Quem acompanha a Divergent Beats já conhece muito bem a Somacores. O duo formado pelos irmãos Luke e Pedro de Aguiar passou por aqui algumas vezes e, desde que escutamos Não Aprendi a Jogar, trabalho lançado no ano passado e que consideramos uma pequena obra de arte musical, existe uma curiosidade enorme em acompanhar os caminhos que os dois continuam abrindo dentro da música independente brasileira. Os singles que chegaram ao longo deste ano só reforçaram essa sensação, mas agora existe um novo capítulo nessa história: “miragem” não apenas carrega tudo aquilo que já aprendemos a amar no universo da Somacores, como ganha uma nova dimensão com a participação maravilhosa de Flau Flau, em uma colaboração sonora e vocal que deixa tudo ainda mais sublime.
Com lançamento marcado para 20 de agosto, “miragem” representa também um momento importante para a trajetória do duo: é o primeiro feat da carreira da Somacores. E existe algo especialmente bonito no fato de essa estreia acontecer justamente ao lado de uma artista cuja voz parece encontrar um espaço tão natural dentro da atmosfera criada por Luke e Pedro. Não existe aquela sensação de duas identidades tentando disputar a mesma música; pelo contrário, Somacores e Flau Flau parecem se encontrar exatamente no ponto em que suas sensibilidades conseguem conversar, criando uma faixa delicada, urbana, sonhadora e profundamente humana.
Formada em 2024, inicialmente em Rio das Ostras e hoje estabelecida no Rio de Janeiro, a Somacores nasceu depois de anos de parceria dos irmãos em outros projetos musicais. Luke e Pedro começaram a lançar seus primeiros singles como duo em 2025, construindo aos poucos uma identidade que atravessa indie, dream pop e rock alternativo enquanto encontra no cotidiano urbano uma fonte constante de histórias. Memórias, encontros, relações e aquelas pequenas imagens que normalmente atravessamos sem perceber se transformam em matéria musical, e “miragem” talvez seja uma das demonstrações mais bonitas dessa linguagem até agora.
A própria cidade participa da composição. Ruas, esquinas, vultos e multidões deixam de ser apenas cenário para se tornarem parte de uma procura, daquela sensação estranhamente familiar de acreditar ter reconhecido alguém no meio de centenas de pessoas e olhar outra vez, apenas para perceber que talvez não fosse quem imaginávamos. “miragem” fala sobre desejar alguém que parece estar constantemente próximo e, ao mesmo tempo, nunca perto o suficiente, e existe uma delicadeza enorme na maneira como a música transforma essa distância em atmosfera.
As referências passam por nomes como Terno Rei, Men I Trust e Tokyo Tea Room, mas a Somacores já possui personalidade suficiente para que essas aproximações funcionem muito mais como pistas do que como definições. Existe uma suavidade no instrumental, uma espécie de movimento suspenso que combina perfeitamente com a narrativa, enquanto os vocais divididos entre Luke e Flau Flau criam justamente essa impressão de duas presenças tentando se alcançar. A música vai acontecendo como uma caminhada pela cidade, com aquela esperança quase irracional de que, depois da próxima esquina, alguma coisa finalmente apareça.
E a história da participação de Flau Flau deixa tudo ainda mais especial. Pedro conheceu Flávia Belmont durante uma oficina online de produção musical ministrada por Benke Ferraz, guitarrista da Boogarins, durante a pandemia. Foi um período em que Pedro começava a dar seus primeiros passos como produtor e entrava em contato com outras pessoas interessadas profissionalmente pela música. Anos depois, já com a Somacores criada ao lado do irmão, os dois acompanharam o nascimento do projeto artístico de Flau Flau e se identificaram com sua estética. Quando “miragem” começou a ganhar forma, aquela conexão antiga encontrou finalmente um lugar para existir musicalmente.
Flau Flau, projeto da artista paraibana Flávia Belmont, estreou em 2025 com o álbum Íntimo Oriental, trabalho de dez faixas autorais construído entre Rio de Janeiro e João Pessoa e que contou com participações de Ynaiã Benthroldo, Dinho Almeida, da Boogarins, e Carol Maia. Sua música atravessa referências brasileiras, psicodelia e indie contemporâneo enquanto transforma experiências pessoais em composições intimistas e experimentais. Quando essa voz encontra o universo da Somacores, “miragem” deixa de parecer apenas uma participação e passa a soar como um encontro que precisava acontecer.
A produção musical é assinada por Pedro de Aguiar, enquanto a composição reúne Pedro, Luke e Flávia. Romero Coelho assume a engenharia de mixagem, Gabriel Vilela a masterização e Leandro Bessa a gravação da bateria. A construção visual também acompanha esse universo, com fotografia de Pedro Alce, capa de Ully Cabral e making of e assistência de conteúdo de Juliana de Freitas.
Mas, no fim, são as palavras que fazem “miragem” permanecer ainda mais tempo dentro da gente. Existe um momento em que a música diz:
“Vivo confundindo seu rosto entre a multidão / seu corpo é uma miragem.”
E que imagem bonita existe nisso. É cidade, desejo, ausência e imaginação ocupando o mesmo espaço. É procurar alguém no rosto de desconhecidos porque aquela pessoa já está tão presente dentro da cabeça que parece começar a aparecer em todos os lugares. A Somacores consegue transformar uma sensação extremamente comum em poesia, enquanto Flau Flau adiciona uma beleza vocal que faz essa procura ganhar ainda mais profundidade.
“miragem” é daquelas músicas gostosas de ouvir, mas que não desaparecem quando terminam. Ela permanece como permanecem algumas imagens depois de um sonho, sem sabermos exatamente por que continuamos pensando nelas. E talvez esteja justamente aí a força desse encontro: a faixa mostra com ainda mais clareza quem é a Somacores, ao mesmo tempo em que abre espaço para que a identidade de Flau Flau brilhe sem precisar diminuir nenhuma das duas partes.
Duas cenas, duas sensibilidades e três artistas se encontram em uma música sobre procurar alguém que talvez nunca tenha realmente saído da nossa cabeça. E poucas coisas poderiam definir melhor uma miragem.



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