A cena alternativa carioca é uma daquelas cenas que continuam deixando a gente, da Divergent Beats, de boca aberta. Existe alguma coisa no Rio de Janeiro que faz nascer bandas e artistas que entendem o rock alternativo não apenas como gênero, mas como linguagem, urgência, desconforto, maneira de existir. E foi exatamente essa sensação que tivemos escutando “Animal Por Excelência”, segundo EP da meio/cão: quatro faixas que, para nós, formam uma pequena obra de arte sonora.

São apenas quatro músicas: Merge Hell, Sannakji, Lapa. e Animal Por Excelência. Mas esqueça qualquer ideia de que quatro faixas significam pouco. Aqui existe um mundo inteiro comprimido. Uma música não parece com a outra e, ainda assim, todas carregam imediatamente a mesma impressão digital. É post-punk que arranha, incomoda, pulsa e encontra beleza justamente no lugar onde tudo parece prestes a desabar.

A meio/cão é formada por Lucas Gabriel, nos vocais, guitarra, sax e synth; Victor Bueno, no baixo e vocais; Jay Fernandes, na bateria e percussão; e Guilherme Jungstedt, guitarrista também da Metabrisa e novo integrante do grupo. Depois de Perversor, o primeiro EP, a banda chega agora a um trabalho muito mais refinado, construído depois de um período em que sua própria existência chegou a ficar suspensa.

Em 2024, Victor voltou a morar em São Paulo enquanto os outros integrantes permaneceram no Rio. Veio praticamente um ano de hiato. A banda só retomaria o projeto no fim de 2025, carregando músicas que, em grande parte, já existiam desde a época de Perversor. E talvez seja justamente o tempo que separou essas pessoas que tenha feito o reencontro soar tão intenso.

Victor explica isso de uma maneira que adoramos: “O ‘término’ da banda influenciou muito nesse EP. Acho que ele está mais refinado que o primeiro justamente pelo tempo que tivemos pra entender o que queríamos pro futuro do nosso som.”

É bonito demais pensar nisso. Às vezes, parar também faz parte da criação. Distância também pode construir identidade. E Animal Por Excelência parece carregar exatamente essa sensação de quatro pessoas que voltaram sabendo um pouco melhor o que queriam dizer — e, principalmente, como queriam soar.

Gravado em home studio no Rio, o EP foi produzido pela própria banda, com Lucas Gabriel assumindo produção, gravação, mixagem e masterização e Victor Bueno trabalhando na coprodução. Lucas mergulhou no processo técnico, estudando e experimentando enquanto o disco era construído. Até pequenos áudios aleatórios e momentos de Jay falando nonsense acabaram escondidos nas gravações como easter eggs.

Nada aqui parece excessivamente limpo — e graças a Deus por isso.

Existe abrasão. Existe melodia. Existe barulho. Existe aquela tensão maravilhosa do post-punk em que você sente que alguma coisa pode quebrar a qualquer segundo.

E existe Rio de Janeiro.

Porque a política de Animal Por Excelência não aparece como discurso pronto. Ela está na paisagem. Está nas contradições de uma cidade onde riqueza e desigualdade podem ocupar praticamente a mesma calçada. A meio/cão não tenta explicar o Rio: ela transforma a pressão de viver dentro dele em som. As letras são abstratas, cortantes, carregadas de imagens que deixam marcas antes mesmo de você conseguir organizá-las completamente.

Talvez seja por isso que escolher uma faixa favorita seja praticamente impossível.

Sannakji, que durante o processo acabou se transformando em instrumental, mostra como a banda consegue comunicar sem precisar colocar uma palavra no centro. Lapa., primeira composição desse ciclo e inicialmente deixada de fora de Perversor por destoar daquele trabalho, encontra finalmente seu lugar. A faixa-título fecha tudo como se colocasse um nome naquela tensão que atravessou o caminho inteiro.

Mas precisamos falar de “Merge Hell”.

A intensidade já está na sonoridade. É pesada, urgente, quase física. Você sente a música empurrando. E então existe aquele refrão que insiste:

“Não há mais lugar pra você nessa casa.”

E ele volta. E volta. E volta. Até deixar de parecer simplesmente uma frase.

No contexto da música, aquilo vira uma bomba. Pode ser expulsão, ruptura, limite, sociedade, casa, corpo, pertencimento. Pode ser tudo ao mesmo tempo. É exatamente aí que a abstração da meio/cão ganha uma força absurda: ela não entrega uma interpretação pronta, ela coloca alguma coisa dentro de você e deixa aquilo incomodar.

Até visualmente o EP nasce desse mesmo universo. A capa, assinada pelo fotógrafo Daniel Sulima, surgiu depois que Lucas e Victor encontraram a imagem em uma exposição e reconheceram nela aquela estética urbana que atravessava o disco.

E agora a meio/cão já olha para frente: prepara seu primeiro videoclipe, continua tocando e começa a pensar no primeiro álbum de estúdio.

Mas existe uma frase de Victor que talvez explique melhor do que qualquer definição aquilo que essa banda realmente quer: “A gente não busca fama, mas sim contato. Escrevemos e gravamos pra poder tocar. A prioridade é sempre tocar.”

E talvez seja exatamente isso que sentimos em Animal Por Excelência. Contato. Atrito. Quatro músicas entrando em colisão com quem está ouvindo.

A meio/cão não quer deixar você confortável. Quer fazer você sentir. E consegue.



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