Sabe aqueles álbuns em que você coloca o fone, aperta o play e, de repente, entra em uma viagem emocional, sonora e completamente pessoal que consegue mudar o seu dia? Foi exatamente isso que aconteceu com a gente escutando “A Calmaria No Meio Do Vendaval”, de tomate cereja. É daqueles trabalhos que não chegam simplesmente para ocupar alguns minutos do seu tempo. Eles entram devagar, encontram um espaço dentro da cabeça e começam a conversar com coisas que você talvez nem soubesse que estavam ali.
São dez músicas construídas por Helena, a pessoa por trás de absolutamente tudo que existe dentro do projeto tomate cereja. Composição, instrumentos, fotografia, design, filmagem: tudo passa por ela. E talvez seja justamente essa relação tão íntima com cada detalhe que faça o álbum parecer tão pessoal. Você não sente que está apenas ouvindo uma banda; sente que está entrando diretamente dentro da cabeça de alguém.
O tomate cereja nasceu em São Bernardo do Campo, em São Paulo, em outubro de 2024, mas a história começou muito antes. Helena já escrevia letras havia anos, guardando palavras que muitas vezes não tinham sequer alguém para ler. Vieram tentativas de formar bandas, encontros com amigos e aquelas divergências que, infelizmente, fazem muitos projetos desaparecerem antes mesmo de começar. Até que Helena decidiu parar de esperar pela formação perfeita e simplesmente fazer sozinha.
A música já fazia parte da sua vida desde 2019, quando ganhou seu primeiro teclado e começou a compor. Em 2023, chegou a guitarra — e com ela veio também uma paixão ainda mais profunda pelo rock nacional, inicialmente impulsionada por referências como Terno Rei. Daquele momento em diante, o caminho foi se abrindo para um universo muito maior.
Shoegaze, dreampop, indie rock, noise, ambient rock, experimental, indie pop, post-punk. Tudo isso aparece no tomate cereja. Mas existe uma expressão que talvez explique melhor o coração do projeto: o rock triste.
E A Calmaria No Meio Do Vendaval entende perfeitamente esse lugar.
O álbum nasceu de uma inquietação muito específica: o excesso de pensamentos. Não simplesmente pensar muito, mas pensar tanto que, em determinado momento, tudo se transforma em ruído. Os pensamentos deixam de ter começo, meio ou fim e passam a existir como uma massa de caos dentro da cabeça. É essa sensação quase impossível de explicar que Helena tenta transformar em música.
E ela faz isso de uma maneira especialmente bonita porque não tenta preencher cada espaço. Pelo contrário. O instrumental ocupa um lugar central, criando paredes de som, atmosferas, texturas e silêncios. A voz aparece muitas vezes como uma presença dentro desse universo — quase como aquela pequena voz que continua falando na nossa cabeça enquanto todo o resto acontece.
É impossível não perceber a influência do shoegaze, principalmente de My Bloody Valentine e do álbum olhar pra trás, da terraplana. Mas o disco não fica preso ao barulho. Helena também abre espaço para ambient, lo-fi e indie pop, criando momentos em que a música parece respirar depois de passar por uma tempestade.
E talvez seja justamente essa contradição que dê sentido ao título: existe vendaval, mas existe também calmaria.
O mais bonito é perceber que as duas coisas podem existir simultaneamente.
Entre as dez faixas, “Saudades Pangeia” foi aquela que deixou uma marca mais profunda em nós. É uma música que parece fazer o caminho contrário de uma canção tradicional: em vez de levar você para algum lugar específico, ela faz você voltar para dentro de si mesmo. Existe nela uma sensação de deslocamento, de memória, de algo que não conseguimos tocar completamente, mas que reconhecemos assim que ouvimos.
“Saudades Pangeia” é uma viagem interna. E talvez tenha sido justamente por isso que ela nos emocionou tanto.
“e será que eu fiz algo de errado? que lá no passado você já sabia que não ia dar pra gente se ver que não ia dar pra reconhecer”
Porque existem momentos em que a música não precisa explicar aquilo que estamos sentindo. Ela simplesmente cria um espaço onde podemos sentir. E quando uma música consegue fazer isso, existe alguma coisa muito poderosa acontecendo.
A Calmaria No Meio Do Vendaval é, no fundo, um álbum sobre essa experiência tão contemporânea de viver dentro da própria cabeça. Sobre pensamentos que não desligam, memórias que reaparecem sem avisar, sentimentos que se transformam em ruído e a tentativa quase impossível de encontrar algum silêncio no meio de tudo.
Helena não tenta silenciar o caos. Ela transforma o caos em som.
E talvez seja essa a grande força do tomate cereja.
Um projeto que nasceu porque uma garota cansou de escrever músicas sem ter para quem mostrar agora encontra uma identidade própria, inteira e profundamente humana. Uma identidade feita de guitarras, ruídos, atmosferas, voz, experimentação e, acima de tudo, sentimento.
No final, você tira o fone e percebe que alguma coisa mudou.
Talvez não o mundo.
Talvez nem o seu dia.
Mas alguma coisa dentro de você ficou um pouco mais quieta.



Deixe uma resposta