E quando você menos espera, boom — chega The Parking Lots.
Sem aviso, sem pose, sem a pretensão de salvar nada. Só música. Daquela que entra direto, sem pedir licença, e começa a fazer perguntas que você vinha evitando.
We The People Are The Parking Lots não é um álbum que tenta te impressionar. Ele simplesmente acontece. Dez faixas curtas, pouco mais de vinte e nove minutos, e uma sensação estranha de reconhecimento: é isso. É o som de quem vive esse tempo com os olhos abertos e o corpo cansado, mas ainda em movimento.
O disco carrega indie rock e punk na medida certa — cru, urbano, honesto. Não tem excesso, não tem maquiagem. As guitarras soam como desabafo, a bateria empurra tudo pra frente e as letras fazem o que poucas conseguem: dizem coisas difíceis de forma simples, direta, quase íntima.
“The Light!” foi uma daquelas faixas que nos pararam no meio da escuta. Não pelo volume, mas pelo impacto.
“Lord, show me the light, but don’t drag me down to the darkness, where those who believe in you live in”
É uma frase que desmonta. Porque não ataca, não acusa — ela pede. Pede luz sem culpa, fé sem medo, sentido sem opressão. E isso, hoje, é radical.
Mesmo cantando majoritariamente em inglês, o momento em português em “Young Punks In The Park” quebra a distância e lembra: essa inquietação tem endereço, tem chão, tem gente real por trás. O álbum fala de pós-modernidade, capitalismo tardio, cansaço coletivo — mas nunca de um lugar frio ou teórico. Ele fala de dentro.
We The People Are The Parking Lots não te oferece consolo fácil. Ele te acompanha. E talvez seja exatamente isso que torna esse disco tão necessário agora.
Por tudo isso, sentamos para conversar com a banda. Sobre percurso, escolhas, letras, fé, ruína e a tentativa — honesta — de encontrar alguma luz sem aceitar a escuridão imposta.
A seguir, você confere a entrevista com o The Parking Lots.
The Parking Lots nasce em 2019 como um projeto quase de estúdio, de gravação, e aos poucos vira banda, corpo e presença. Em que momento vocês sentiram que isso já não era só um projeto, mas algo que precisava existir de verdade no mundo?
Felipe: Por volta de 2017, eu voltei a compor depois de um hiato de dez anos. Eu não sabia o que fazer com essas músicas e decidi gravá-las: elas acabaram virando o EP “Something New” (2019). Recebi algumas propostas para tocar ao vivo depois que o EP saiu, fiz um show solo voz-e-violão e aí alguns amigos se ofereceram pra tocar bateria e baixo ao vivo. Nesse momento, o projeto de gravação virou banda “banda”. Depois de dois shows, o primeiro baixista saiu e o Edu se juntou à banda, e no início de 2024, o Vini assumiu a bateria.
Eduardo: Quando viramos um trio e o Felipe assumiu a guitarra, isso trouxe muito mais peso e distorção às composições. Até o fim da pandemia, The Parking Lots era o projeto violeiro do Felipe, onde se tinha muito a influência de trovador. Quando a loucura da pandemia acabou e pudemos voltar a nos encontrar, o momento era outro.
Vini: Da minha perspectiva, de quem chegou depois, acho que acabou rolando uma combinação de coisas. Eu estava sem tocar há bastante tempo e existia a vontade de voltar a tocar e participar de algo assim. Acho que algo pós-pandemia/Bolsonaro. Veio o convite do Felipe e tudo encaixou, bateram os gostos musicais, bateu o som que a gente almejava.
“We The People Are The Parking Lots” soa como um título-manifesto, coletivo e político, mas também muito humano. O que esse nome representa para vocês enquanto banda e enquanto pessoas vivendo esse tempo estranho que a gente chama de presente?
Felipe: Quando comecei a escrever as músicas que dariam origem ao The Parking Lots, eu estava ouvindo bastante Woody Guthrie e folk em geral. Também andava refletindo sobre o mau uso do espaço urbano e sobre o conceito de reificação (“coisificação”) do Marx. Achei que seria interessante chamar a banda de The Parking Lots: “nós somos The Parking Lots, nós somos Os Estacionamentos”. Somos uma COISA: somos um espaço que deveria ser público mas é privado, que serve pra deixar carro parado (carro que só faz destruir o meio-ambiente e prejudicar a mobilidade urbana).
Em seguida, eu escrevi a letra que fecha o álbum: “We Are The Parking Lots”. O nome do disco “We The People Are The Parking Lots” veio para expandir a parada. Não apenas Edu, Vini e eu somos Estacionamentos: nós “o povo” somos Estacionamentos. Quando eu estava conversando sobre o conceito do disco com o Rafael Ramos (o artista plástico que fez a arte do álbum), ele apontou uma coisa que eu não tinha percebido: “We The People…” é a abertura da constituição estadunidense. E tudo ficou mais interessante: imaginar como seria anunciar, no ato inaugural de uma sociedade, que o povo é “coisa” ao invés de cidadão.

