Não existe nada mais bonito do que ver um artista verdadeiramente talentoso pegar músicas que já fazem parte da nossa memória e reinterpretá-las sem perder a própria identidade. É um exercício delicado. Existe uma linha muito fina entre homenagear uma obra e simplesmente reproduzi-la. Mas foi exatamente aí que Eu Jonatha Mermo nos surpreendeu. Desde o primeiro play deste novo EP, fica claro que não estamos diante de três covers. Estamos diante de três novas experiências musicais.
Naturalmente, quando pensamos em “Some ou Me Assume”, de João Gomes, “Eu e Você Sempre”, de Jorge Aragão, e “Eu Só Quero um Xodó”, de Dominguinhos, nossa memória nos leva imediatamente ao piseiro, ao samba e ao baião. São canções que carregam uma identidade cultural muito forte dentro da música brasileira. Mas bastam poucos segundos para perceber que Jonatha escolheu outro caminho.
Ele não muda apenas a sonoridade. Ele muda a forma como sentimos essas músicas.
As guitarras densas, as reverberações e toda a estética do shoegaze criam uma atmosfera completamente diferente. O que antes era calor, dança ou celebração ganha uma dimensão quase contemplativa. As músicas parecem flutuar. Ganham novas texturas, novos silêncios e uma profundidade emocional que faz o ouvinte redescobrir cada verso como se fosse a primeira vez.
É justamente isso que torna este trabalho tão especial.
Porque reinterpretar nunca foi sobre apagar a versão original.
É sobre revelar possibilidades que sempre estiveram escondidas dentro dela.
Nós, da Divergent Beats, gostamos muito quando um artista demonstra coragem para dialogar com a tradição sem sentir a necessidade de competir com ela. Jonatha entende perfeitamente esse equilíbrio. Em nenhum momento existe a tentativa de substituir os clássicos. Pelo contrário. O que ele faz é abrir uma nova porta para eles, mostrando que grandes composições continuam emocionando mesmo quando mudam completamente de roupa.
E talvez essa seja a maior qualidade deste EP: ele faz você escutar músicas que conhece há anos como se nunca as tivesse ouvido antes.
As três releituras carregam uma identidade muito própria. O shoegaze não aparece como um simples efeito estético. Ele se torna linguagem. As camadas de guitarra criam paisagens sonoras imensas, enquanto a delicadeza dos arranjos preserva toda a força emocional das composições originais. Existe uma beleza muito rara nessa combinação entre experimentação e respeito.

Esse olhar artístico acompanha toda a trajetória de Jonatha Carvalho, músico e produtor de Floriano, no Piauí, que há anos vem construindo um caminho profundamente ligado à música independente brasileira. Além dos projetos Nós e Chico e Inválido Artista Não Encontrado, Jonatha desenvolve sua carreira solo como Eu Jonatha Mermo, espaço onde experimenta livremente diferentes sonoridades e linguagens.
Essa inquietação também aparece fora dos palcos. Em 2018, criou o selo APENAS1teste Records, com o objetivo de apoiar artistas e bandas independentes que não tinham acesso à gravação de seus trabalhos. Mais do que produzir a própria música, Jonatha decidiu fortalecer uma cena inteira.
Ao longo dos anos, lançou os EPs “Fase Um”, “Estou Flutuando no Espaço” e “Janeiro Não É o Primeiro Mês do Ano”, além do álbum “Se Eu Tivesse uma Banda” e diversos singles. Paralelamente, desenvolve o projeto 27 músicas, uma iniciativa que busca construir uma parceria musical com um artista de cada estado brasileiro, reforçando ainda mais sua visão colaborativa da arte.
Tudo isso ajuda a entender por que este novo EP soa tão natural.
Não parece um experimento feito apenas para chamar atenção.
Parece a consequência lógica de alguém que sempre enxergou a música como um espaço sem fronteiras.
E isso transparece em cada segundo dessas três faixas.
Ao terminar a audição, a sensação é curiosa. São apenas três músicas, mas elas permanecem dentro da gente durante muito mais tempo do que muitos álbuns completos. Existe uma delicadeza enorme na forma como Jonatha reconstrói essas obras, permitindo que elas respirem de outra maneira sem perder aquilo que as tornou inesquecíveis.
É impossível não terminar o EP de boca aberta.
Não apenas pela qualidade dos arranjos.
Mas pela sensibilidade.
Pela coragem de aproximar universos que, à primeira vista, parecem distantes.
E pela prova de que a música brasileira continua sendo um território infinito para quem tem criatividade suficiente para enxergá-la além das convenções.
Eu Jonatha Mermo não gravou apenas três covers. Gravou três novas maneiras de sentir canções que já faziam parte da nossa história.
E isso é um dos maiores elogios que qualquer releitura pode receber.




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