O mundo do emo, do rock alternativo e do pop punk brasileiro continua entregando para a gente novos artistas, novas bandas e, principalmente, músicas que conseguem olhar para referências que marcaram uma geração sem simplesmente tentar reproduzir aquilo que já existiu. E foi exatamente essa sensação que tivemos quando escutamos “Sempre o Mesmo Dia”, novo single da banda carioca Mórulla.

Existe alguma coisa nessa faixa que imediatamente nos transporta para aquele universo gigantesco dos anos 2000, para uma época em que o rock parecia carregar uma liberdade quase adolescente de falar sobre qualquer coisa, transformar pequenas crises em refrões e fazer das confusões da própria vida uma música para cantar junto. Só que a Mórulla pega toda essa nostalgia e coloca dentro de uma realidade absolutamente atual, adulta, cansada, ansiosa e até um pouco engraçada — porque, às vezes, rir do caos é realmente tudo o que resta.

Formada no Rio de Janeiro por Felipe Vilardo, na voz e guitarra, Gabriel Barreiros, na bateria, e Luís Reis, no baixo e voz, a Mórulla nasceu justamente de um projeto de covers de pop punk e hardcore dos anos 2000. Essa origem ajuda a entender algumas das referências que aparecem naturalmente em sua música, mas o mais interessante é perceber como o trio amadureceu até encontrar uma identidade autoral que não vive exclusivamente de nostalgia. A Mórulla traz o espírito daquela época para falar sobre aquilo que significa tentar sobreviver à vida adulta agora, transformando procrastinação, dúvidas, ansiedade, frustrações e aquela eterna sensação de ainda não ter entendido completamente como a vida funciona em algo que gera identificação em vez de vergonha.

Sempre o Mesmo Dia”, lançada em 7 de agosto, é talvez uma das melhores apresentações possíveis desse universo. Composta por Felipe Vilardo, Gabriel Barreiros e Luís Reis, a faixa inaugura o caminho para o EP Apesar Disso e trabalha dentro daquilo que a própria banda define como punk softcore, flertando naturalmente com o pop punk e carregando guitarras que avançam enquanto a narrativa parece fazer exatamente o contrário. Existe movimento na música, existe energia, existe aquela vontade quase automática de acompanhar o ritmo com o corpo, mas a pessoa dentro da letra está parada, tentando entender para onde foi mais um dia.

E é justamente nessa contradição que a música fica tão gostosa.

Porque quem nunca viveu aquele dia em que acordou mais tarde do que deveria, pegou o celular por alguns minutos e, quando percebeu, parecia que o sol já estava indo embora? Você tinha coisas para fazer, mensagens para responder, talvez algum compromisso que nem lembra mais se cancelou, planos que pareciam importantes na noite anterior e uma vontade enorme de começar alguma coisa, mas, por algum motivo, simplesmente não começou. “Sempre o Mesmo Dia” consegue transformar esse pequeno fracasso cotidiano, que parece banal quando contado para outra pessoa, em uma fotografia extremamente honesta da nossa geração.

E então chega um dos trechos que mais ficou com a gente:

“Saí pra conquistar aquilo que queria / mas logo hoje tenho fisioterapia / será que desmarquei? Será que eu já fui? / meu dia é sempre igual, não sinto que ele flui / mas a minha ansiedade não diminuiu.”

É maravilhoso porque não existe a necessidade de inventar uma metáfora gigantesca para falar sobre ansiedade, cansaço ou procrastinação. A fisioterapia está ali. A dúvida sobre ter desmarcado está ali. A sensação de que nada aconteceu também. E, enquanto aparentemente nada acontece, a ansiedade continua funcionando perfeitamente. Talvez essa seja uma das ironias mais cruéis da vida adulta: podemos estar completamente parados enquanto, por dentro, tudo continua correndo em velocidade máxima.

É aí também que a conexão entre passado e presente funciona tão bem. Musicalmente, existe aquela nota nostálgica que faz lembrar o pop punk e o emo dos anos 2000, mas a letra pertence completamente ao agora. Não existe uma tentativa de voltar no tempo; existe a utilização daquela linguagem sonora para contar uma nova fase da vida de quem talvez tenha crescido ouvindo exatamente esse tipo de música e hoje precisa conciliar sonhos, boletos, compromissos, ansiedade, trabalho e, aparentemente, fisioterapia.

A Mórulla entende também que falar sobre essas coisas não significa necessariamente dramatizá-las. Essa talvez seja uma das características mais interessantes da banda: as dificuldades aparecem com peso, mas também com humor, porque a vida real quase nunca é exclusivamente triste ou exclusivamente engraçada. Às vezes ela é as duas coisas na mesma tarde. A banda não oferece respostas, não transforma a música em palestra motivacional e muito menos julga a pessoa que continua na cama enquanto as oportunidades parecem passar pela janela. Ela simplesmente senta ao lado e reconhece aquela sensação.

Isso ganha ainda mais significado quando entendemos que “Sempre o Mesmo Dia” é apenas o primeiro capítulo de algo maior. Apesar Disso será construído através de três singles lançados entre agosto e novembro de 2026, formando um arco que começa justamente na procrastinação, atravessa a urgência e procura chegar, no fim, à esperança. Existe algo muito humano nessa estrutura porque reconstrução raramente começa com uma grande revelação; muitas vezes, ela começa simplesmente quando percebemos que estamos vivendo o mesmo dia outra vez.

E talvez seja exatamente por isso que gostamos tanto desse single. A Mórulla recupera uma energia musical que desperta nostalgia, mas coloca dentro dela uma vida que está acontecendo agora, com todas as suas pequenas derrotas, contradições e ansiedades. “Sempre o Mesmo Dia” é divertida, energética, familiar e, ao mesmo tempo, dolorosamente verdadeira. É daquelas músicas que fazem você sorrir porque se reconheceu na letra e, alguns segundos depois, pensar que talvez tenha se reconhecido um pouco mais do que gostaria.

Se esse é apenas o começo de Apesar Disso, a gente já quer saber como termina esse dia.



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