O disco tem um som cru, direto, urbano — indie rock, punk, garage — sem muitos filtros. Essa escolha veio mais da urgência de dizer algo ou da forma como vocês se sentem musicalmente hoje?
Eduardo: O conceito do Parking Lot é do Felipe; ele é o responsável por todas as composições e arranjos. Começou como um projeto e após a pandemia, com frequência maior de ensaios e troca de integrantes, chegamos à salada que é hoje. Antes, o som era muito mais leve do que hoje em dia, e isso tem muito a ver com o momento por que o Felipe passava na época. Hoje a gente mantém o mesmo espírito, mas o Parking Lots se consolidou como um power trio muito mais noise e power pop do que era até dois anos atrás, e isso se deve muito à minha entrada e à do Vini. A gente trouxe muito do que foi o college rock dos anos 90, então aqui é uma torre de Babel, que vai desde Teenage Fanclub e Superchunk até Taylor Swift — que só o Felipe gosta, hehe.
Vini: E é um tipo de som que acho que tá rolando uma coisa geracional do pessoal que viveu a última época pré-internet/redes sociais. Não tá difícil achar bandas com essa sonoridade, tentando algo mais vivo, mais fácil de enxergar uma banda tocando de fato, sem camadas demais.
Felipe: Eu até gosto da Taylor Swift e os rapazes tiram onda comigo por isso, mas ela não influencia em nada nosso som rs. Eu acho que a sonoridade à qual a gente chegou no disco é bem uma intersecção entre as coisas que nós três gostamos: punk rock com melodia, indie 90s e uns noises – com um pouquinho de country-folk que permaneceu da ideia original.
As letras refletem muito o mal-estar da pós-modernidade, do cansaço, da ironia e da frustração cotidiana. Escrever sobre isso foi mais um desabafo pessoal ou uma tentativa consciente de dialogar com quem vive as mesmas inquietações?
Felipe: Oito de dez das letras do disco foram escritas há quase dez anos, uma época em que eu andava refletindo sobre a condição de vida sob o que posteriormente seria denominado “capitalismo tardio”. Era o começo da hiperconectividade e da exacerbação do neoliberalismo, além de ser uma época politicamente conturbada no Brasil: o golpe de estado de 2016 havia deposto a presidenta Dilma e, após anos de avanços civilizatórios, entrávamos em um momento de retrocesso que culminaria em Bolsonaro.
Eu sentia um mal-estar muito grande que se intensificou nos anos seguintes. As duas letras mais recentes do disco são “Not You, Not Me – Just Late Capitalism” (que aborda as condições de trabalho pós-pandemia, a exaustão causada pelas telas e o fim dos limites entre os ambientes doméstico e de trabalho) e “The Tortured Workers Department” (que atualiza a luta de classes para a pós-modernidade ao tratar do processo de uberização). Acho que abordar essa temática nas letras foi mais uma forma de elaborar a crise do que “conscientizar” alguém – não gosto dessa ideia, soa arrogante pra mim. Mas é claro que é massa quando alguém se identifica com o que foi escrito ou tem uma sacada que não tinha tido antes.
“The Light!” foi uma faixa que nos atingiu em cheio, especialmente quando vocês cantam: “Lord, show me the light, but don’t drag me down to the darkness, where those who believe in you live in”. De onde nasceu esse verso e o que ele carrega de pessoal, espiritual ou político para vocês?
Felipe: Já contei que o começo do The Parking Lots foi influenciado por música estadunidense de raiz, como folk e country. Também gosto de spirituals, as músicas cantadas em igrejas pela população pobre e negra nos Estados Unidos. Decidi escrever um espiritual a partir da perspectiva do ateu que sou. Como lidar com o sofrimento sem o amparo de uma divindade? Como sair da escuridão sem ser tragado para o obscurantismo das religiões tradicionais? Esse verso é meio sobre isso. É uma pergunta de alguém em desespero e eu não sei a resposta. Só acho realmente difícil viver, por conta do capitalismo e de questões psicológicas com as quais tenho que lidar.
Mesmo cantando majoritariamente em inglês, “Young Punks In The Park” traz um trecho em português e uma participação especial. O que motivou essa quebra de idioma e o que ela representa dentro do álbum?
Felipe: “Young Punks In The Park” é uma letra baseada em uma história real: eu estava no Parque Ibirapuera ensinando meu filho mais novo a andar de bicicleta e avistei uns moleques punks carregados no visu (jaqueta de couro, coturno, corrente) sob o sol de quarenta graus. Eu achei a cena linda, voltei pra casa e escrevi a música. O lance dos versos em português surgiu quando a gente estava fazendo a pré-produção do disco. Achamos que ficaria legal uma parte falada, e com o português deu pra incorporar um pouco do universo do punk paulistano: lembro dos punks adolescentes na porta do Hangar 110 bebendo batida de coco e pedindo cigarro ou dinheiro pra entrar nos shows, por exemplo.
