainda está sendo construído. Agora, com “Leva”, seu quarto single solo, essa identidade parece ganhar contornos ainda mais fortes. Porque gabrielfah é um daqueles artistas que fazem da própria música uma espécie de guia para a espiritualidade e para a fé — não através de respostas prontas, mas através de perguntas, inquietações, fragilidades e da necessidade profundamente humana de encontrar alguma coisa em que se apoiar quando tudo ao redor parece pesado demais.
“Leva” é uma música sobre entregar. Mas, antes de chegar à entrega, ela atravessa tudo aquilo que carregamos.
E talvez seja justamente aí que a faixa consiga tocar de uma maneira tão bonita.
Natural de Belo Horizonte, gabrielfah chega aos 38 anos vivendo um momento de amadurecimento e, ao mesmo tempo, de começo. Sua relação com a música nasceu muito antes desse projeto solo: aos 10 anos, começou a tocar violão na igreja e cresceu musicalmente dentro de grupos, bandas e corais. Mais tarde, ainda na adolescência, integrou uma Orquestra de Violões ligada a músicos do movimento Clube da Esquina, experiência que aprofundou sua formação e o levou a diferentes palcos e cidades, algumas vezes dividindo espaços com nomes já conhecidos da música popular brasileira.
Toda essa bagagem está ali. Você consegue sentir.
Mas gabrielfah não parece interessado em simplesmente reproduzir aquilo que viveu musicalmente no passado. Seu trabalho autoral nasce justamente do encontro entre essas raízes e aquilo que ele é hoje. Existe gospel, existe rock alternativo, existe indie rock, existem rastros de grunge, mas existe, acima de tudo, uma vontade muito clara de transformar experiência humana em música.
Depois de It’s Ok, Reflexo e Chegou, “Leva” aparece como o quarto capítulo dessa trajetória solo e continua preparando o terreno para o primeiro álbum completo do artista, previsto para o segundo semestre de 2026. E existe algo interessante nessa escolha de apresentar o projeto aos poucos. Cada música funciona quase como uma página revelada antes do livro inteiro. Vamos entendendo sua linguagem, suas questões e, principalmente, a forma como ele enxerga a espiritualidade.
Porque “Leva” não fala simplesmente sobre acreditar.
A faixa olha para aquela nossa necessidade quase desesperada de acumular coisas, desejos, hábitos, certezas e necessidades na tentativa de preencher espaços internos que talvez nada disso consiga preencher. E, nesse movimento, gabrielfah também toca em um ponto delicado: a diferença entre viver verdadeiramente a fé e simplesmente repetir seus códigos.
Existe um questionamento das repetições vazias, daquilo que fazemos automaticamente, da futilidade que muitas vezes ocupa espaços enormes da nossa existência. Em contraposição, aparece uma ideia muito mais íntima de fé: algo que acolhe, acompanha e oferece força para continuar enfrentando as pequenas e grandes batalhas de todos os dias.
E musicalmente isso funciona porque “Leva” não tenta transformar essa reflexão em algo excessivamente delicado.
Existe peso.
Existe guitarra.
Existe uma crueza que vem do rock e encontra uma dimensão quase contemplativa no caminho. A produção de Giuliano Coura consegue deixar essas duas forças coexistirem sem que uma destrua a outra. gabrielfah assume violão, guitarra, voz e backing vocals, enquanto Giuliano aparece no baixo, guitarra, bateria e teclado. A mixagem e a masterização ficam por conta de Alan Walace, da Eminence.
É como se a música estivesse constantemente entre o chão e alguma coisa que existe acima dele.
E isso conversa diretamente com as referências que ajudaram a construir o universo do artista. De um lado, existe o peso atmosférico de nomes como Pink Floyd e Arctic Monkeys; do outro, uma formação atravessada por Oficina G3, Santa Geração e Clamor pelas Nações. Mas o mais interessante é perceber que essas influências não engolem gabrielfah. Elas ajudam a explicar de onde ele veio, enquanto “Leva” começa a mostrar cada vez mais claramente para onde ele quer ir.
Talvez por isso a música tenha essa capacidade de soar espiritual sem perder humanidade.
Não existe a impressão de alguém cantando de um lugar inalcançável. Existe uma pessoa tentando compreender suas próprias necessidades, reconhecendo o vazio que algumas escolhas deixam e procurando uma direção. E é justamente a vulnerabilidade dessa procura que faz “Leva” funcionar tão bem.
Até que chega um momento pequeno, quase simples, mas que ficou imediatamente com a gente:
“Eu necessito entregar até a ti o meu coração.”
É uma frase que poderia passar rapidamente dentro da música, mas não passa.
Porque existe algo extremamente humano em admitir que precisamos entregar aquilo que talvez estejamos cansados demais para continuar carregando sozinhos. Nesse instante, fé deixa de parecer conceito e vira gesto. Vira vulnerabilidade. Vira coração.
E talvez seja essa a parte mais bonita da música de gabrielfah.
Ele não utiliza a espiritualidade para fugir da realidade. Ele utiliza a música para atravessá-la.
“Leva” é mais um passo rumo ao álbum que chegará ainda em 2026, mas também é mais uma confirmação de que existe uma identidade sendo construída com muita verdade. Entre guitarras, inquietações, fé e perguntas que não precisam necessariamente encontrar respostas imediatas, gabrielfah continua abrindo seu caminho.
E a gente continua querendo ouvir para onde ele vai levar tudo isso.



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