Vini: Quando entrei na banda, achei que a gente trabalharia as músicas do EP “Rebobine Antes De Devolver”, e de repente a gente tava gravando dez novas músicas em inglês. Foi legal encarar isso, as músicas estavam coesas entre si e o inglês parecia o caminho certo. Pra mim, esse pequeno trecho cantado em português funciona pra lembrar que a banda tem esse lado. E o toque especial de chamar a Isabella para participar foi ótimo, ela tem ótimas músicas com a Schlop com trechos mais falados assim.
Felipe: Muito provavelmente as próximas músicas serão em português. As músicas do disco meio que “saíram” em inglês: era aquela época descompromissada em que a banda não existia de fato. Como eu trabalho como professor de inglês, isso foi meio natural. Atualmente, tenho vontade de escrever em português, mas sem dogma também: se surgir uma música massa em inglês e a gente gostar, não vejo nada que impeça a gente de gravá-la.
Gravar o disco ao longo de um ano, produzir de forma independente e cuidar da mix e masterização internamente exige entrega e paciência. O que esse processo ensinou a vocês sobre autonomia, confiança e identidade artística?
Eduardo: A melhor coisa que tem é trabalhar com amigos que estão dispostos, que nem você. Esse disco só saiu graças ao Luciano de Setti, engenheiro responsável que entendeu o que queríamos fazer, e abraçou a empreitada de corpo e alma.
Felipe: O Edu respondeu em outra pergunta que eu sou responsável por todos os arranjos e acho que isso foi verdade no início da banda, mas já nesse disco a gente fez as coisas coletivamente: é verdade que eu chegava com uma proposta de arranjo, mas a gente foi modificando tudo conforme colocou as ideias em prática. A gente fez uma pré-produção de um ano pra conseguir chegar ao estúdio e gravar bateria, baixo e guitarra base ao vivo. Eu mixei e masterizei o disco junto com o Luciano e gostei muito do processo.
Eu tinha bastante clareza de onde queria chegar e gostei bastante do resultado final – apesar de e especialmente por causa dos erros que eu cometi nesse processo. Gosto de discos que têm alguma estranheza: que têm um som peculiar, diferente. Aprendi um monte com o Luciano. O Vini também foi fundamental na mixagem: apesar de ele não ter acompanhado todas as sessões, a gente acionava ele quando chegava a algum impasse e, muitas vezes, ele tinha alguma ideia que resolvia o problema.
Vini: Sinceramente, acho que só partindo pro próximo vai dar pra saber se ensinou mesmo. Foi um processo bastante cansativo (Felipe e Luciano que o digam) e sempre com bastante dúvida se a gente estava acertando. Mas o resultado final foi super satisfatório; estamos contentes.

Para fechar: qual é a mensagem que The Parking Lots gostaria de deixar para os leitores da Divergent Beats — pessoas que se sentem deslocadas, cansadas, críticas ao sistema, mas que ainda acreditam que algo novo pode surgir?
Felipe: Não tenho uma resposta pronta nem uma solução pro mal-estar – embora eu consiga compreender as raízes do problema a partir de uma visão marxista do mundo. Se eu soubesse o que fazer (parafraseando Lênin), não estaria fazendo música, e sim militando ativamente para a Revolução Socialista. A História mostra que em momentos em que as condições da classe trabalhadora se tornam insustentáveis, mudanças se impõem. É meio isso que a gente afirma quando canta em “We Are The Parking Lots” que algo novo há de surgir, mas não dá pra dizer o que será: a transformação vai ser apenas uma reconfiguração do capitalismo ou, finalmente, a superação do modo de produção vigente pelo socialismo?
Para terminar a entrevista de um modo relativamente positivo, eu realmente acho que a gente tem um espaço valioso no underground: uma comunidade que compartilha mais ou menos dos mesmos valores, se apoia e, principalmente, se encontra presencialmente nos shows. Então acho que o máximo que eu consigo dizer em termos de conselho – por falta de palavra melhor – é que eu acho que as pessoas devem se juntar, voltar a passar tempo junto, e consumir e produzir arte feita a partir de inquietações. No meu ateísmo, só consigo enxergar algum sentido na existência quando estamos juntos de pessoas que amamos e quando consumimos e produzimos arte.
Eduardo: Find some moderation before we’re dead.
Vini: Deslocadas, cansadas e críticas, uni-vos. Se encontrem, frequentem os shows, montem bandas, dividam palco com amigos. Tem muita banda legal tocando, muito show legal pra dar uma espiada.
https://www.instagram.com/wearetheparkinglots

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